Todo torcedor do Palmeiras sabe cantar de cor. “Quando surge o Alviverde imponente, no gramado em que a luta o aguarda…” — são versos que entram na cabeça ainda na infância e nunca mais saem. Mas quem foi o responsável por criar essas palavras e essa melodia que já emocionou gerações inteiras de palmeirenses?

A resposta tem nome, sobrenome e uma história cheia de detalhes que a maioria das pessoas nunca ouviu falar. O hino da Sociedade Esportiva Palmeiras foi composto em 1949 por Antonio Sergi, maestro compositor e regente da orquestra ítalo-brasileira. Mas o que torna essa história ainda mais fascinante é o contexto em que ela aconteceu, mudança forçada de nome do clube durante a Segunda Guerra Mundial, um piano numa casa de bairro em São Paulo e um irmão fanático pelo Verdão que ficava de cama quando o time perdia.

Há ainda um detalhe que confundiu torcedores por décadas: o hino foi assinado com um nome falso. Por muitos anos, torcedores esbarraram em duas assinaturas: Antônio Sergi e Gennaro Rodrigues. Na verdade, Gennaro Rodrigues era um pseudônimo que Sergi usava quando escrevia letras, pois ele preferia regência e arranjos.

image 8

Quem foi Antônio Sergi, o autor do hino do Palmeiras

Antônio Sergi nasceu em Squillace, na Itália, em 6 de junho de 1913, e faleceu em São Paulo em 3 de junho de 2003. Foi um maestro, compositor e regente de orquestra ítalo-brasileiro. Apesar de ter nascido na Europa, sua vida se construiu inteiramente no Brasil e São Paulo foi o cenário de toda a sua trajetória.

Apelidado de Totó, fez sucesso ao trabalhar na direção artística de algumas das principais rádios da cidade, como a Educadora Paulista, que daria origem à Rádio Gazeta. Era uma figura tão respeitada no cenário cultural paulistano da primeira metade do século XX que constantemente o contratavam para animar eventos da alta sociedade, entre eles os bailes no casarão da família Matarazzo, na Avenida Paulista.

O que muita gente não sabe é que Totó não era apenas músico. Naturalizado brasileiro, era também médico cardiologista formado pela Escola Paulista de Medicina. Músico, regente, arranjador e professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, Antônio Sergi tornou-se bastante conhecido do público pela sua atuação nas principais rádios paulistas. Foi diretor artístico da Rádio Cruzeiro do Sul, regente da orquestra da Rádio Educadora Paulista.

Imagina só: o homem que deu ao Palmeiras seu hino oficial era maestro, médico cardiologista e professor tudo ao mesmo tempo. Não era exatamente um perfil comum.

piano3
Maestro Antônio Sergi compôs o hino do Palmeiras em 1949 — Foto: Fabio Menotti/Palmeiras

Como surgiu o hino do Palmeiras

Para entender por que o hino foi composto em 1949 e não antes, é preciso voltar sete anos no tempo.

O Palmeiras não foi fundado com esse nome. O clube surgiu em 1914 como Palestra Itália, criado por imigrantes italianos em São Paulo. Até 1949, o Palmeiras possuía um outro hino, criado pouco tempo depois da fundação do clube, em tempos de Palestra Itália. Esse hino original refletia a identidade italiana da agremiação o que funcionou muito bem por décadas, até que a política mudou tudo.

Com a Segunda Guerra Mundial e a entrada do Brasil no conflito ao lado dos Aliados, o governo Vargas passou a pressionar instituições de origem italiana e alemã no país. O Palestra Itália foi uma das afetadas. Em 1942, o clube mudou oficialmente de nome para Sociedade Esportiva Palmeiras e adotou o alviverde como cores definitivas.

Com a remodelação de nome e escudo, o time alviverde precisava de um novo hino para simbolizar “novos tempos”. Foi então que Antonio Sergi, italiano de nascimento, mas brasileiro de coração, entrou para a história palestrina.

Só que essa renovação simbólica não aconteceu de um dia para o outro. O novo hino só veio sete anos depois da mudança de nome. E a motivação para compô-lo foi bem pessoal.

A inspiração veio do irmão palmeirense

O músico e doutor revelou que o irmão acabou sendo uma grande motivação para a composição do hino alviverde. “Se tinha um jogo ele (o irmão) ouvia; se estivesse vencendo estava tudo bem; se estivesse perdendo ficava com febre e mau humorado. Então eu precisava animar esse irmão. E eu fiz um hino.”

Essa é uma das passagens mais humanas de toda a história. O homem que tocava nos bailes da elite paulistana, que regia orquestras nas grandes rádios da cidade, compôs o hino do Palmeiras porque queria animar um irmão que entrava em colapso quando o Verdão perdia. Sergi disse isso numa entrevista à Jovem Pan, pouco antes de morrer, em 2003.

Presume-se que a inspiração do autor para compor o hino palmeirense tenha surgido justamente pelo fato de ele conhecer profundamente e ter vivenciado o episódio da mudança de nome em 1942. Sergi não era um observador distante ele viveu aquela transição por dentro, entendia o peso simbólico do que o clube estava atravessando.

O que cada verso do hino significa

A letra do hino é curta 76 palavras, distribuídas ao longo de 14 versos mas cada trecho tem uma origem específica.

O verso mais emblemático, “Que sabe, ser brasileiro, ostentando a sua fibra”, não é poesia por acaso. O verso reforça a identidade alviverde após o processo da troca de nome do clube em 1942. Era uma declaração pública de brasilidade num momento em que o clube precisava mostrar que havia superado sua origem italiana e abraçado uma nova identidade nacional.

Já o trecho “Defesa que ninguém passa” tem origem esportiva bastante precisa. O trecho foi inspirado no bom desempenho defensivo do Verdão com 16 gols sofridos em 20 jogos na campanha do título paulista de 1947. Dois anos antes da composição do hino, o Palmeiras havia construído uma das defesas mais sólidas da época e Sergi imortalizou esse feito nos versos.

O mistério do nome falso: quem é Gennaro Rodrigues?

Esse é o ponto que gerou mais confusão entre os torcedores por décadas. Durante muito tempo, os créditos do hino traziam o nome Gennaro Rodrigues, um nome que ninguém conseguia associar a nenhuma pessoa real no universo do Palmeiras.

Como não tinha o hábito de escrever letras, somente a regência e arranjos musicais, nas poucas vezes em que o fez utilizou o pseudônimo de Gennaro Rodrigues. O fato gerou confusão por vários anos, com torcedores imaginando se tratarem de pessoas diferentes.

Gennaro Rodrigues era, na prática, o alter ego literário de Antônio Sergi. Ele se sentia confortável com a batuta e com os arranjos, mas assinar uma letra era algo fora de sua zona de conforto. Então criou um nome fictício para isso e acabou gerando um mistério que durou décadas.

Muitos torcedores acreditam que foi uma “brincadeira” com a mudança do nome do time, já outros pensam que é só porque ele não queria ser creditado como autor, por não se sentir apto a compor músicas. O fato é que essa confusão de nomes fez com que muita gente pensasse que o hino do Palmeiras havia sido composto por duas pessoas diferentes.

image 8

O corintiano que gravou o hino primeiro

Outro detalhe que pouca gente conhece: a primeira gravação do hino do Palmeiras foi feita por alguém que torcia para o maior rival.

Assim que o hino ficou pronto, Totó pediu a um parente que o gravasse. Detalhe: o cantor era corintiano. Como o hino fez sucesso, ele pediu que um parente dele, Alberto Marino, que aliás nem era palmeirense, gravasse a primeira versão. Assim, com o sucesso, esse se tornou o hino oficial do clube.

O próprio Sergi contou essa história na entrevista à Jovem Pan e riu do fato. Alberto Marino era filho de Roberto Marino e torcia para o Corinthians mas foi ele quem deu voz pela primeira vez àquelas palavras que palmeirenses cantam até hoje. A ironia é bonita do jeito que só o futebol brasileiro consegue produzir.

O piano que o Palmeiras comprou em 2021

O hino do clube foi composto em 1949 no piano que foi adquirido pelo Palmeiras e será exibido na futura Sala de Troféus do clube.

O instrumento foi obtido por iniciativa do 4º vice-presidente palmeirense, José Eduardo Luz Caliari. “Esse piano estava praticamente dentro de casa e eu não sabia”, brincou Caliari.

O piano ficou na família Sergi por décadas. O músico ítalo-brasileiro trabalhou até o último dia de vida. No bairro da Aclimação, era a alegria dos vizinhos, que costumavam sair à janela diariamente para ouvir suas composições. “Na casa dos meus pais, não havia um piano. Quando o meu avô nos visitava, ele apoiava as mãozinhas no sofá e, enquanto conversava, mexia os dedos, como se tocasse um piano imaginário. A música era algo fácil para ele”, relatou a neta Priscylla.

O neto Gustavo Gindler Sergi contou: “Quando íamos à casa do meu avô, o Palmeiras era sempre o centro das nossas conversas e esse sentimento passou de geração para geração. As minhas filhas, de 8 e 5 anos, adoram o Palmeiras. Já até sabem o hino.”

É impossível não se emocionar com isso. O instrumento onde o hino nasceu agora está guardado no memorial do clube, disponível para qualquer torcedor ver. É uma relíquia que poucas agremiações esportivas do mundo podem dizer que possuem.

O que pouca gente sabe sobre o hino do Palmeiras

Há alguns fatos que ficaram perdidos no tempo e que merecem estar registrados:

Sergi era médico, não só músico. A maioria das pessoas conhece Totó como maestro. Mas ele se formou em medicina pela Escola Paulista de Medicina e exerceu as duas profissões. Um homem que salvava corações de manhã e regia orquestras à noite.

O hino surgiu sete anos depois da mudança de nome. Entre 1942, quando o clube virou Palmeiras, e 1949, quando o hino foi composto, o clube ficou sem uma música que representasse a nova identidade. Esse intervalo longo é pouco comentado.

A letra inteira tem apenas 76 palavras. Para um hino que carrega tanta emoção e história, o texto é surpreendentemente enxuto. Sergi escolheu cada palavra com precisão cirúrgica e faz sentido, dado que ele não era acostumado a escrever letras.

Sergi viveu até os 89 anos e viu o hino se consagrar. Antônio Sergi, falecido em 2003, pôde ver a consolidação de sua composição nas arquibancadas durante os jogos do Palmeiras. Ele acompanhou décadas de títulos, de torcedores cantando sua criação no estádio, de transmissões de rádio e televisão levando aquela melodia para todo o Brasil.

O programa de TV que quase ninguém lembra. O maestro Mário Albanese conviveu com Antônio Sergi e, num programa transmitido pela TV Gazeta em outubro de 1987, chegou a entrevistá-lo e pediu que ele executasse a canção ao piano ao vivo. “Fizemos uma entrevista muito gostosa. O maestro Totó era uma pessoa boníssima.”

image 8

Perguntas frequentes sobre o hino do Palmeiras

Quem escreveu o hino do Palmeiras?

O hino do Palmeiras foi escrito e composto por Antônio Sergi, maestro ítalo-brasileiro nascido na Itália em 1913 e naturalizado brasileiro. Ele criou tanto a letra quanto a melodia em 1949. Por não ter o costume de assinar letras, usou o pseudônimo Gennaro Rodrigues, o que gerou confusão entre torcedores por muitos anos. Sergi era também médico cardiologista e professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo.

Quando foi criado o hino do Palmeiras?

O hino foi composto em 1949, sete anos após a mudança do nome do clube de Palestra Itália para Sociedade Esportiva Palmeiras, ocorrida em 1942. O intervalo se deve ao processo gradual de construção da nova identidade do clube. O Palmeiras tinha um hino anterior, criado nos tempos de Palestra Itália, mas precisava de uma música que representasse a nova fase e Sergi foi o escolhido para esse trabalho.

Por que o hino do Palmeiras foi composto?

A motivação principal, segundo o próprio Antônio Sergi em entrevista à Jovem Pan, foi seu irmão palmeirense fanático, que ficava doente literalmente quando o time perdia. Sergi queria criar algo que animasse e fortalecesse esse irmão torcedor. Além disso, o clube precisava de um hino que refletisse sua nova identidade brasileira após a mudança de nome durante a Segunda Guerra Mundial.

Quem é Gennaro Rodrigues no hino do Palmeiras?

Gennaro Rodrigues era o pseudônimo que Antônio Sergi usava quando escrevia letras de músicas, já que seu trabalho habitual era a regência e os arranjos orquestrais. O nome falso gerou décadas de confusão, com torcedores acreditando que o hino havia sido criado por duas pessoas diferentes. Hoje está documentado que Sergi e Gennaro Rodrigues eram a mesma pessoa.

Quem cantou o hino do Palmeiras pela primeira vez?

A primeira gravação do hino do Palmeiras foi feita por Alberto Marino, um parente de Antônio Sergi. O curioso é que Alberto Marino era torcedor do Corinthians, não do Palmeiras. Mesmo assim, foi ele quem deu voz à composição pela primeira vez. O hino fez sucesso rapidamente e se tornou oficial do clube a partir dessa gravação inicial.

O piano em que o hino foi composto ainda existe?

Sim. Em 2021, o Palmeiras adquiriu o piano no qual Antônio Sergi compôs o hino em 1949. O instrumento ficou com a família Sergi por décadas e foi doado ao clube por iniciativa do vice-presidente José Eduardo Luz Caliari. O piano está preservado e exposto na Sala de Troféus do Palmeiras, no Allianz Parque, e pode ser visto por torcedores que visitam o memorial do clube.

O hino do Palmeiras já foi alterado?

O hino oficial do Palmeiras permanece o mesmo desde 1949, sem alterações na letra ou na melodia. É a mesma composição de Antônio Sergi que os torcedores cantam até hoje — o que torna ainda mais impressionante sua longevidade. Com apenas 76 palavras, a música atravessou mais de sete décadas sem precisar de nenhuma atualização.

image 8

Leia Mais: