Quando alguém fala em Pelé, uma palavra quase sempre vem junto: Rei. O título se tornou tão natural que muita gente acredita que surgiu depois das três Copas do Mundo conquistadas pelo maior jogador da história do futebol brasileiro. A verdade é outra. A coroa foi colocada em sua cabeça meses antes de o mundo inteiro descobrir quem era aquele garoto de 17 anos.
Entender como nasceu o apelido Rei para Pelé é voltar ao início de 1958, quando o Brasil ainda tentava superar os traumas das derrotas nas Copas de 1950 e 1954. Em meio à desconfiança, um jovem atacante do Santos encantava quem tinha a sorte de vê-lo jogar. Um desses espectadores era o cronista Nelson Rodrigues. Bastou uma atuação inesquecível para que ele escrevesse um dos textos mais famosos da história do jornalismo esportivo brasileiro.
Naquele momento, Pelé ainda nem havia estreado em uma Copa do Mundo. Mesmo assim, Nelson Rodrigues enxergou algo que poucos conseguiam perceber: o adolescente não se comportava como uma promessa. Jogava com a autoridade de quem já era dono do futebol.
O dia em que Pelé virou Rei
A origem do apelido remonta ao começo de março de 1958.
Poucos dias antes, o Santos enfrentou o América do Rio de Janeiro pelo Torneio Rio-São Paulo, no Maracanã. O time paulista venceu por 5 a 3, e Pelé marcou quatro gols em uma atuação que impressionou jornalistas, torcedores e adversários.
Entre os presentes estava Nelson Rodrigues.
O dramaturgo e cronista esportivo era conhecido por transformar partidas de futebol em grandes histórias. Naquela noite, ele percebeu que havia testemunhado algo incomum.
Dias depois, em 8 de março de 1958, publicou na revista Manchete Esportiva a crônica intitulada “A Realeza de Pelé”.
O texto marcaria para sempre a história do futebol brasileiro.
Nelson escreveu que Pelé possuía uma autoridade natural dentro de campo, como se fosse um rei cercado de súditos. Segundo ele, o jovem santista tratava os adversários com uma superioridade impressionante e jogava como alguém que já conhecia o próprio destino.
Foi a primeira vez que um jornalista chamou Edson Arantes do Nascimento de Rei.
Por que Nelson Rodrigues chamou Pelé de Rei?
Na época, o Brasil vivia o que o próprio Nelson Rodrigues definiu como “complexo de vira-lata”. O país ainda carregava o peso da derrota para o Uruguai na final da Copa de 1950 e havia sido eliminado pela Hungria quatro anos depois.
Faltava confiança.
Pelé representava justamente o oposto.
Mesmo adolescente, não demonstrava medo de enfrentar jogadores mais experientes. Driblava com naturalidade, assumia responsabilidades e parecia ignorar completamente a pressão.
Nelson Rodrigues enxergou nessa postura uma mudança de mentalidade.
Para ele, Pelé não era apenas um grande jogador.
Era alguém capaz de fazer o Brasil acreditar novamente que podia ser o melhor do mundo.
A metáfora da realeza nasceu desse comportamento.
O cronista dizia que Pelé caminhava em campo como um monarca, impondo respeito antes mesmo de tocar na bola.
A Copa de 1958 transformou o apelido em realidade
Quando Nelson Rodrigues publicou sua crônica, muitos ainda discutiam se Pelé deveria integrar a seleção brasileira.
O atacante havia sofrido uma lesão no joelho e chegou à preparação para a Copa cercado de dúvidas.
Ele começou o Mundial no banco de reservas.
A estreia aconteceu apenas na terceira partida da fase de grupos, contra a União Soviética.
Depois disso, o mundo nunca mais seria o mesmo.
Pelé marcou o gol da vitória sobre o País de Gales nas quartas de final, fez três gols diante da França na semifinal e anotou dois na decisão contra a Suécia.
O garoto de 17 anos conduziu o Brasil ao primeiro título mundial de sua história.
A previsão de Nelson Rodrigues havia se confirmado poucos meses depois de ser escrita.
A imprensa europeia ajudou a espalhar o título
Se Nelson Rodrigues criou a imagem do Rei, a imprensa internacional ajudou a transformá-la em um reconhecimento mundial.
Durante a Copa da Suécia, jornais e revistas europeias passaram a destacar o desempenho do jovem brasileiro.
Após a semifinal contra a França, diversas publicações francesas passaram a utilizar expressões como “Rei do Futebol” para definir Pelé.
A repercussão foi enorme.
O apelido deixou de ser apenas uma referência usada no Brasil e passou a acompanhar o atacante em qualquer lugar do planeta.
Nas décadas seguintes, o título tornou-se praticamente inseparável de seu nome.
A diferença entre “Pelé” e “Rei”
Muitas pessoas confundem a origem dos dois apelidos.
O nome Pelé nasceu muito antes da fama.
Quando criança, Edson gostava de imitar um goleiro chamado Bilé, companheiro de equipe de seu pai, Dondinho.
Ao tentar pronunciar o nome, acabava dizendo algo parecido com “Pelé”.
Os amigos passaram a chamá-lo dessa forma para provocá-lo.
Ele detestava o apelido e chegou a brigar diversas vezes por causa disso.
Com o tempo, acabou aceitando o nome que o acompanharia pelo resto da vida.
Já o título de Rei surgiu somente em 1958, criado por Nelson Rodrigues para simbolizar a maneira dominante com que o jovem santista jogava futebol.
Um nasceu das brincadeiras de infância.
O outro foi construído pelo talento demonstrado dentro de campo.
O que pouca gente sabe sobre o apelido Rei
Existe um detalhe curioso nessa história.
Quando Nelson Rodrigues escreveu “A Realeza de Pelé”, o atacante ainda era considerado jovem demais por parte da comissão técnica da Seleção Brasileira.
Um relatório psicológico elaborado antes da Copa de 1958 sugeria que Pelé não possuía maturidade suficiente para disputar um torneio daquele tamanho.
A avaliação acabou ignorada.
Meses depois, o adolescente levantava a taça da Copa do Mundo e se transformava no campeão mundial mais jovem da história.
Outra curiosidade é que o próprio Pelé reconheceu, em diversas entrevistas, a importância da imprensa francesa para consolidar internacionalmente o título de Rei do Futebol.
Sem esse reconhecimento europeu, talvez o apelido demorasse mais para ganhar o mundo.
Um título que atravessou gerações
Poucos apelidos sobreviveram ao tempo como aconteceu com Pelé.
O futebol conheceu outros gênios, surgiram novos campeões mundiais e diferentes gerações de craques encantaram torcedores em todos os continentes.
Mesmo assim, quando alguém fala simplesmente em “o Rei”, não é preciso explicar de quem se trata.
O título criado por Nelson Rodrigues deixou de ser apenas uma metáfora literária.
Transformou-se em parte da identidade de Edson Arantes do Nascimento e em um símbolo da grandeza que ele alcançou dentro do esporte.
Mais de seis décadas depois daquela crônica publicada na Manchete Esportiva, o apelido continua resumindo em apenas uma palavra aquilo que milhões de torcedores enxergam em Pelé: o maior de todos.
Perguntas frequentes
Quem foi o primeiro a chamar Pelé de Rei?
O jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues foi o primeiro a utilizar o título. Em 8 de março de 1958, publicou a crônica “A Realeza de Pelé”, na revista Manchete Esportiva, descrevendo o jovem atacante como um verdadeiro monarca dentro de campo.
Como nasceu o apelido Rei para Pelé?
O apelido surgiu após uma atuação histórica de Pelé pelo Santos contra o América-RJ. Impressionado com o desempenho do atacante, Nelson Rodrigues escreveu que o jovem jogava com autoridade de rei, criando uma expressão que se tornaria definitiva.
Pelé já era chamado de Rei antes da Copa de 1958?
Sim. O apelido nasceu cerca de três meses antes do Mundial da Suécia. Quando Pelé conquistou sua primeira Copa do Mundo, o título de Rei já havia sido criado pela imprensa brasileira.
A imprensa estrangeira participou da popularização do apelido?
Sim. Durante a Copa de 1958, jornais e revistas europeias, principalmente na França, passaram a chamar Pelé de Rei do Futebol, ajudando a transformar o apelido em uma referência mundial.
Qual é a diferença entre os apelidos Pelé e Rei?
“Pelé” surgiu ainda na infância por causa de uma brincadeira envolvendo o nome de um goleiro chamado Bilé. Já “Rei” foi criado por Nelson Rodrigues em 1958 para destacar a superioridade técnica e a personalidade do jogador dentro de campo.
Por que o apelido Rei continua sendo usado?
Porque Pelé confirmou dentro de campo tudo o que Nelson Rodrigues havia previsto. Com três títulos mundiais, mais de mil gols e reconhecimento internacional, o brasileiro transformou o apelido em um símbolo eterno da história do futebol.
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