Tem um jogador chamado László Kiss que entrou em campo como reserva numa Copa do Mundo e saiu com três gols no bolso, dois recordes mundiais e um lugar permanente nos livros de história do futebol. Ele nem sequer começou jogando. Mas foi justamente ele quem protagonizou o momento mais emblemático do placar mais absurdo que um Mundial já viu.

15 de junho de 1982. Elche, Espanha. A Hungria derrotou El Salvador por 10 a 1 e esse resultado continua sendo, mais de 40 anos depois, a maior goleada da história das Copas do Mundo da FIFA. Nenhuma outra partida chegou perto. O placar com dois dígitos só aconteceu uma vez em toda a história do torneio, e foi naquele dia quente no Nuevo Estadio, numa cidade que a maioria das pessoas nem saberia apontar no mapa da Espanha.

O curioso é que a goleada histórica não salvou a Hungria. A seleção europeia foi eliminada ainda na fase de grupos, perdeu feio para a Argentina e saiu pela porta dos fundos daquela Copa. Mas o 10 a 1 ficou. E vai ficar por muito tempo.

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Como aconteceu a maior goleada da história das Copas

Para entender o 10 a 1, é preciso entender o que eram as duas seleções naquele momento.

A Hungria de 1982 não era a lendária equipe dos anos 1950, aquele time de Ferenc Puskás que chegou à final da Copa de 1954 e encantou o mundo com um futebol que ninguém havia visto antes. Mas ainda era uma equipe respeitável, com jogadores técnicos e experientes, acostumados ao futebol europeu de alto nível.

El Salvador, por outro lado, vivia uma situação completamente diferente. O país estava mergulhado em uma guerra civil brutal, que se estenderia até 1992 com um saldo de dezenas de milhares de mortos. Classificar-se para a Copa do Mundo foi, por si só, um feito extraordinário para aquele grupo de jogadores que carregava nas costas o peso de representar uma nação em colapso. Em termos táticos, a equipe salvadorenha tinha uma defesa praticamente inexistente, quatro atacantes em campo e um sistema que apostava tudo no ataque.

O resultado foi previsível. Mas a magnitude, não.

Tibor Nyilasi abriu o placar logo aos 4 minutos. Antes do intervalo, Gábor Pölöskei e László Fazekas ampliaram para 3 a 0. O segundo tempo foi ainda mais brutal: József Tóth fez o quarto aos 50 minutos, Fazekas marcou seu segundo gol logo na sequência, e a Hungria parecia ter decidido que cinco não era suficiente.

Então entrou László Kiss. Reserva, sem grandes expectativas. Em sete minutos — dos 69 aos 76 — ele fez três gols. Um hat-trick que entrou para a história como o único marcado por um jogador que saiu do banco de reservas em uma Copa do Mundo. Ele também estabeleceu o recorde do hat-trick mais rápido do torneio até aquele momento.

Antes de Kiss terminar sua exibição, Lázár Szentes ainda marcou o sétimo. E Nyilasi fechou a conta aos 83 minutos, completando o 10 a 1 que ficou para sempre.

O único gol de El Salvador saiu quando o placar já marcava 5 a 0. Luis Ramírez Zapata aproveitou uma confusão na área e balançou as redes marcando o único gol do país em suas duas participações em Copas do Mundo, tanto em 1970 quanto em 1982.

Há um detalhe que diz muito sobre a magnitude daquele placar: quando Nyilasi marcou o décimo gol, o operador do marcador no estádio precisou improvisar. O sistema não estava preparado para exibir dois dígitos. Nunca havia precisado.

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A Hungria que venceu por 10 e foi eliminada na fase de grupos

Existe uma ironia perfeita nessa história. A seleção que aplicou a maior goleada da história das Copas não passou da primeira fase.

Depois do 10 a 1 sobre El Salvador, a Hungria perdeu para a Argentina por 4 a 1 e ficou no empate com a Bélgica. Foram eliminados. El Salvador, por sua vez, perdeu os três jogos e terminou na lanterna do grupo.

Essa Copa de 1982 foi a mesma da Tragédia do Sarriá, aquele Brasil x Itália que os brasileiros preferem esquecer. Foi também a Copa em que a Itália de Paolo Rossi, que havia chegado à competição mal saindo de um escândalo de apostas, se tornou campeã de forma absolutamente inesperada.

O 10 a 1 da Hungria ficou como uma nota de rodapé curiosa naquele Mundial, gigantesco demais para ser ignorado, pequeno demais para definir o torneio.

O que a Hungria já fez antes e por que esse país domina essa lista

A maior goleada da história das Copas pertence à Hungria. A segunda maior também.

Em 1954, na Copa da Suíça, a mesma seleção húngara destruiu a Coreia do Sul por 9 a 0. Naquele time estavam Puskás, Kocsis e companhia, a chamada “Mágica Húngara”, considerada por muitos a melhor seleção da história que nunca venceu uma Copa do Mundo. Marcaram 27 gols em cinco jogos naquele torneio. Perderam a final para a Alemanha Ocidental por 3 a 2, num resultado que até hoje é considerado uma das maiores surpresas da história do futebol mundial.

A Iugoslávia também está próxima do topo: em 1974, na Alemanha Ocidental, goleou o Zaire por 9 a 0 na fase de grupos. O Zaire entrou para aquela Copa como a primeira seleção da África Subsaariana a participar de um Mundial, e saiu com três derrotas pesadas.

Depois do 10 a 1 de 1982, nenhuma outra partida de Copa do Mundo voltou a ter dois dígitos. Nenhuma chegou sequer perto. O maior placar recente foi o 7 a 0 da Espanha sobre a Costa Rica no Qatar, em 2022.

O que pouca gente sabe sobre o 10 a 1 da Hungria

O hat-trick de Kiss é único na história. Nenhum outro jogador, em nenhuma outra Copa, fez três gols saindo do banco de reservas. Kiss entrou no segundo tempo, quando o placar já estava em 5 a 0, e mesmo assim foi a figura principal dos momentos finais da partida.

El Salvador atacou a Hungria. Isso mesmo. Com quatro atacantes em campo e uma proposta ofensiva quase suicida, os salvadorenhos tentaram jogar. O técnico da equipe apostou no ataque mesmo sabendo que enfrentava uma das melhores defesas da Europa. O plano não funcionou exatamente como esperado.

O gol de El Salvador tem um peso histórico desproporcional. Luis Ramírez Zapata marcou o único gol do país em duas participações em Copas do Mundo. Um único gol em dois torneios. Num jogo em que o placar final foi 10 a 1. A ironia histórica dificilmente poderia ser maior.

A Hungria havia marcado 9 na Copa anterior. O 9 a 0 sobre a Coreia do Sul em 1954 ficou como o maior placar da história por quase três décadas, até que a própria Hungria o superou.

O recorde dura há mais de 40 anos. A Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, México e Canadá, será mais uma oportunidade para alguém tentar superar o 10 a 1. Até agora, nenhuma seleção chegou nem perto.

Ninguém estava prestando atenção. O jogo aconteceu no mesmo dia em que outras partidas mais disputadas dominavam as atenções. O estádio em Elche estava longe dos grandes centros da Copa de 1982. O 10 a 1 foi descoberto com espanto quando os marcadores foram atualizados.

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As maiores goleadas da história das Copas do Mundo

Para ter uma ideia do quanto o 10 a 1 se destaca, veja o que são os maiores placares registrados em Mundiais:

Hungria 10 x 1 El Salvador — 1982: O único placar com dois dígitos de toda a história das Copas. Nove gols de diferença. Recorde absoluto.

Hungria 9 x 0 Coreia do Sul — 1954: O mesmo país, 28 anos antes. A equipe de Puskás e Kocsis numa demonstração de futebol que a Copa raramente voltou a ver.

Iugoslávia 9 x 0 Zaire — 1974: A primeira participação africana subsaariana em um Mundial terminou com uma goleada histórica.

Uruguai 8 x 0 Bolívia — 1950: No estádio Independência, em Belo Horizonte, o Uruguai que viria a ser campeão mostrou do que era capaz logo na estreia.

Suécia 8 x 0 Cuba — 1938: Primeira Copa de Cuba, primeira e única participação. Não foi bem.

Perguntas frequentes sobre a maior goleada das Copas

Qual foi a maior goleada da história das Copas do Mundo?

A maior goleada da história das Copas do Mundo foi Hungria 10 x 1 El Salvador, disputada em 15 de junho de 1982, durante a Copa do Mundo realizada na Espanha. É o único placar com dois dígitos em toda a história do torneio e permanece como recorde absoluto desde então mais de 40 anos sem que nenhuma outra seleção chegasse perto.

Quem foram os artilheiros da goleada da Hungria sobre El Salvador?

Tibor Nyilasi marcou dois gols (aos 4 e aos 83 minutos). Gábor Pölöskei, László Fazekas (dois gols), József Tóth, Lázár Szentes e László Kiss (hat-trick) completaram o placar. O único gol de El Salvador foi de Luis Ramírez Zapata, no segundo tempo, quando o placar já estava em 5 a 0.

A Hungria foi campeã naquela Copa de 1982?

Não. Apesar de ter aplicado a maior goleada da história das Copas, a Hungria foi eliminada ainda na fase de grupos. Perdeu para a Argentina por 4 a 1 e ficou no empate com a Bélgica. A campeã daquele Mundial foi a Itália, liderada por Paolo Rossi.

O que é o hat-trick de László Kiss e por que é especial?

László Kiss entrou no segundo tempo como reserva e marcou três gols em apenas sete minutos. Esse hat-trick é o único na história das Copas feito por um jogador que começou no banco de reservas. Também foi o hat-trick mais rápido registrado no torneio até aquele momento. É considerado um dos feitos individuais mais raros de toda a história do Mundial.

Qual foi a segunda maior goleada da história das Copas?

Dois resultados se igualam na segunda posição: Hungria 9 x 0 Coreia do Sul, em 1954, e Iugoslávia 9 x 0 Zaire, em 1974. Ambos têm oito gols de diferença um a menos que o recorde húngaro de 1982. Curiosamente, a própria Hungria detém o primeiro e o terceiro lugar nessa lista histórica.

Alguma Copa recente chegou perto do recorde de goleadas?

A Copa do Qatar, em 2022, trouxe alguns resultados expressivos: Espanha 7 x 0 Costa Rica e Inglaterra 6 x 2 Irã foram os placares mais elásticos. Na Copa de 2026, que será a maior da história com 48 seleções participantes, há mais chances de goleadas na fase de grupos mas superar o 10 a 1 de 1982 ainda parece uma missão muito improvável.

Por que El Salvador levou tantos gols?

El Salvador chegou à Copa de 1982 em circunstâncias extremamente difíceis. O país vivia uma guerra civil devastadora, e a seleção carecia de estrutura, preparação técnica adequada e experiência internacional. Taticamente, a equipe utilizou quatro atacantes e abriu mão de qualquer solidez defensiva, o que foi explorado com eficiência pelos húngaros. A fragilidade defensiva era notória, mas a dimensão da derrota surpreendeu até os mais pessimistas.

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