Poucos clubes brasileiros têm uma relação tão estranha com o próprio mascote quanto o Fluminense. O símbolo que representou o clube por mais de setenta anos foi trocado justamente porque uma parte da torcida passou a enxergá-lo como um problema, não como um motivo de orgulho. E, para completar, o substituto que veio para resolver essa questão praticamente desapareceu dos estádios poucos anos depois de estrear. A história do mascote do Fluminense é, na verdade, a história de como um clube tenta lidar com a própria imagem pública.

Tudo começa com o Cartola, um senhor de terno, chapéu alto e ares de aristocrata carioca. Ele nasceu em 1943, quase quatro décadas depois da fundação do Fluminense, criado por um cartunista para ilustrar as páginas de um jornal esportivo. A ideia era simples: reforçar, com humor, o estereótipo de que o Flu era o time da elite do Rio de Janeiro. Funcionou bem demais, por muito tempo. Só que, décadas depois, o mesmo símbolo que divertia os torcedores nos anos 1940 virou motivo de crítica interna, até o clube decidir se despedir dele.

Este texto conta como o Cartola surgiu, por que ele foi deixado de lado, quem é o Guerreirinho e o que aconteceu com o mascote depois que ele sumiu dos jogos.

Siga o Giro no Facebook
Siga o Giro no Instagram

Como surgiu o mascote do Fluminense

O Fluminense foi fundado em 1902, mas passou boa parte de sua primeira metade de século sem um mascote propriamente dito. O clube já carregava, no entanto, um apelido que ajudava a explicar tudo que viria depois: “Pó de Arroz”. A alcunha nasceu ainda no início do século, ligada a comentários preconceituosos sobre a presença de jogadores negros no time, que supostamente usariam pó de arroz no rosto para disfarçar a cor da pele. É um capítulo triste da história do futebol carioca, mas que explica boa parte do imaginário que se formou em torno do clube nas décadas seguintes.

Foi dentro desse contexto que o Jornal dos Sports encomendou, em 1943, a criação de um personagem que representasse visualmente o Fluminense em suas páginas. O trabalho ficou nas mãos do cartunista argentino Lorenzo Mollas, radicado no Brasil, que desenhou um homem de cartola, terno impecável e postura de nobre carioca. O traço não escondia a intenção: era uma caricatura direta da fama de time da aristocracia que o Flu carregava desde os primeiros anos.

O personagem caiu no gosto do público quase imediatamente. Ao longo da década de 1940, o próprio jornal reforçou a imagem do Cartola em charges e ilustrações, e o desenho passou a circular em bandeiras, faixas e depois em produtos oficiais do clube. Por mais de meio século, foi essa a única representação visual que o Fluminense teve fora do escudo.

Em 2000, o clube tentou dar uma cara mais jovem ao símbolo e lançou o Cartolinha, uma versão infantilizada do personagem original, com traços mais arredondados e postura mais amigável. A ideia era aproximar o mascote de um público que não necessariamente se identificava com a imagem elegante e formal do Cartola adulto.

Por que o Cartola perdeu espaço e surgiu o Guerreirinho

A virada de chave aconteceu em 2009. O Fluminense vivia um dos piores momentos de sua história recente, colado na zona de rebaixamento do Campeonato Brasileiro faltando poucas rodadas, com chances mínimas de escapar. Ninguém apostava na permanência do time na elite do futebol nacional. Só que o time reagiu, venceu praticamente tudo que faltava e se salvou de forma quase improvável. No ano seguinte, embalado por esse mesmo espírito, o Fluminense foi campeão brasileiro.

Foi ali que nasceu o apelido “Time de Guerreiros”, cunhado pela imprensa esportiva para descrever aquela geração liderada por nomes como Fred e Conca. O termo colou de vez na identidade do clube e passou a competir, na cabeça da torcida, com a antiga imagem aristocrática representada pelo Cartola.

Enquanto isso, a reputação do mascote original ia se desgastando por outros motivos, ligados a episódios internos do clube, incluindo a chamada “virada de mesa” de 1996, quando dirigentes do Fluminense tentaram reverter uma decisão desfavorável em uma disputa contra o Botafogo. O caso ficou marcado como um símbolo negativo de arrogância e privilégio, e a figura do Cartola, associada a esse tipo de comportamento elitista, começou a ser vista como um peso, não como uma homenagem.

Uma pesquisa interna feita pelo clube, cinco anos antes da mudança oficial, já apontava que parte da torcida não se identificava mais com o Cartola. O resultado prático veio em 2016: o Fluminense aposentou oficialmente o antigo mascote e apresentou o Guerreirinho, um personagem com escudo, capacete e espada, remetendo diretamente ao apelido conquistado em 2009 e 2010.

A escolha carregava um simbolismo forte. O Fluminense tem, na própria história, episódios que explicam a admiração do torcedor por essa ideia de guerreiro. Um dos mais lembrados é o do ponta-direita Mano, que se recusou a sair de campo mesmo gravemente ferido em uma partida e acabou falecendo por complicações da lesão. Outro é o do goleiro Castilho, que chegou a amputar parte de um dedo para não perder um clássico contra o Flamengo. São histórias que, décadas depois, ajudaram a justificar por que “guerreiro” fazia mais sentido para representar o clube do que um cavalheiro de cartola.

O que pouca gente sabe sobre o mascote do Fluminense

Um detalhe que costuma escapar até de torcedores mais antigos é que o Cartola nunca foi criado pelo próprio Fluminense. A ideia partiu de um jornal, não do clube, e o personagem só foi oficialmente incorporado à identidade tricolor depois de já ter se popularizado nas páginas de esporte do Rio de Janeiro.

Outra curiosidade envolve o fim do Guerreirinho. Diferente do que muita gente imagina, o mascote não foi extinto por decisão da diretoria. O personagem era mantido por uma empresa parceira, responsável por bancar fantasia, transporte e alimentação de quem vestia o traje nos jogos. Quando esse contrato de patrocínio chegou ao fim, em 2018, simplesmente não houve renovação, e o Guerreirinho parou de aparecer nos estádios sem nenhum anúncio oficial do clube.

Desde então, o Fluminense vive uma situação incomum entre os grandes times do Brasil: não tem, oficialmente, um mascote em atividade. Em 2021, a assessoria do clube chegou a comentar que o símbolo passaria por uma reformulação, mas o projeto nunca saiu do papel publicamente, e o tema segue sem posição oficial até hoje.

Isso não impediu que torcedores tomassem a iniciativa por conta própria. Em 2023, o animador de personagens Narciso Pereira decidiu recriar o Cartola por conta própria, trazendo o personagem de volta com um visual atualizado, inspirado no uniforme usado pelo Fluminense em 1905, com listras mais grossas e uma gola polo remetendo à origem do clube. A iniciativa, mesmo sem chancela oficial, mostra como o torcedor tricolor ainda tem carinho pela figura original, apesar de todo o histórico controverso por trás dela.

Vale registrar também que o Cartolinha, versão infantil lançada em 2000, teve vida mais longa do que muita gente lembra. Ele circulou em campanhas e produtos licenciados por anos, inclusive depois da criação do Guerreirinho, funcionando quase como uma ponte entre as duas eras do mascote tricolor.

Perguntas frequentes

Qual é o mascote oficial do Fluminense hoje?

O Fluminense não tem um mascote oficial em atividade no momento. O Guerreirinho, adotado em 2016, deixou de aparecer em jogos a partir de 2018, quando terminou o contrato com a empresa que custeava o personagem, e o clube nunca apresentou um substituto oficial desde então.

Quem criou o Cartola, antigo mascote do Fluminense?

O Cartola foi criado em 1943 pelo cartunista argentino Lorenzo Mollas, a pedido do Jornal dos Sports. O personagem foi desenhado para representar de forma caricata a fama do Fluminense como o clube da elite carioca do início do século XX.

Por que o Fluminense trocou o Cartola pelo Guerreirinho?

O clube considerou que a imagem elitista associada ao Cartola já não representava sua identidade, especialmente depois de episódios internos malvistos pela torcida. O Guerreirinho surgiu em 2016 para reforçar o apelido “Time de Guerreiros”, conquistado após a campanha de 2009 e o título brasileiro de 2010.

O apelido Pó de Arroz tem relação com o mascote do Fluminense?

O apelido surgiu antes da criação do Cartola e está ligado a episódios preconceituosos do início do século passado, envolvendo jogadores negros do clube. Ele ajudou a construir o imaginário de time aristocrático que o Cartola depois representou visualmente nas décadas seguintes.

O que aconteceu com o Guerreirinho, mascote do Fluminense?

O Guerreirinho era mantido por uma empresa parceira que arcava com os custos do personagem. Quando o contrato de patrocínio terminou em 2018, o mascote parou de aparecer nos jogos, sem que o clube tivesse anunciado oficialmente o fim de sua participação.

Existe algum mascote não oficial do Fluminense atualmente?

Sim. Em 2023, o torcedor Narciso Pereira recriou o Cartola de forma independente, atualizando o visual do personagem com elementos que remetem ao uniforme histórico de 1905 do Fluminense. A iniciativa não tem vínculo oficial com o clube.

O Fluminense pretende lançar um novo mascote oficial?

Em 2021, a assessoria do clube mencionou que o mascote passaria por uma reformulação, mas nenhum projeto foi apresentado publicamente desde então. Até hoje, o Fluminense não se pronunciou de forma definitiva sobre o retorno de uma figura oficial.

Leia Mais: