Quem inventou a chuteira de futebol é uma pergunta que não tem uma resposta única, e esse detalhe já conta muito sobre como esse objeto chegou ao que é hoje. A chuteira moderna, aquela ultrapassada em tecnologia que os jogadores da Copa de 2026 estão usando agora mesmo, é o resultado de quase cinco séculos de tentativas, fracassos, brigas de família e golpes de marketing que envolveram até o Rei Pelé agachando no meio do campo pra amarrar o cadarço em câmera lenta.
O começo dessa história é bem menos glamouroso do que o final: uma bota grossa de couro encomendada por um rei inglês que provavelmente nem usou o produto. Depois vieram botas com pregos, botas com travas, botas com travas removíveis, e finalmente dois irmãos alemães que levaram a chuteira ao nível de ciência — antes de se odiarem pelo resto da vida e fundarem, cada um do seu lado do rio, duas das marcas esportivas mais famosas do planeta.
Esse texto reconstrói essa trajetória inteira, do século XVI até as chuteiras ultramodernas que pesam menos de 200 gramas, passando por Copas do Mundo, brigas de família, um Pacto secreto envolvendo Pelé e um par de botas que mudou o resultado de uma final de Copa chuvosa na Suíça.
Quem Inventou a Chuteira de Futebol
A primeira referência documentada a um calçado feito especificamente para jogar futebol aparece nos registros da corte inglesa do século XVI. A história da chuteira de futebol começa em 1526, quando o rei Henrique VIII da Inglaterra encomendou um par de calçados feitos especialmente para jogar futebol, feitos de couro grosso e que ofereciam mais proteção do que os sapatos comuns da época.
O detalhe que a maioria dos relatos prefere ignorar: pesquisadores dizem acreditar que seja difícil que o monarca tenha jogado realmente futebol, pois o esporte ainda não era praticado pela nobreza. Mais tarde foi calculado que cada bota pesava cerca de um quilograma e, em mau tempo, chegava a dois. Sua primeira esposa, Catarina de Aragão, pagou 4 xelins — cerca de US$1.350 hoje — por elas.
Ou seja: a primeira chuteira da história pode ter sido usada por um rei que não jogava futebol, paga por uma esposa que seria executada anos depois pelo próprio marido. O futebol tem uma origem das mais curiosas em quase todos os seus elementos.
As botas de 1 quilo e a chegada das travas
Durante os séculos seguintes ao pedido de Henrique VIII, pouca coisa mudou de verdade no calçado do jogador de futebol. As primeiras chuteiras tiveram como base de formato as botas, com solado liso, levando muitos jogadores a cair constantemente. Sem os jogadores conseguirem parar em pé, em 1891 veio a ideia das travas, mas tudo dentro de regras e especificações para que nenhum jogador ou time levasse vantagem em relação ao outro, com a trava não podendo ter mais de meia polegada (1,27 cm).
Utilizar botas de couro, pesando cerca de 1 quilo cada, para chutar uma bola pesada eram as condições para se praticar o futebol em 1891. Imagine correr por noventa minutos com um tijolo no pé esquerdo e outro no direito, e você terá uma ideia razoável de como era jogar futebol naquele período.
Os irmãos Dassler e a revolução de 1925
A virada real na história das chuteiras aconteceu numa cidade pequena do interior alemão chamada Herzogenaurach, na década de 1920. Dois irmãos, Adolf e Rudolf Dassler, herdeiros de uma família de sapateiros que havia perdido muito na Primeira Guerra Mundial, decidiram transformar a cozinha da própria mãe numa oficina de calçados.
Em 1925, após diversos testes, pesquisas e estudos, os irmãos Adi e Rudolf Dassler conseguiram diminuir o peso das chuteiras, baixando de 1kg para 500 gramas, um verdadeiro marco na história do calçado esportivo. Não satisfeitos, diminuíram a altura dos tornozelos e criaram o primeiro modelo com travas móveis, que podiam ser trocadas de acordo com o terreno, tornando a chuteira mais leve e mais confortável.
Também em 1925, Adi Dassler obteve suas primeiras patentes: uma para um calçado de corridas com cravos forjados à mão, e outra para uma chuteira de futebol com travas de couro rebitadas. Tudo motivado pela ideia que o guiou durante toda sua vida: a de que cada atleta tivesse o calçado adequado para o esporte que praticava.
Os sapatos dos irmãos Dassler, usados pelo atleta americano Jesse Owens nas Olimpíadas de Berlim de 1936, onde ele ganhou quatro medalhas de ouro, ampliaram ainda mais a fama da empresa. Naquele ponto, os irmãos ainda eram sócios — e tudo ainda parecia caminhar bem.
A Briga que Criou Adidas e Puma ao Mesmo Tempo
A história mais fascinante da chuteira de futebol não é técnica — é pessoal. E começa com uma frase dita no momento errado, durante um bombardeio aéreo na Segunda Guerra Mundial.
Segundo diferentes relatos que circulam sobre o episódio, Adolf e Rudolf Dassler estavam juntos num abrigo anti-aéreo durante um ataque sobre a cidade quando um dos irmãos teria dito algo — versões diferentes dizem coisas diferentes sobre quem falou o quê — que o outro interpretou como uma traição. A partir dali, a desconfiança foi crescendo, alimentada também pelos ciúmes das respectivas esposas, que havia tempo não se toleravam.
Usando o rio Aurach, que divide a cidade, como fronteira, os irmãos Dassler estabeleceram duas empresas separadas em 1948. Adolf contratou 40 funcionários, enquanto Rudolf contratou 13. Adolf criou a Adidas, junção de seu apelido “Adi” com o sobrenome Dassler, enquanto Rudolph criou a Ruda — junção das iniciais de seu nome e sobrenome — mas posteriormente mudou para Puma, pois acreditava que esse nome soava mais atlético.
Após a separação dos dois irmãos, o povo de Herzogenaurach também se dividiu em duas facções. Um grupo evitava as mesmas lojas que o outro. Na escola, as crianças das famílias Adi não falavam com as crianças das famílias Rudi, e os adultos se evitavam quando se encontravam. Uma briga de dois sapateiros dividiu uma cidade inteira ao meio.
O Milagre de Berna e a consagração da Adidas
Com as duas empresas competindo ferozmente, a Copa do Mundo de 1954 na Suíça se tornou o palco do primeiro grande golpe de marketing da história do futebol esportivo — só que esse golpe era completamente real e aconteceu dentro do campo.
Na final de 1954, em meio a um dilúvio, Alemanha e Hungria decidiram a Copa. Ao fim do primeiro tempo, Adi Dassler, fornecedor de chuteiras do selecionado alemão, sugeriu a troca das travas dos jogadores para um tamanho maior. A mudança deu certo, as travas diminuíram os escorregões no gramado encharcado, e a Alemanha venceu a Hungria por 3 a 2. A partir daí, os produtos Adidas ganharam proporções globais.
Foi calculado que, mesmo com os cravos longos, as botas alemãs pesavam 350 gramas — a metade do peso das botas húngaras. Vantagem técnica num campo encharcado, num jogo de Copa do Mundo, com o mundo inteiro assistindo. A Adidas nunca mais precisaria se apresentar depois daquele dia.
O Que Pouca Gente Sabe Sobre a História das Chuteiras
Tem detalhes dessa trajetória que ficam escondidos atrás da versão mais resumida, mas que merecem espaço.
O primeiro é sobre o Pacto Pelé, um dos episódios mais improváveis da história do marketing esportivo. Na Copa do Mundo de 1970, Adidas e Puma fizeram um acordo secreto especial que mais tarde ficou conhecido como Pacto Pelé, no qual as duas empresas combinaram de não disputar o craque entre si publicamente durante o torneio. Mesmo assim, na Copa do Mundo de 1970, o craque brasileiro se abaixou no centro do campo para amarrar suas chuteiras de forma muito calma antes de uma partida — uma jogada estratégica combinada com Rudolf para mostrar o logo da Puma em rede mundial. A câmera foi, a Puma apareceu, e o acordo foi discretamente ignorado por quem tinha mais a ganhar.
Outro fato pouco lembrado é a chuteira mais vendida de todos os tempos. Em 1979, a Adidas lançou a Copa Mundial, feita em couro de canguru e com solado de poliuretano, pesando apenas 270g, e foi uma febre internacional, sendo usada por jogadores do calibre de Maradona, Beckenbauer e Platini. O pequeno Zinedine Zidane esperou um ano inteiro para que seu pai economizasse dinheiro e lhe desse um par novinho em folha da Copa Mundial.
Em 1994, a Adidas lançou a Predator, revolucionária em termos de performance, com combinações de tipos de borracha que prometiam facilitar o controle de bola, ficando consagrada nos pés de Zinédine Zidane, David Beckham e Del Piero. Mais tarde, em 1998, a Nike entrou no mercado das chuteiras com a sua Mercurial, que estreou nos pés de Ronaldo Fenômeno, na Copa da França.
Tem ainda a questão da rivalidade que nunca acabou de fato. O suposto fim da rivalidade entre Adidas e Puma foi simbolizado apenas em 2009, quando funcionários das duas marcas realizaram uma partida amistosa de futebol — mais de 60 anos depois da separação dos irmãos. Os fundadores nunca se reconciliaram em vida.
Por fim, vale registrar como a chuteira moderna representa a inversão completa de tudo que existia em 1891. Uma bota de um quilo que ensopava na chuva e dobrava de peso virou um calçado de menos de 200 gramas, fabricado com materiais criados pela indústria aeroespacial, desenhado em computador com base nos dados biomecânicos do próprio jogador que vai usá-la. O objeto não mudou de nome — ainda é uma chuteira — mas o que está dentro desse nome mudou absolutamente tudo.
Perguntas Frequentes
Quem inventou as chuteiras de futebol?
Não existe um único inventor. O primeiro registro documentado é de 1526, quando o rei Henrique VIII da Inglaterra encomendou um calçado de couro para jogar futebol. A evolução mais significativa veio dos irmãos alemães Adolf e Rudolf Dassler, que em 1925 criaram as primeiras chuteiras leves com travas removíveis, revolucionando o calçado esportivo.
Por que as primeiras chuteiras eram tão pesadas?
As primeiras chuteiras eram feitas de couro grosso, sem nenhuma tecnologia de impermeabilização. Em dias secos pesavam cerca de 1 quilo cada, e quando o couro encharcava com a chuva durante um jogo, podiam chegar a 2 quilos. Essa limitação foi uma das principais razões que levou os irmãos Dassler a investir em materiais mais leves e funcionais a partir dos anos 1920.
Como a Copa do Mundo de 1954 mudou a história das chuteiras?
Na final chuvosa entre Alemanha e Hungria, Adi Dassler trocou as travas das chuteiras dos jogadores alemães no intervalo, colocando travas maiores para melhorar a aderência no gramado molhado. A Alemanha virou o placar e venceu. O episódio ficou conhecido como o Milagre de Berna, e a Adidas se tornou referência mundial em chuteiras a partir dali.
Por que Adidas e Puma são empresas rivais?
As duas marcas nasceram da separação dos irmãos Adolf e Rudolf Dassler, que eram sócios na fábrica de calçados da família desde 1924. Uma briga pessoal durante a Segunda Guerra Mundial quebrou a parceria em 1948. Adolf fundou a Adidas e Rudolf fundou a Puma, usando o rio Aurach como fronteira entre as duas fábricas na mesma cidade alemã.
Qual foi a primeira chuteira usada por Pelé numa Copa do Mundo?
Na Copa de 1970, no México, Pelé usou a Puma King, num acordo combinado com Rudolf Dassler. O craque se agachou no centro do campo para amarrar o cadarço antes de uma partida, garantindo que as câmeras de transmissão mundial mostrassem o logo da Puma. A jogada ficou conhecida como o Pacto Pelé e é considerada um dos primeiros grandes golpes do marketing esportivo moderno.
Qual é a chuteira mais vendida da história?
A Adidas Copa Mundial, lançada em 1979, é reconhecida como a chuteira mais vendida de todos os tempos. Feita com couro de canguru e solado de poliuretano, pesava apenas 270 gramas e calçou craques como Maradona, Beckenbauer e Platini. O modelo segue sendo fabricado e vendido até hoje, mais de quatro décadas depois do lançamento original.
Como as chuteiras modernas se comparam às antigas?
A diferença é radical. Uma chuteira de 1891 pesava cerca de 1 quilo, era feita de couro grosso sem tratamento e ficava ainda mais pesada quando molhada. Os modelos ultraleves mais avançados da atualidade pesam menos de 200 gramas, são fabricados com materiais sintéticos desenvolvidos pela indústria aeroespacial e algumas marcas chegam a produzir versões personalizadas com base nos dados biométricos do jogador específico que vai usá-la.
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