O mundo inteiro conhece o nome. Quatro letras, duas sílabas, uma sonoridade que atravessa fronteiras e idiomas sem precisar de tradução. Mas, curiosamente, o homem que transformou esse apelido em sinônimo de perfeição esportiva passou boa parte da infância tentando se livrar dele. Edson Arantes do Nascimento não queria ser Pelé.

Ele se orgulhava de ter sido batizado em homenagem a Thomas Edison, o inventor da lâmpada, e preferia ser chamado de “Dico”, como sua família carinhosamente o tratava em casa.

A transição de Edson para a marca global que conhecemos hoje não foi fruto de uma estratégia de marketing, mas sim de um erro de pronúncia infantil, uma dose de teimosia e uma pequena confusão em um campo de futebol no interior de Minas Gerais.

A história de como Pelé recebeu o apelido de Pelé é um mergulho na nostalgia do futebol brasileiro dos anos 40, uma época em que os ídolos eram locais e as lendas nasciam no “terrão”. Para entender essa metamorfose, precisamos viajar até a cidade de São Lourenço, onde o pai de Pelé, o centroavante Dondinho, jogava.

Foi lá que as sementes do apelido mais famoso da história foram plantadas, envolvendo um goleiro hoje quase esquecido, mas que teve seu nome eternizado pela dicção ainda em formação de um garoto que sonhava em seguir os passos do pai.

O que começou como uma irritação profunda para o jovem Edson acabou se tornando a sua identidade definitiva, provando que, às vezes, o destino escreve certo por linhas tortas — ou, neste caso, por letras trocadas.

A origem de tudo: O goleiro Bilé e o pequeno Edson

A jornada para descobrir como Pelé recebeu o apelido de Pelé começa muito antes das Copas do Mundo ou dos mil gols. O cenário é o sul de Minas Gerais, especificamente a cidade de São Lourenço.

Naquela época, Dondinho, pai do Rei, defendia as cores do Vasco de São Lourenço. Entre os companheiros de equipe de Dondinho, havia um goleiro que se destacava não apenas pelas defesas, mas por ser um dos favoritos da torcida local: José Lino da Conceição Faustino, mais conhecido como Bilé.

O pequeno Edson, que na época tinha entre três e quatro anos, acompanhava o pai nos treinos e jogos. Como toda criança apaixonada por futebol, ele buscava referências e ídolos no campo.

Por uma ironia do destino, o garoto que se tornaria o maior carrasco de goleiros da história começou sua relação com o futebol admirando justamente um guarda-redes. Edson ficava atrás do gol de Bilé, observando cada movimento, cada salto e cada defesa do arqueiro.

Na sua empolgação infantil, ele tentava gritar o nome do seu ídolo para incentivá-lo. No entanto, a dicção do pequeno Edson ainda estava se desenvolvendo.

Em vez de “Bilé”, o que saía de sua boca era algo parecido com “Pilé” ou “Pelé”. A família e os amigos próximos notaram a confusão fonética, mas no início, aquilo era apenas uma brincadeira interna, uma daquelas histórias de infância que costumam ficar restritas ao círculo familiar.

Ninguém poderia imaginar que aquele erro de pronúncia ganharia o mundo.

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A mudança para Bauru e o nascimento do apelido na escola

A história ganha contornos definitivos quando a família Arantes do Nascimento se muda para Bauru, no interior de São Paulo. Foi lá que Edson começou a jogar nas categorias de base e a frequentar a escola. Em Bauru, ele continuava a falar sobre o goleiro Bilé com seus novos amigos, mantendo a pronúncia errada.

O momento crucial aconteceu durante as peladas de rua e os jogos no “Sete de Setembro”, um time amador da região. Quando Edson fazia uma boa jogada ou tentava incentivar os colegas, ele repetia o nome que tinha na cabeça. Seus colegas de escola, com a rapidez típica das crianças para identificar pontos de irritação, começaram a chamá-lo de Pelé para provocá-lo.

Diferente de muitos jogadores que abraçam seus apelidos desde o início, Edson odiou a alcunha. Ele se sentia desrespeitado. Para ele, ser chamado de Pelé soava como um insulto à sua identidade e ao nome que seu pai tanto prezava. Houve um episódio famoso na escola onde Edson, já cansado da insistência dos colegas, acabou perdendo a paciência e agrediu um colega que o provocava. O resultado? Uma suspensão de dois dias da escola.

Como qualquer pessoa que já passou pelo ambiente escolar sabe, não há combustível melhor para um apelido do que a irritação do dono. Quanto mais Edson reclamava, quanto mais ele brigava e quanto mais ele pedia para ser chamado de Edson ou Dico, mais o nome Pelé se fortalecia entre os garotos de Bauru.

O apelido “pegou” de forma irreversível. O que era uma falha de fala tornou-se uma marca, e o garoto que queria ser Edson teve que aprender a conviver com o Rei que nascia dentro dele.

O contexto da época: Por que Bilé era tão importante?

Para entender a força dessa história, é preciso compreender o contexto do futebol brasileiro na década de 1940. O rádio era o grande veículo de comunicação, e os jogadores locais eram verdadeiros heróis das comunidades. Bilé não era um craque de nível nacional, mas no microcosmo de São Lourenço e para o pequeno Edson, ele representava a segurança e a habilidade de quem protegia a meta.

José Lino, o Bilé, era um goleiro ágil e carismático. O fato de Pelé ter se inspirado nele mostra que, desde cedo, o Rei tinha uma visão periférica do jogo. Ele não olhava apenas para quem fazia os gols, mas para quem os evitava. Essa admiração pelo goleiro Bilé é uma das peças fundamentais para explicar como Pelé recebeu o apelido de Pelé, pois mostra que o nome não surgiu do nada, mas de um sentimento genuíno de admiração infantil.

Muitos anos depois, já consagrado, Pelé teve a oportunidade de reencontrar Bilé e agradecer, indiretamente, pelo “presente” que o goleiro lhe deu sem saber. Bilé faleceu em 1991, levando consigo a honra de ter sido o inspirador involuntário do nome mais famoso do esporte mundial.

O que pouca gente sabe sobre o nome Pelé

Embora a história do goleiro Bilé seja a versão oficial e confirmada pelo próprio Rei em diversas entrevistas e em sua autobiografia, existem curiosidades e camadas sobre esse nome que raramente são exploradas pelo grande público.

O significado em Hebraico: Uma coincidência divina?

Anos depois de já ser famoso mundialmente, Pelé descobriu uma coincidência fascinante. Em hebraico, a palavra “Pelé” (pela’) significa “milagre” ou “maravilha”. Embora não haja nenhuma conexão linguística real entre a origem do apelido em Bauru e o idioma antigo, a semântica não poderia ser mais apropriada. Para muitos fãs de futebol, as jogadas de Pelé eram, de fato, milagrosas. O Rei costumava dizer que essa descoberta o fez aceitar melhor o apelido, vendo nele um propósito maior.

A rejeição inicial e o orgulho de Edson

É importante destacar que a luta interna entre “Edson” e “Pelé” durou décadas. Em muitas ocasiões, o Rei falava de si mesmo na terceira pessoa, distinguindo o homem Edson da entidade Pelé. “Edson é o homem, Pelé é o mito”, ele costumava dizer. Essa dissociação começou naquela sala de aula em Bauru, quando ele foi suspenso por defender o nome que seu pai lhe dera.

Pelé sempre teve um carinho especial por Thomas Edison, e sentia que o apelido Pelé era “coisa de criança”, algo menos sério do que o nome de um inventor.

O nome que facilitou a globalização

Do ponto de vista de branding — algo que nem existia na época —, o nome Pelé foi um golpe de sorte absoluto. Se ele tivesse mantido o nome Edson Arantes do Nascimento, ou mesmo o apelido familiar Dico, a pronúncia para estrangeiros seria muito mais complexa. Pelé é curto, explosivo e fácil de pronunciar em praticamente qualquer língua, do japonês ao árabe.

Essa simplicidade ajudou a transformar o jogador em uma marca global instantânea, especialmente a partir da Copa de 1958.

Perguntas Frequentes sobre a origem do apelido de Pelé

Qual é o verdadeiro nome do Pelé?

O verdadeiro nome do Rei do Futebol é Edson Arantes do Nascimento. Ele nasceu em 23 de outubro de 1940, na cidade de Três Corações, em Minas Gerais. Seus pais, Dondinho e Dona Celeste, escolheram o nome Edson em homenagem ao inventor americano Thomas Edison, que havia criado a lâmpada elétrica. Curiosamente, o registro de nascimento de Pelé veio com um erro de grafia, omitindo a letra “i” de Edison, resultando em Edson, nome que ele carregou com orgulho durante toda a sua vida.

Quem era o goleiro Bilé, que inspirou o apelido?

José Lino da Conceição Faustino, conhecido como Bilé, era o goleiro do Vasco de São Lourenço, time onde jogava Dondinho, pai de Pelé. Ele era um goleiro de destaque regional nos anos 40. Pelé, ainda criança, admirava as defesas de Bilé e tentava gritar seu nome durante os treinos. Por não conseguir pronunciar corretamente, o garoto dizia algo como “Pelé”, o que acabou gerando a alcunha que o tornaria famoso no mundo inteiro anos mais tarde.

Pelé gostava do seu apelido na infância?

Não, Pelé odiava o apelido na infância. Ele preferia ser chamado de Edson ou pelo seu apelido de família, Dico. A rejeição era tão grande que ele chegou a brigar com colegas de escola que o provocavam com o nome Pelé, o que lhe rendeu uma suspensão. Foi justamente essa resistência que fez com que o apelido “pegasse”, já que as outras crianças perceberam que aquilo o incomodava. Com o tempo e o sucesso profissional, ele passou a aceitar e a entender a força do nome.

Existe algum significado para a palavra Pelé?

Originalmente, o nome surgiu de um erro de pronúncia e não tinha um significado específico em português. No entanto, mais tarde descobriu-se que, em hebraico, a palavra “Pelé” significa “milagre” ou “maravilha”. Essa coincidência é frequentemente citada como uma prova do destino extraordinário do jogador. Além disso, em alguns dialetos africanos e outras línguas, foram encontradas referências variadas, mas nenhuma delas está ligada à criação original do apelido em Bauru.

Quando o apelido Pelé se tornou oficial para o mundo?

O apelido começou a ganhar força em Bauru durante a infância de Edson, mas se tornou uma marca mundial durante a Copa do Mundo de 1958, na Suécia. Aos 17 anos, o mundo viu o jovem Pelé encantar a todos com sua habilidade incomparável. A partir daquele momento, o nome Edson Arantes do Nascimento ficou restrito a documentos oficiais, enquanto “Pelé” passou a ser o nome pelo qual o maior atleta de todos os tempos seria reconhecido em todos os cantos do planeta.

Como a família de Pelé o chamava?

Apesar de ser conhecido mundialmente como Pelé, dentro de sua casa e entre seus familiares mais próximos, ele sempre foi o “Dico”. Esse era o apelido carinhoso que recebeu na infância e que seus pais, irmãos e amigos de longa data continuaram usando mesmo após ele se tornar uma celebridade global. Para Pelé, ser chamado de Dico era uma forma de manter sua conexão com suas raízes e com a pessoa por trás da lenda do futebol.

O legado de Pelé vai muito além das quatro linhas, e a história de seu nome é um reflexo perfeito de sua trajetória: algo que começou de forma humilde, quase por acaso, e que através do talento e da persistência, transformou-se em algo divino. Hoje, ao perguntarmos como Pelé recebeu o apelido de Pelé, não estamos apenas buscando um fato histórico, mas entendendo como um pequeno erro de um menino mineiro deu nome à maior lenda que o esporte já viu. Pelé não é apenas um nome; é o som da perfeição no futebol.

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