Quando John Textor chegou ao Botafogo em 2022 com uma proposta de investimento de R$ 400 milhões, muita gente no Brasil ainda não sabia o que era uma SAF. Dois anos depois, com o Botafogo levantando a taça do Brasileirão e da Libertadores pela primeira vez na história do clube, a sigla virou assunto de mesa de bar, notícia de capa de jornal e pauta de reunião em dezenas de outros clubes brasileiros. O que é e como funciona uma SAF deixou de ser uma pergunta técnica restrita a advogados e economistas — virou uma das dúvidas mais buscadas por torcedores de todo o país.

SAF significa Sociedade Anônima do Futebol. É uma forma específica de organização jurídica criada pela Lei nº 14.193, aprovada em agosto de 2021, que permite transformar um clube de futebol numa empresa com ações, acionistas, obrigação de transparência contábil e capacidade de receber investimento externo de forma estruturada. O conceito parece técnico, mas a ideia central é bem simples: antes dessa lei, um clube brasileiro era uma associação sem fins lucrativos e não podia ser comprado por um empresário externo de forma legal e organizada. Com a SAF, isso passou a ser possível — e o futebol brasileiro mudou de vez.

Esse texto explica do começo ao fim o que é uma SAF, como ela funciona na prática, o que mudou pra quem torce, e os casos reais que ajudam a entender tanto os acertos quanto os problemas desse modelo.

O Que É uma SAF e Por Que Ela Foi Criada

Pra entender a SAF é preciso entender o problema que ela veio resolver. Durante décadas, o futebol brasileiro funcionou com um modelo jurídico que simplesmente não foi feito pra uma atividade que movimenta bilhões de reais. Os clubes eram associações civis sem fins lucrativos — o mesmo formato jurídico de uma cooperativa de bairro ou uma associação de moradores — e isso gerava uma contradição enorme: um clube podia ter receita de um bilhão de reais por ano, contratar jogadores por dezenas de milhões e vender cotas de televisão por valores astronômicos, tudo dentro de uma estrutura que teoricamente não visava lucro.

Esse arranjo criou problemas graves ao longo do tempo. A atividade futebolística no Brasil era regulamentada por leis que, junto com a má gestão de muitos clubes, foram ineficazes em incentivar novos investimentos e reestruturar times endividados. Não existia forma estruturada de responsabilizar gestores por má administração, não havia obrigação de publicar balanços auditados regularmente, e não era possível vender participação num clube a um investidor externo de modo legal e seguro. O resultado foi a acumulação de dívidas bilionárias em quase todos os grandes clubes do país.

Não foi a primeira vez que o Brasil tentou resolver esse problema. No passado, houve tentativa de criar o chamado “clube-empresa” pela Lei Zico, em 1993, reformulada pela Lei Pelé em 1998. Essa iniciativa permitia que um clube se constituísse como sociedade empresária, mas fracassou principalmente por um detalhe que a SAF corrigiu: a inexistência de um regime tributário simplificado tornava o modelo financeiramente inviável na prática.

A Lei nº 14.193/2021 surgiu como um projeto apresentado pelo então senador Rodrigo Pacheco, aprendendo com o histórico de erros e construindo um marco legal específico pro futebol, com regime tributário próprio, tratamento especial para as dívidas antigas e regras claras de governança. O objetivo central era atrair capital privado pra dentro dos clubes de forma segura, dando ao investidor garantias jurídicas que antes simplesmente não existiam.

Como Funciona uma SAF na Prática

A explicação mais direta possível é esta: com a SAF, um clube de futebol se transforma numa empresa com ações. Essas ações podem ser compradas por investidores — sejam empresários brasileiros, fundos de investimento ou grupos internacionais. Quem compra as ações passa a ser dono de uma parte do clube, tem direito a participar das decisões estratégicas e pode receber dividendos se a empresa der lucro.

A lei prevê três formas de criar uma SAF. A primeira é transformar o clube inteiro numa SAF. A segunda — e a mais usada pelos grandes clubes — é a cisão: o departamento de futebol profissional é separado do resto do clube, vira uma empresa nova, e o investidor compra as ações dessa empresa. O clube social, com sócios, categorias amadoras e outras modalidades, continua existindo paralelamente, normalmente mantendo uma fatia das ações da SAF. A terceira forma é criar uma empresa do zero, ligada ao clube, pela iniciativa de uma pessoa ou fundo de investimento.

É por isso que, quando o Botafogo virou SAF, o clube social não deixou de existir. O Botafogo de futebol profissional virou uma empresa controlada por John Textor, enquanto o Botafogo enquanto associação de sócios seguiu ativo em paralelo, mantendo participação minoritária nas ações.

O regime tributário que mudou o jogo

Um dos pontos que mais diferencia a SAF das tentativas anteriores é o tratamento fiscal. A lei criou um regime tributário específico com alíquota de 5% sobre a receita bruta, substituindo vários tributos que antes eram calculados separadamente — incluindo IRPJ, CSLL, PIS e Cofins. Pra um clube com receita de um bilhão de reais, essa simplificação representa uma economia expressiva em comparação com o que pagaria numa estrutura empresarial convencional.

O que acontece com as dívidas antigas

Outro ponto central da lei é o tratamento das dívidas acumuladas antes da criação da SAF. Através do Regime Centralizado de Execuções, a SAF repassa uma porcentagem da receita ao clube original, que usa esse recurso pra pagar os credores de forma organizada e com proteção jurídica. Isso impede que um credor isolado trave o funcionamento do clube por conta de uma dívida específica, que era um problema recorrente no modelo anterior e que chegou a paralisar operações de times inteiros em situações críticas.

Os Casos Reais: Quem Já Virou SAF no Brasil

O Botafogo foi um dos primeiros grandes exemplos. O clube estava numa situação financeira complicada quando o bilionário norte-americano John Textor comprou 90% da SAF em março de 2022, com compromisso de investir no mínimo R$ 400 milhões nos três primeiros anos. O resultado esportivo veio rápido: em 2024, o Botafogo conquistou o Brasileirão depois de 29 anos de espera e a Libertadores pela primeira vez na história, enquanto a dívida do clube social caiu cerca de R$ 500 milhões no mesmo período.

O caso do Cruzeiro tem uma narrativa própria. O ex-jogador Ronaldo Fenômeno comprou o controle da SAF do clube em 2021, investiu em reestruturação e ajudou a reconduzi-lo à Série A após duas temporadas na segunda divisão. Em 2024, vendeu sua participação para Pedro Lourenço, dono da rede Supermercados BH, que assumiu o controle do projeto.

O Atlético Mineiro optou por um modelo diferente: a SAF foi adquirida pelo fundo Galo Holding, composto por empresários mineiros já ligados ao clube — os irmãos Rubens e Rafael Menin, donos da construtora MRV e do Banco Inter, o banqueiro Ricardo Guimarães, do BMG, e o empresário Renato Salvador, do Hospital Mater Dei. É um modelo de investidor local com vínculo afetivo e histórico com a instituição.

O Grupo City, mesmo conglomerado que controla o Manchester City, adquiriu o Bahia, integrando o tricolor baiano a uma rede de mais de dez clubes ao redor do mundo. O Red Bull Bragantino, por sua vez, já era controlado pela marca austríaca na prática antes da lei existir, e formalizou sua estrutura dentro do novo marco legal.

Até julho de 2025, mais de 42 clubes nas quatro divisões do futebol brasileiro já haviam adotado o modelo, com destaque curioso: a Série D, divisão de acesso, concentra o maior número absoluto de SAFs entre todas as divisões, com 19 dos 65 participantes daquela edição já operando sob esse formato.

O Que Pouca Gente Sabe Sobre as SAFs

Tem detalhes dessa história que ficam fora do resumo mais repetido, mas que merecem espaço.

O primeiro envolve a concentração de propriedade entre diferentes clubes. A lei proíbe que um mesmo acionista controlador comande mais de uma SAF no Brasil simultaneamente, justamente pra evitar conflitos de interesse em competições onde os times se enfrentam. Mas o caso de John Textor mostrou que essa regra tem brechas na dimensão internacional: ele controla o Botafogo no Brasil, o Lyon na França e o Molenbeek na Bélgica. Isso levantou questionamentos sérios quando o Botafogo vendeu jogadores diretamente pro Lyon depois dos títulos de 2024, operação que gerou debate intenso sobre quem é realmente o beneficiário dessas transferências — o clube brasileiro ou o conglomerado europeu do mesmo dono.

O caso do Vasco é outro que vale registro pelos piores motivos. O clube carioca vendeu sua SAF pra empresa norte-americana 777 Partners com promessa de aporte bilionário. A 777 entrou em colapso financeiro antes de cumprir os compromissos, e o Vasco ficou numa situação jurídica complicadíssima por meses, com o controle do futebol disputado na Justiça entre o clube social e o investidor inadimplente. O episódio expôs um risco real que a lei não elimina completamente: a qualidade e a solidez financeira do investidor importam tanto quanto o modelo jurídico escolhido.

Já o Fortaleza escolheu um caminho diferente de todos os outros, inspirado no modelo do Bayern de Munique. O clube cearense criou uma SAF onde a maioria das ações permanece com os próprios sócios, sem transferir o controle a um investidor externo. Dessa forma, aproveita os benefícios tributários e jurídicos da lei sem abrir mão da autonomia da torcida nas decisões estratégicas. No Bayern, nenhum investidor externo pode ter mais de 49% das ações — o clube pertence majoritariamente a si mesmo, e esse modelo é frequentemente apontado como o mais equilibrado entre capital e tradição.

Por fim, vale registrar um debate que ganhou força em 2025: o técnico Renato Gaúcho sugeriu publicamente que poderia ser necessário criar dois campeonatos separados no Brasil — um pra SAFs e outro pra clubes no modelo tradicional. A proposta, dita informalmente, captou uma tensão real que o modelo criou: clubes com acionistas bilionários têm acesso a capital que associações tradicionais simplesmente não conseguem igualar, e isso pode criar um desequilíbrio permanente nas competições brasileiras que ainda não tem resposta definitiva na legislação atual.

Perguntas Frequentes

O que é uma SAF no futebol?

SAF significa Sociedade Anônima do Futebol. É um modelo jurídico criado pela Lei nº 14.193, de agosto de 2021, que permite transformar um clube de futebol brasileiro numa empresa com ações e acionistas, capaz de receber investimento externo de forma organizada e legal. Antes dessa lei, os clubes eram associações sem fins lucrativos e não podiam ser adquiridos por investidores de forma estruturada.

Como funciona a criação de uma SAF?

Um clube pode criar uma SAF de três formas: transformando todo o clube numa SAF, separando só o departamento de futebol numa empresa nova por meio de cisão, ou criando uma empresa do zero ligada ao clube. O modelo mais usado pelos grandes times foi a cisão, onde o futebol profissional vira uma empresa separada com ações, enquanto o clube social continua existindo em paralelo com participação minoritária.

Qual é o regime tributário de uma SAF?

A lei criou um regime tributário com alíquota de 5% sobre a receita bruta, substituindo tributos como IRPJ, CSLL, PIS e Cofins que antes eram calculados separadamente. Esse regime simplificado foi um dos principais atrativos da lei, corrigindo o erro central que havia inviabilizado as tentativas anteriores de criar o modelo de clube-empresa no Brasil nas décadas de 1990 e 2000.

Quais clubes brasileiros já têm SAF?

Mais de 42 clubes nas quatro divisões do futebol brasileiro já aderiram ao modelo até 2025. Entre os grandes, estão Botafogo, Cruzeiro, Atlético Mineiro, Bahia e Red Bull Bragantino. O Vasco passou por uma situação jurídica complexa após o colapso do investidor 777 Partners. Palmeiras, Flamengo, Corinthians e São Paulo seguem como associações civis sem fins lucrativos, sem adotar o modelo de SAF.

O torcedor perde poder com a criação de uma SAF?

Depende do modelo. Em SAFs controladas por investidores externos, as decisões estratégicas ficam nas mãos do acionista majoritário, não dos torcedores. No modelo do Fortaleza, inspirado no Bayern de Munique, os próprios sócios mantêm o controle majoritário. O modelo mais equilibrado é aquele onde nenhum investidor externo tem mais de 49% das ações, garantindo que os associados continuem com a palavra final nas decisões mais importantes do clube.

Uma SAF pode ser revendida para outro investidor?

Sim. As ações de uma SAF podem ser negociadas como as ações de qualquer empresa. O caso do Cruzeiro mostrou isso na prática: Ronaldo Fenômeno comprou o controle da SAF do clube em 2021 e vendeu essa participação em 2024 para Pedro Lourenço, dono dos Supermercados BH. A legislação prevê regras específicas de governança para essas transações, mas a possibilidade de troca de controlador está prevista desde o início da lei.

Clube com SAF pode falir?

A lei prevê mecanismos específicos pra situações de insolvência, incluindo a possibilidade de recuperação judicial. O caso do Vasco mostrou que, quando o investidor entra em colapso financeiro, a situação jurídica pode se tornar bastante complexa, com disputas sobre quem controla o futebol do clube. A proteção legal existe, mas não elimina completamente o risco de uma SAF entrar em dificuldades financeiras graves caso o aporte prometido pelo investidor não se concretize.

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