A camisa listrada do Flamengo não nasceu vermelha e preta. Isso mesmo: o clube que hoje tem uma das cores mais reconhecidas do futebol mundial começou sua trajetória usando azul e dourado. E o caminho até chegar nas listras horizontais que conhecemos hoje passou por um uniforme xadrez que dava azar, uma camisa parecida com cobra-coral e até um problema diplomático causado pela Primeira Guerra Mundial.
Parece exagero, mas não é. O Flamengo foi fundado em 1895 como clube de remo, num Rio de Janeiro onde o futebol ainda engatinhava e nem existia dentro da instituição. As cores originais, azul e ouro, representavam o mar da Baía de Guanabara e o prestígio que os remadores queriam transmitir. Só que o tecido importado da Inglaterra não aguentava o sol carioca nem a maresia, e desbotava rápido demais para um clube que se orgulhava da aparência das suas equipes.
Foi aí que começou uma sequência de mudanças que levaria quase duas décadas até desembocar na camisa que hoje estampa o peito de mais de quarenta milhões de torcedores. E o mais curioso é que boa parte dessas trocas não teve nada a ver com estética ou estratégia de marketing — teve a ver com desbotamento de tecido, superstição de atleta e até guerra mundial. Entender esse caminho todo ajuda a explicar por que a camisa listrada carrega tanto peso simbólico até hoje.
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Como surgiu a camisa listrada do Flamengo
Tudo começa em 15 de novembro de 1895, data de fundação do Clube de Regatas do Flamengo. Naquele momento a instituição só existia para o remo, e as cores escolhidas pelos fundadores foram azul e ouro, numa combinação que remetia ao céu e ao mar do Rio, com um toque de riqueza no dourado. O uniforme tinha listras horizontais grossas, sem escudo, só as cores mesmo identificando o time nas regatas.
O problema apareceu rápido. O tecido vinha da Inglaterra, era caro de importar e simplesmente não resistia ao sol forte nem ao sal da água. Depois de poucas saídas de barco, as camisas já apareciam desbotadas, quase esverdeadas, longe do azul vibrante original. Some a isso um detalhe nada menor: o Flamengo não venceu uma única regata na primeira temporada com aquele uniforme, o que rendeu ao clube o apelido pouco lisonjeiro de “clube de bronze”. Cor de azar, tecido caro e resultado ruim formaram a combinação perfeita para uma reforma.
Assim, ainda no fim do século XIX, o clube trocou de identidade visual e adotou o vermelho e o preto — cores mais baratas de manter e, segundo a torcida da época, mais combativas. Nascia ali a base do que se tornaria a marca mais famosa do esporte brasileiro, embora o desenho da camisa ainda fosse bem diferente do que conhecemos hoje.
A confusão entre remo e futebol
O departamento de futebol do Flamengo só apareceu em 1911, quando um grupo de jogadores insatisfeitos deixou o Fluminense e foi parar no clube de regatas do bairro vizinho. E aqui entra um detalhe que poucos torcedores lembram: os remadores rubro-negros não queriam que o time de futebol usasse a mesma camisa listrada deles. Achavam que misturar as duas modalidades sob o mesmo uniforme desvalorizaria a tradição do remo, que naquela época tinha muito mais prestígio social do que a bola.
Por causa dessa exigência, o futebol estreou em 1912 com um modelo completamente diferente: uma camisa quadriculada em vermelho e preto que logo ganhou o apelido de “Papagaio de Vintém”, numa referência às pipas baratas que a criançada empinava nas ruas do Rio. O primeiro jogo com essa camisa foi em 3 de maio de 1912, contra o America, e a estreia oficial do clube aconteceu contra o Mangueira, com goleada de 15 a 2 e gol logo nos primeiros sessenta segundos, marcado por Gustavo de Carvalho.
Só que o Papagaio de Vintém não durou. O time não emplacou bons resultados usando aquele padrão e o uniforme foi visto como pé frio pelos próprios jogadores. Em 1913, veio a substituição: uma camisa com listras horizontais vermelhas e pretas, mas com finas faixas brancas entre elas, criando um desenho que lembrava o padrão de uma cobra-coral. E foi exatamente esse o apelido que pegou — “Cobra Coral”.
A Cobra Coral estreou oficialmente em campo em 10 de maio de 1914, numa vitória por 3 a 0 sobre o Rio Cricket, e foi com ela que o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Carioca, ainda naquele ano. O modelo seguiu em uso até 28 de maio de 1916, numa derrota para o Bangu por 4 a 2.
O motivo real por trás das listras sem branco
Aqui está o capítulo mais inesperado dessa história. A Cobra Coral, com suas três cores — vermelho, preto e branco — acabou ficando parecida demais com a bandeira do Império Alemão daquela época. E isso, em 1916, era um problema sério. O Brasil vivia sob forte influência da opinião pública contrária à Alemanha por causa da Primeira Guerra Mundial, que já se arrastava havia dois anos na Europa, e a Alemanha era vista como inimiga das nações aliadas.
Manter um uniforme que lembrava a bandeira alemã virou motivo de desconforto para a diretoria do clube. Diante da polêmica, optou-se por tirar as faixas brancas da camisa. E dessa vez os remadores não se opuseram — ao contrário do que aconteceu em 1912, eles permitiram que o futebol adotasse o mesmo desenho já usado no remo desde o final do século anterior: listras horizontais só em vermelho e preto, sem qualquer friso branco separando as cores.
O primeiro jogo com essa camisa definitiva aconteceu em 4 de junho de 1916, no estádio da Rua Paissandu, contra a Associação Athletica São Bento. Ali nascia, de fato, o desenho que o Flamengo carrega praticamente sem alterações estruturais até os dias de hoje: a camisa listrada horizontalmente em vermelho e preto, calção branco e meias rubro-negras. O que existiu depois disso foram apenas ajustes de espessura das listras, tonalidade das cores e detalhes de gola — nunca mais uma mudança de conceito.
O que pouca gente sabe sobre a camisa listrada do Flamengo
Alguns detalhes dessa trajetória raramente aparecem quando o assunto é a camisa listrada do Flamengo, e ajudam a entender por que essa história é tão rica.
A cor original nunca foi usada num jogo de futebol. O azul e ouro, primeira identidade visual do clube, existiu exclusivamente durante a fase do remo. Quando o departamento de futebol nasceu, em 1911, o vermelho e preto já era a cor oficial havia mais de uma década. Ou seja, nenhuma bola rolou oficialmente com o time de futebol do Flamengo vestindo azul e dourado.
O nome “urubu” não tem relação com a camisa. Muita gente associa o apelido pejorativo dado à torcida do Flamengo à cor escura do uniforme, mas a origem é outra: o termo surgiu nos anos 1960, usado por rivais como alusão racista à grande massa de torcedores negros e de baixa renda que acompanhava o clube. A camisa preta e vermelha não tem relação direta com esse apelido, embora muitos associem as duas coisas erroneamente até hoje.
Detalhes que marcaram a evolução da camisa
O Flamengo foi pioneiro em criar um segundo uniforme no Brasil. Em 1938, o técnico húngaro Dori Kruschner sugeriu uma camisa branca alternativa, para facilitar a visualização em partidas noturnas — algo bastante relevante numa época em que a iluminação dos estádios ainda era precária. A ideia foi aprovada e o clube se tornou o primeiro do país a ter oficialmente dois uniformes distintos.
Outro ponto pouco lembrado é que a camisa usada na conquista do título mundial de 1981, contra o Liverpool, tinha as listras concentradas apenas nas mangas, não mais espalhadas pelo peito inteiro como em versões anteriores. Esse detalhe específico virou uma espécie de amuleto para a torcida, e o modelo passou a ser reverenciado justamente por causa da conquista histórica alcançada com ele em campo.
Vale lembrar também que, em 1979, foi Elsa Braga — formada em desenho industrial e prima do então presidente do clube — quem redesenhou a camisa, alargando as listras e deixando as letras do escudo mais legíveis. Foi ela também quem teve a ideia de incluir as três estrelas ao lado do emblema, celebrando o tricampeonato estadual conquistado naquele ano. Um detalhe visual que hoje parece óbvio, mas que só existe por causa de uma decisão pontual tomada há mais de quatro décadas.
E há um episódio curioso envolvendo a Copa do Mundo de 2014: a seleção da Alemanha entrou em campo com uma camisa em homenagem ao Flamengo, toda em vermelho e preto, justamente na partida contra o Brasil. O resultado, para quem lembra, foi a histórica goleada de 7 a 1 — uma coincidência que a torcida rubro-negra adora repetir até hoje, mesmo sem qualquer relação real entre os dois fatos.
Perguntas frequentes sobre a camisa listrada do Flamengo
Qual era a primeira cor da camisa do Flamengo?
A primeira camisa do Flamengo era azul e dourada, usada exclusivamente na fase de clube de remo, a partir de 1895. As cores representavam o mar e o prestígio dos primeiros atletas, mas o tecido importado desbotava com facilidade e o modelo foi abandonado ainda no século XIX.
Por que o Flamengo trocou de azul e ouro para vermelho e preto?
Porque o tecido azul e dourado, importado da Inglaterra, não resistia ao sol nem à água salgada do mar carioca, desbotando rapidamente. Além disso, o time não conquistava resultados expressivos com aquele uniforme, o que reforçou a decisão de mudar para vermelho e preto.
O que foi a camisa Papagaio de Vintém do Flamengo?
Foi o primeiro uniforme usado pelo time de futebol do Flamengo, a partir de 1912. Tinha desenho quadriculado em vermelho e preto e recebeu esse apelido por lembrar as pipas baratas populares entre as crianças cariocas da época. Durou pouco tempo e foi vista como uniforme de azar.
O que era a camisa Cobra Coral do Flamengo?
Foi o modelo usado entre 1913 e 1916, com listras horizontais vermelhas e pretas intercaladas por finas faixas brancas, lembrando o padrão de uma cobra-coral. Com essa camisa o Flamengo conquistou seu primeiro Campeonato Carioca, em 1914.
Por que a camisa listrada do Flamengo perdeu as faixas brancas?
Porque o desenho ficou parecido demais com a bandeira do Império Alemão durante a Primeira Guerra Mundial, gerando desconforto num período de forte rejeição popular à Alemanha no Brasil. As faixas brancas foram retiradas em 1916, dando origem ao modelo definitivo.
Quando surgiu a camisa listrada rubro-negra que o Flamengo usa até hoje?
O desenho definitivo, sem faixas brancas, estreou em 4 de junho de 1916, num jogo contra a Associação Athletica São Bento. Desde então, o clube manteve o mesmo conceito visual, com apenas pequenos ajustes de espessura das listras e detalhes de gola ao longo das décadas seguintes.
O Flamengo foi o primeiro clube brasileiro a ter dois uniformes?
Sim. Em 1938, por sugestão do técnico Dori Kruschner, o clube criou uma camisa branca alternativa para facilitar a visualização em jogos noturnos. O Flamengo se tornou pioneiro no Brasil ao adotar oficialmente um segundo uniforme dentro do futebol nacional.

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