O Botafogo precisou de apenas 80 minutos para marcar fazer a maior goleada da história do futebol brasileiro. Em 30 de maio de 1909, o então Botafogo Football Club derrotou o Sport Club Mangueira por 24 a 0, pelo Campeonato Carioca, estabelecendo uma marca que atravessou mais de um século como referência entre as maiores goleadas oficiais já registradas no futebol brasileiro.

O número se torna ainda mais extraordinário quando considerado o regulamento da época. A partida foi disputada em dois tempos de 40 minutos, e não nos dois períodos de 45 minutos utilizados atualmente. Isso significa que os 24 gols saíram a uma média de aproximadamente um a cada 3 minutos e 20 segundos.

O primeiro tempo terminou 9 a 0. Se aquilo já representava uma goleada incomum, o segundo transformou o jogo em recorde: o Botafogo marcou outras 15 vezes em 40 minutos, média de um gol a cada 2 minutos e 40 segundos somente depois do intervalo.

A história também acumulou lendas ao longo das décadas. Uma delas dizia que o goleiro do Mangueira se recusava a mergulhar porque não queria sujar o uniforme numa poça de lama. Outra afirmava que o clube havia colocado dirigentes e funcionários para completar a equipe. A pesquisa histórica do próprio Botafogo, baseada em jornais e registros da época, contesta as duas versões. O que está documentado é suficientemente incomum: o Mangueira começou a partida com apenas dez jogadores.

Siga o Giro no Facebook
Siga o Giro no Instagram

O Botafogo era favorito, mas ninguém esperava 24 gols

O confronto aconteceu no antigo campo da Rua Voluntários da Pátria, no Rio de Janeiro. O Botafogo vinha de uma vitória por 6 a 0 sobre o Riachuelo e de um empate por 2 a 2 com o Fluminense, enquanto o Mangueira havia perdido por 3 a 2 para o Haddock Lobo e por 2 a 0 para o Riachuelo.

A diferença entre as equipes já indicava favoritismo alvinegro. O Mangueira, clube rubro-negro da Tijuca que não deve ser confundido com a posteriormente famosa escola de samba Estação Primeira de Mangueira, ainda apareceu para o confronto desfalcado: somente dez atletas entraram em campo.

Mesmo assim, nada nas rodadas anteriores indicava que o resultado chegaria perto de 24 gols. O Mangueira havia sofrido apenas cinco nas duas derrotas anteriores somadas. Contra o Botafogo, sofreu quase cinco vezes essa quantidade em uma única tarde.

O curioso é que aquela goleada não foi produzida pelo futuro campeão carioca. Apesar do recorde, o Botafogo terminaria a competição na segunda posição, enquanto o Fluminense conquistaria o título de 1909. O Mangueira, por sua vez, ficaria na última colocação.

O primeiro tempo terminou com “apenas” nove gols

Gilbert Hime abriu o placar e rapidamente começou a transformar a partida em uma atuação individual histórica. Ele marcou também o segundo e o terceiro gols antes de Monk fazer o quarto. Dinorah anotou o quinto, e Hime voltou a aparecer para marcar o sexto e o sétimo.

Flávio Ramos marcou os dois últimos gols antes do intervalo, levando o Botafogo ao vestiário com 9 a 0. Naquele momento, Hime já tinha cinco gols e o resultado já seria uma das grandes goleadas do campeonato, mas ainda faltava mais da metade do placar definitivo.

A segunda etapa foi ainda mais desequilibrada. Flávio Ramos marcou o décimo, Hime fez o 11º, Emmanuel Sodré anotou o 12º e Hime apareceu novamente para o 13º. Raul Rodrigues marcou o 14º e Lulú Rocha fez o 15º.

Depois vieram mais nove gols. Hime marcou o 16º e o 18º, Flávio Ramos fez o 17º, Monk marcou o 19º, Henrique Teixeira fez o 20º e Flávio Ramos anotou três dos quatro últimos, com Lulú Rocha fazendo o 23º. Quando o árbitro encerrou a partida, o placar registrava 24 a 0.

Gilbert Hime marcou nove vezes e Flávio Ramos fez sete

Dois jogadores responderam por dois terços de todos os gols da partida. Gilbert Hime marcou nove, enquanto Flávio Ramos fez sete. Juntos, portanto, anotaram 16 dos 24 gols do Botafogo.

Monk e Lulú Rocha fizeram dois gols cada. Dinorah, Emmanuel Sodré, Raul Rodrigues e Henrique Teixeira completaram o placar com um gol cada. A soma confirma os 24 gols documentados também nos registros históricos da RSSSF Brasil, cuja ficha cita como fontes a súmula da Liga Metropolitana de Sports Athleticos arquivada na CBF e jornais da época.

Os nove gols de Hime foram durante décadas uma referência nacional de produção individual numa única partida. O ge registra que a marca só foi superada em 1976, quando Dario marcou dez vezes na vitória do Sport por 14 a 0 sobre o Santo Amaro, pelo Campeonato Pernambucano.

A distribuição dos gols mostra também que não houve um único artilheiro produzindo quase todo o resultado. Oito jogadores diferentes marcaram pelo Botafogo, algo que ajuda a dimensionar a superioridade coletiva daquela tarde.

O Mangueira realmente jogou com apenas dez jogadores

Uma das explicações para a dimensão do resultado é confirmada pela documentação histórica: o Mangueira começou a partida com dez atletas. A ficha técnica registra Luiz Guimarães, José Perez, Carlos Mongey, Victor, Jonas Cunha, Justino Fortes, Alberto Rocha, João Pereira, Menezes e Maranhão.

Isso significava jogar em inferioridade numérica desde o início, numa época em que o futebol tinha características bastante diferentes das atuais. O Botafogo, por sua vez, entrou completo com Coggin, Raul Rodrigues, Dinorah, Rolando de Lamare, Lulú Rocha, Edgard Pullen, Henrique Teixeira, Flávio Ramos, Monk, Gilbert Hime e Emmanuel Sodré.

O Mangueira era um clube relativamente novo e de menor expressão. Segundo a pesquisa histórica publicada pelo Botafogo, a equipe havia sido fundada poucos anos antes e estava longe de possuir a mesma força esportiva do adversário.

Essa desigualdade ajuda a explicar a goleada, mas não explica sozinha um resultado de 24 a 0. Afinal, o mesmo Mangueira havia perdido suas duas partidas anteriores por diferenças de apenas um e dois gols.

A história do goleiro que não queria sujar o uniforme não aparece nos jornais da época

Uma goleada tão antiga e extraordinária inevitavelmente produziu versões diferentes sobre o que teria acontecido. Uma das mais conhecidas afirmava que havia uma enorme poça de lama em frente à meta do Mangueira e que o goleiro Luiz Guimarães evitava se jogar nas bolas para não sujar o uniforme.

A história é ótima para ser contada, mas há um problema: a pesquisa histórica do Botafogo afirma que não encontrou qualquer menção a ela nos jornais da época. Pelo contrário, o goleiro chegou a receber avaliações que o isentavam de responsabilidade pelo desastre coletivo.

Outra versão dizia que o Mangueira estava tão desfalcado que precisou colocar diretores e funcionários em campo. O levantamento do clube também contesta essa narrativa e aponta que, embora fossem somente dez, os integrantes relacionados eram atletas do Mangueira.

O caso mostra como acontecimentos esportivos do início do século XX podem acumular folclore quando atravessam gerações. O que a documentação sustenta já é extraordinário o suficiente sem necessidade desses acréscimos.

Até o árbitro teria perdido o interesse em acompanhar o jogo

Se existe uma curiosidade documentada especialmente estranha, ela envolve o árbitro Antônio Miranda. Segundo o levantamento histórico publicado pelo Botafogo, a imprensa esportiva criticou o juiz por deixar de acompanhar atentamente a partida em alguns momentos para conversar com pessoas que estavam assistindo ao confronto.

A arbitragem daquela época tinha funções e hábitos diferentes dos atuais, e os próprios jogadores resolviam diversas situações sem recorrer constantemente ao juiz. Ainda assim, a atitude de Miranda teria sido considerada desrespeitosa pelos jornais.

É difícil saber quanto o placar influenciou seu comportamento, mas a situação ajuda a reconstruir o ambiente daquela tarde. Depois de dezenas de gols e diante de uma partida completamente definida, até quem deveria controlar o jogo aparentemente teve dificuldades para manter o interesse.

A goleada também foi vista por um público que hoje pareceria minúsculo para uma partida histórica. O levantamento do Botafogo registra 224 espectadores no campo da Rua Voluntários da Pátria.

Um dos jogadores do 24 a 0 entraria meses depois em outra história brasileira

Entre os oito jogadores que marcaram naquela tarde estava Dinorah, defensor do Botafogo. Ele fez o quinto gol da goleada e, pouco mais de dois meses depois, teria seu nome envolvido em um dos episódios mais conhecidos da história literária brasileira.

Dinorah era irmão de Dilermando de Assis. Em agosto de 1909, o escritor Euclides da Cunha, autor de Os Sertões, foi até a casa dos irmãos em Piedade, no Rio de Janeiro, num episódio relacionado ao relacionamento de Dilermando com Ana de Assis, mulher de Euclides. Houve um confronto armado, e Dinorah foi atingido. Euclides acabou morto por Dilermando.

O ge relata que Dinorah continuou jogando pelo Botafogo mesmo depois de permanecer com uma bala alojada no corpo e participou da campanha campeã carioca de 1910. Com o passar do tempo, porém, seu estado físico se deteriorou.

É uma conexão improvável entre duas histórias brasileiras ocorridas no mesmo ano: um dos autores da maior goleada do futebol nacional também foi personagem da tragédia que terminou com a morte de um dos escritores mais importantes do país.

O recorde foi igualado no Amazonas 13 anos depois

Chamar Botafogo 24 a 0 Mangueira simplesmente de “resultado jamais alcançado novamente” exige uma ressalva. Há registros históricos de que o Nacional, do Amazonas, também venceu uma partida por 24 a 0, diante do Brasil Sport Club, pelo Campeonato Amazonense de 1922.

Isso significa que o Botafogo estabeleceu a marca em 1909, mas não necessariamente permaneceu sozinho no topo de todas as compilações históricas. O 24 a 0 amazonense igualou o placar treze anos depois.

Logo atrás aparecem outros resultados que ajudam a perceber como goleadas gigantescas eram mais frequentes nas primeiras décadas do futebol brasileiro. O Grêmio derrotou o Nacional de Porto Alegre por 23 a 0 em 1912, enquanto o CSA venceu o EC Maceió por 22 a 0 em partida do Campeonato Alagoano de 1944 disputada em janeiro de 1945.

Ainda assim, o jogo do Botafogo permanece como a referência mais conhecida do recorde porque aconteceu em 1909, foi documentado pela liga e aparece há décadas nas compilações históricas sobre o futebol brasileiro.

O recorde no futebol profissional é bem menor

Existe outra distinção fundamental. O 24 a 0 aconteceu em 1909, durante a era amadora do futebol brasileiro, décadas antes da consolidação do profissionalismo no país. Quando o recorte é limitado ao futebol profissional, os números mudam.

No Campeonato Carioca profissional, por exemplo, a maior goleada registrada é o 14 a 1 do Vasco sobre o Canto do Rio, em 1947. Já na chamada era Maracanã, o destaque é o 12 a 2 do Flamengo sobre o São Cristóvão, em 1956.

Em outros estados também existem goleadas enormes. O Atlético-MG fez 13 a 0 no Sport Calafate em 1929, o Cruzeiro derrotou o Alves Nogueira por 14 a 0 em 1928, o Sport aplicou 16 a 0 no Flamengo de Recife em 1938 e o Grêmio chegou aos impressionantes 23 a 0 sobre o Nacional-RS em 1912.

Por isso, qualquer afirmação sobre a “maior goleada brasileira” precisa informar qual universo está sendo considerado. O 24 a 0 é uma marca histórica do futebol de clubes no Brasil e ocorreu oficialmente pelo Campeonato Carioca, mas pertence à fase amadora do esporte.

O Botafogo marcou em 80 minutos o que muitos times levam meses para fazer

A duração da partida talvez seja o detalhe que melhor dimensione o recorde. Com dois tempos de 40 minutos, o Botafogo marcou 24 vezes em 80 minutos, média de 0,3 gol por minuto.

Se o mesmo ritmo fosse mantido durante uma partida moderna de 90 minutos, a projeção chegaria a 27 gols. Evidentemente, trata-se apenas de uma comparação matemática, mas ela mostra como a goleada foi ainda mais concentrada do que o placar isoladamente sugere.

O segundo tempo é mais impressionante. Foram 15 gols em 40 minutos, média de um a cada 160 segundos. Em outras palavras, o intervalo médio entre os gols do Botafogo depois do descanso foi inferior a três minutos.

E não houve reação capaz de diminuir a diferença. O Mangueira terminou sem marcar, produzindo uma margem final de 24 gols.

O recorde sobreviveu enquanto quase todo o futebol ao redor dele mudou

A partida aconteceu quando substituições, cartões amarelos e vermelhos e diversas características do futebol moderno ainda não existiam da maneira como conhecemos hoje. Os clubes, os estádios e a própria organização do esporte brasileiro estavam em uma fase inicial.

O Botafogo daquela tarde ainda era o Botafogo Football Club, instituição que décadas mais tarde se uniria ao Club de Regatas Botafogo para formar o atual Botafogo de Futebol e Regatas. O Mangueira desapareceu do cenário principal do futebol carioca.

O campo da Rua Voluntários da Pátria também ficou no passado, assim como os jogos de 80 minutos daquele campeonato. O que permaneceu foi o número registrado em 30 de maio de 1909.

O primeiro tempo terminou 9 a 0, o segundo teve mais 15 gols, Gilbert Hime marcou nove vezes e Flávio Ramos fez sete. O Mangueira jogou com dez homens e, diante de apenas 224 espectadores, o Botafogo estabeleceu um 24 a 0 que se tornaria a referência histórica da maior goleada do futebol brasileiro, posteriormente igualada pelo Nacional-AM.

Mais de um século depois, o aspecto mais difícil de imaginar talvez nem seja alguém vencer por 24 gols de diferença. É lembrar que o Botafogo conseguiu fazer tudo isso com dez minutos a menos do que teria numa partida de futebol atual.

5 títulos alternativos de alto CTR

  1. 24 a 0 em apenas 80 minutos: a história da maior goleada do futebol brasileiro
  2. Botafogo fez 24 gols, atacante marcou 9 e jogo durou só 80 minutos: a maior goleada do Brasil
  3. Um gol a cada 3 minutos: como o Botafogo chegou ao inacreditável 24 a 0 em 1909
  4. Botafogo 24 x 0 Mangueira: o jogo de 1909 que estabeleceu um recorde ainda insuperável no Brasil
  5. 9 a 0 no intervalo e mais 15 depois: como aconteceu o histórico 24 a 0 do Botafogo

Leia Mais: