Quais os clubes que mais revelam jogadores? A pergunta parece simples, mas produz respostas diferentes dependendo do critério. E os números mais recentes ajudam a derrubar uma ideia comum: não basta contar quantas estrelas famosas saíram de uma categoria de base para determinar qual é a melhor formação do futebol.

No levantamento mundial mais recente do CIES Football Observatory, publicado em outubro de 2025, o River Plate aparece com 97 jogadores formados atuando nas 49 ligas analisadas, mais do que qualquer outro integrante do pódio geral do estudo.

Mas quem ocupa a primeira posição no ranking de formação é o Benfica.

O clube português tinha 93 jogadores formados espalhados pelas competições analisadas e liderou o chamado training index, indicador que considera não apenas a quantidade, mas também o nível dos clubes em que esses atletas atuam e os minutos disputados.

O Barcelona ficou em segundo no índice e o River, em terceiro.

A conclusão é interessante: o clube que produz mais jogadores não é necessariamente aquele cuja base produz os jogadores de maior impacto.

E quando o recorte muda para as cinco principais ligas da Europa, aparece outro líder: o Barcelona.

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O que significa realmente “revelar” um jogador?

Antes do ranking, é preciso resolver um problema que aparece em praticamente toda discussão sobre categorias de base.

Quem revelou determinado atleta?

Foi o clube onde ele começou aos 10 anos? A equipe que o recebeu aos 15? Ou aquela que o lançou profissionalmente?

Para evitar uma classificação subjetiva, o CIES utiliza um critério objetivo inspirado na definição da UEFA.

Um clube é considerado formador quando o jogador passou pelo menos três temporadas entre os 15 e 21 anos naquela instituição.

Isso produz situações que podem parecer estranhas para o torcedor.

Um jogador pode ter passado por mais de uma academia durante a juventude e preencher os requisitos para ser considerado formado por determinado clube mesmo que não tenha feito ali toda sua trajetória desde criança.

Portanto, “clube formador” não significa necessariamente “primeiro clube da vida do jogador”.

River Plate tem 97 jogadores formados espalhados pelas 49 ligas

Em quantidade absoluta no levantamento de 2025, o River Plate chama atenção.

O clube argentino tinha:

97 jogadores formados em atividade nas 49 ligas analisadas.

O Benfica aparecia com 93 e o Barcelona com 76.

Mas o CIES vai além da simples contagem.

O estudo considera também o nível esportivo das equipes onde os jogadores trabalham e quantos minutos disputaram em partidas oficiais no período analisado.

Foi justamente aí que o Benfica passou à frente.

Por que o Benfica lidera mesmo tendo menos jogadores que o River

O Benfica registrou índice médio de nível dos clubes de 0,81, enquanto seus jogadores formados disputaram, em média, 2.582 minutos em partidas oficiais no período analisado.

O Barcelona apresentou 76 jogadores, nível médio de clubes de 0,87 e impressionantes 2.773 minutos por atleta.

O River teve 97 jogadores, nível médio de 0,81 e média de 2.305 minutos.

A comparação ajuda a explicar o ranking:

ClubeJogadores formadosNível médio dos clubesMinutos médios
River Plate970,812.305
Benfica930,812.582
Barcelona760,872.773

O River coloca mais jogadores no mercado.

O Benfica combina grande quantidade com utilização elevada.

E o Barcelona tem menos atletas no universo analisado, mas eles atuam, em média, em clubes de nível superior e acumulam mais minutos.

É exatamente por isso que perguntar apenas “quem revelou mais?” e perguntar “quem tem a melhor base?” não são necessariamente a mesma coisa.

O top 10 mundial reúne três argentinos

O ranking de qualidade da formação publicado pelo CIES em 2025 colocou o Benfica na liderança, seguido por Barcelona e River Plate.

O top 10 também inclui:

Sporting, de Portugal;
Real Madrid, da Espanha;
Boca Juniors e Vélez Sarsfield, da Argentina;
Ajax, da Holanda;
Dinamo Zagreb, da Croácia;
e Defensor Sporting, do Uruguai.

A composição é reveladora.

Não são apenas os clubes mais ricos do planeta que aparecem.

Croácia e Uruguai, países com populações muito menores que Brasil, Argentina, França ou Alemanha, conseguem colocar academias entre as mais produtivas do futebol.

Há uma explicação econômica para isso.

Para clubes de mercados menores, formar, utilizar e vender jogadores não é apenas uma estratégia esportiva. É parte central do modelo de negócios.

Argentina tem 15 clubes entre os 100 melhores; Brasil aparece com 11

Quando o ranking é ampliado para as 100 melhores academias, outro número chama atenção.

A Argentina possui 15 clubes entre os 100 primeiros.

É o país mais representado.

O Brasil aparece com 11.

Isso ajuda a colocar em perspectiva a enorme capacidade sul-americana de produção de jogadores.

Não se trata apenas de River e Boca na Argentina ou das categorias de base dos gigantes brasileiros.

Há um ecossistema inteiro abastecendo o mercado internacional.

A América do Sul continua funcionando como um dos grandes centros exportadores de talento do futebol mundial.

Quando o assunto é a elite europeia, Barcelona passa para primeiro

O ranking muda completamente quando são considerados apenas jogadores que atuam nas cinco principais ligas europeias — Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália e França.

Em janeiro de 2026, o CIES identificou 40 jogadores formados pelo Barcelona que haviam atuado no chamado Big Five durante a temporada.

O ranking era:

PosiçãoClubeJogadores no Big Five
Barcelona40
Real Madrid35
Paris Saint-Germain31
Rennes29
Ajax27

Chelsea, Real Sociedad, Manchester United, Arsenal e Manchester City completavam o top 10.

Aqui aparece uma diferença fundamental.

Produzir jogadores suficientes para abastecer dezenas de campeonatos é uma coisa.

Produzir jogadores capazes de permanecer nas cinco ligas mais fortes do planeta é outra.

Nesse recorte, La Masia continua sendo uma referência mundial.

Barcelona não vive apenas de Messi, Xavi e Iniesta

A reputação da base do Barcelona está inevitavelmente associada à geração que produziu Lionel Messi, Xavi Hernández, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Gerard Piqué e outros protagonistas do período mais vencedor da história do clube.

Mas os números recentes mostram que La Masia não é apenas uma memória daquela geração.

Em 2026, o Barcelona continuava sendo o clube com mais jogadores formados em atividade no Big Five, segundo o CIES.

Isso é especialmente relevante porque mede profundidade, e não apenas estrelas.

Uma grande academia não precisa produzir somente vencedores da Bola de Ouro.

Ela precisa produzir laterais, zagueiros, goleiros e meio-campistas capazes de construir carreiras profissionais de alto nível, mesmo quando não permanecem no clube de origem.

Em 20 anos, porém, ninguém colocou mais jogadores no Big Five que o Real Madrid

Se o recorte deixa de ser uma fotografia da temporada atual e passa a abranger duas décadas, o líder muda novamente.

O CIES analisou jogadores utilizados nas cinco principais ligas europeias desde a temporada 2005/06 até janeiro de 2025.

Resultado:

Real Madrid — 166 jogadores formados

Barcelona — 156

Paris Saint-Germain — 111

Lyon — 103

Manchester United — 103

Depois aparecem Rennes e Atalanta, ambos com 94.

O número do Real Madrid surpreende porque a imagem pública de sua estratégia está muito mais associada à compra de superestrelas do que à formação.

Mas a La Fábrica produz uma enorme quantidade de jogadores profissionais.

Muitos simplesmente constroem suas carreiras longe do Santiago Bernabéu.

Real Madrid revelou 166 jogadores que chegaram à elite europeia em 20 anos

A dimensão desse número merece atenção.

São 166 jogadores diferentes formados pelo Real Madrid utilizados em partidas das cinco maiores ligas entre 2005/06 e janeiro de 2025.

Barcelona aparece apenas dez atrás, com 156.

Isso significa que os dois gigantes espanhóis, conhecidos mundialmente pelas contratações milionárias, também possuem duas das maiores fábricas de jogadores do planeta.

E existe uma diferença interessante entre eles.

No estudo de 20 anos, jogadores formados pelo Barcelona acumularam cerca de 1,043 milhão de minutos no Big Five. Os formados pelo Real Madrid passaram de 1,078 milhão.

São mais de dois milhões de minutos combinados.

Fora do Big Five, Ajax continua sendo uma fábrica extraordinária

Quando são excluídos os clubes pertencentes às cinco grandes ligas, um nome histórico reaparece.

O Ajax foi o clube externo ao Big Five que mais formou jogadores utilizados nesses campeonatos ao longo das duas décadas analisadas pelo CIES.

Foram:

Ajax — 73

Sporting — 64

River Plate — 51

Boca Juniors — 49

Benfica — 45.

É uma lista que praticamente resume algumas das escolas de formação mais famosas do futebol.

Ajax produziu gerações que incluem Johan Cruyff, Marco van Basten e Dennis Bergkamp muito antes do período medido pelo levantamento. Sporting ficou mundialmente associado à formação de Luís Figo e Cristiano Ronaldo. River e Boca abastecem o futebol argentino e europeu há décadas.

O levantamento recente mostra que essa capacidade não desapareceu.

E onde entram os clubes brasileiros?

O Brasil tem uma particularidade.

Seus clubes estão entre os maiores produtores de talento do mundo, mas muitos jogadores deixam o país muito cedo. Isso pode diminuir sua visibilidade em rankings que analisam apenas determinados campeonatos ou exigem períodos específicos de formação.

Mesmo assim, 11 equipes brasileiras apareceram entre as 100 melhores academias do mundo no levantamento global do CIES de 2025.

Quando o recorte é exclusivamente o Big Five europeu na temporada 2025/26, outro dado aparece: entre os clubes não europeus, o River Plate liderava, seguido pelo Flamengo.

Ou seja, a base rubro-negra tinha naquele momento uma presença especialmente relevante na elite europeia.

Mas existe outro indicador no qual um clube brasileiro conseguiu entrar no top 10 mundial: dinheiro arrecadado com jogadores formados em casa.

Palmeiras entrou no top 10 mundial de bases que mais geraram dinheiro

Em abril de 2026, o CIES calculou quanto os clubes arrecadaram durante os dez anos anteriores com transferências de jogadores formados em suas categorias de base.

O resultado mostrou o tamanho econômico da formação.

O Benfica liderou com € 589 milhões.

Ajax apareceu em segundo, com € 454 milhões, e Chelsea em terceiro, com € 442 milhões.

O top 10 ainda reuniu Lyon, Monaco, Sporting, Manchester City, Real Madrid, Palmeiras e Bayer Leverkusen.

A presença palmeirense é particularmente significativa porque coloca um clube brasileiro ao lado de algumas das academias mais ricas e estruturadas da Europa.

E ajuda a mostrar outra maneira de medir uma base.

Benfica arrecadou € 589 milhões em dez anos apenas com jogadores formados

Os € 589 milhões contabilizados pelo CIES para o Benfica foram gerados por transferências de 38 jogadores formados pelo clube entre julho de 2016 e 2026.

Só João Félix representou aproximadamente 20% desse montante.

Ajax arrecadou € 454 milhões com 43 jogadores.

Chelsea, € 442 milhões com 33.

É uma quantidade extraordinária de dinheiro produzida a partir da formação.

Mas há outra mudança acontecendo.

No recorte dos últimos cinco anos do mesmo estudo, o Chelsea passa para primeiro, com € 366 milhões, seguido pelo Manchester City, com € 318 milhões.

Isso sugere que a categoria de base deixou de ser apenas uma tradição de clubes conhecidos historicamente por revelar talentos.

Virou também uma peça estratégica dos gigantes mais ricos.

Afinal, qual clube mais revela jogadores no mundo?

Não existe uma única resposta correta sem estabelecer primeiro o critério.

Pelos dados mais recentes disponíveis do CIES:

Mais jogadores formados nas 49 ligas analisadas em 2025: River Plate, com 97.

Melhor índice mundial de formação em 2025: Benfica.

Mais jogadores formados atuando no Big Five em 2025/26: Barcelona, com 40.

Mais jogadores formados utilizados no Big Five em duas décadas: Real Madrid, com 166.

Maior receita com vendas de jogadores da base em dez anos: Benfica, com € 589 milhões.

Essa divisão é mais reveladora do que simplesmente declarar uma academia “a melhor do mundo”.

O River mostra volume.

O Benfica combina volume, qualidade e retorno financeiro.

Barcelona domina a presença atual na elite europeia.

Real Madrid demonstra longevidade na produção de jogadores para o Big Five.

E Ajax permanece extraordinariamente eficiente mesmo pertencendo a um mercado financeiramente muito menor.

A base deixou de servir apenas para abastecer o próprio time

Existe uma mudança econômica escondida nesses rankings.

Historicamente, a imagem idealizada de uma categoria de base era simples: formar um jovem, promovê-lo e vê-lo passar uma década defendendo o time principal.

O futebol atual tornou a cadeia muito mais complexa.

Um clube pode formar dezenas de jogadores sabendo que apenas alguns terão espaço no elenco principal. Os demais podem ser emprestados, vendidos, gerar mecanismos de solidariedade, percentuais de futuras transferências ou simplesmente financiar a próxima geração.

Os € 589 milhões obtidos pelo Benfica em uma década mostram até onde esse modelo chegou.

Por isso, a próxima grande revelação não precisa necessariamente virar ídolo do clube que a formou para comprovar a qualidade daquela academia.

Às vezes, a melhor demonstração está justamente no caminho oposto: quantos jogadores aquela base consegue espalhar pelo futebol profissional depois que eles vão embora.

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