A escolha do país-sede da Copa do Mundo nem sempre foi uma decisão tranquila. Em 2006, a Alemanha só ficou com a Copa do Mundo por um voto de diferença. Um único voto separou o país de uma disputa que durou anos e envolveu reuniões em hotéis de Zurique, promessas de bastidor e uma votação que poderia ter mudado o destino do futebol mundial. A África do Sul perdeu por essa margem mínima e só conseguiria sua vez quatro anos depois.

Esse tipo de decisão, que parece simples quando vemos o anúncio na televisão, na verdade é resultado de um processo longo, cheio de regras específicas e, vez ou outra, de polêmica.

Quem acompanha futebol ou Olimpíadas costuma prestar atenção nos jogos, nos atletas, nas medalhas. Mas pouca gente para para pensar em como aquele estádio, aquela cidade, aquele país foi escolhido entre tantos candidatos.

A escolha do país-sede de um evento desse tamanho envolve dinheiro, política internacional, infraestrutura e votos de gente que muitas vezes nunca pisou no local escolhido.

E o curioso é que as regras mudaram bastante nas últimas duas décadas, depois de escândalos que abalaram a credibilidade de FIFA e Comitê Olímpico Internacional.

Este texto explica direto ao ponto como essa escolha acontece hoje, como ela começou e o que poucas pessoas sabem sobre os bastidores dessas decisões.

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Como surgiu a escolha do país-sede que conhecemos hoje

A primeira Copa do Mundo aconteceu no Uruguai, em 1930, e a escolha da sede nem teve a complexidade que existe hoje. O país foi indicado porque era bicampeão olímpico de futebol e estava completando cem anos de independência, então fazia sentido simbólico dar a ele a honra de receber o primeiro Mundial.

Não houve disputa, não houve votação acirrada. A FIFA simplesmente decidiu, em congresso, que aquele era o lugar certo.

Nas décadas seguintes, a definição da sede seguiu um caminho parecido: o Congresso da FIFA escolhia o país por aclamação ou por acordo entre os candidatos, sem o sistema de votos que conhecemos hoje. Isso gerava brigas, porque os países sul-americanos reclamavam da distância até a Europa e vice-versa, e a escolha acabava indo de continente em continente quase que por justiça.

Tudo mudou de forma mais estruturada a partir da Copa de 2002. Foi quando a FIFA passou a decidir a sede por votação oficial dentro do seu Comitê Executivo, um grupo pequeno de dirigentes que representava as confederações continentais. Parecia mais democrático, mas era justamente esse grupo reduzido que, anos depois, ficaria no centro de um dos maiores escândalos do esporte mundial.

Em 2010, esse comitê escolheu a Rússia para sediar a Copa de 2018 e o Catar para 2022, num mesmo dia de votação em Zurique. As duas escolhas surpreenderam o mundo do futebol, principalmente a do Catar, um país pequeno, sem tradição na modalidade e com temperaturas que tornam o futebol ao meio-dia praticamente impossível.

Anos depois, investigações do FBI e da Justiça americana revelaram esquemas de corrupção dentro da FIFA, com dirigentes recebendo propinas em troca de votos. Vários cartolas foram presos ou banidos do esporte. O episódio forçou a entidade a reformular todo o processo.

Como funciona a escolha do país-sede da Copa do Mundo na prática

Desde a disputa pela Copa de 2026, o voto deixou de ser restrito a um pequeno comitê e passou para o Congresso da FIFA, formado por todas as federações nacionais filiadas hoje, mais de duzentas. Cada país tem direito a um voto, e a votação é pública: depois do resultado, todo mundo sabe como cada federação votou, o que dificulta negociações escondidas.

Antes de chegar à votação, porém, existe um caminho bem mais longo. Os países interessados precisam apresentar o chamado bid book, um documento detalhado que comprova que têm estrutura para receber o torneio. A FIFA exige, entre outras coisas, pelo menos 14 estádios com capacidade mínima de 40 mil lugares para a fase de grupos, 60 mil para semifinais e 80 mil para a abertura e a final.

Também é preciso provar capacidade hoteleira, aeroportos funcionando, sistema de transporte e garantias do próprio governo de que vai apoiar o evento, inclusive em questões de segurança e vistos.

Há ainda uma regra de rodízio continental que limita quem pode se candidatar a cada edição: a confederação que sediou a Copa anterior, e geralmente também a penúltima, fica fora da disputa seguinte. Foi por isso que países africanos e europeus, cujas confederações organizaram 2010 e 2018, não puderam concorrer à Copa de 2026, vencida pela candidatura conjunta de Estados Unidos, México e Canadá.

A mesma lógica deixou de fora os países da América do Norte e da Ásia na corrida pela Copa de 2030, que terá Espanha, Portugal e Marrocos como sedes principais, com jogos de abertura em Argentina, Uruguai e Paraguai como homenagem ao centenário do torneio, que nasceu justamente no território uruguaio.

A votação só acontece depois que técnicos da FIFA avaliam as candidaturas e divulgam um relatório de inspeção. Para vencer, é preciso conquistar a maioria absoluta dos votos. Se nenhum país chegar a esse número na primeira rodada, o candidato com menos votos é eliminado e uma nova rodada começa, até sobrar só um nome com apoio suficiente.

A Copa de 2034, marcada para a Arábia Saudita, mostrou outra mudança no processo: a definição aconteceu de forma antecipada e praticamente sem concorrência, já que o calendário de candidaturas foi reorganizado pela própria FIFA, deixando o país saudita como único nome avaliado pela confederação asiática.

A decisão gerou críticas de organizações de direitos humanos, parecidas com as que já tinham acompanhado a escolha do Catar uma década antes.

A escolha da sede das Olimpíadas: um caminho parecido, mas com regras próprias

O Comitê Olímpico Internacional, fundado em 1894 por Pierre de Coubertin, sempre teve a tarefa de decidir onde os Jogos aconteceriam. No começo, a escolha era simples, quase informal, decidida em pequenas reuniões entre dirigentes que já se conheciam.

Com o crescimento do evento, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, o processo foi ganhando etapas, questionários, comissões avaliadoras e, principalmente, votação secreta entre os membros do COI.

Desde 1999, a Carta Olímpica organiza esse processo em duas fases. Na primeira, as cidades interessadas e não os países, diferente da Copa do Mundo, já que aqui quem concorre é a cidade através do seu Comitê Olímpico Nacional — respondem a um questionário inicial sobre capacidade de organização.

Depois dessa triagem, as cidades que avançam recebem o status de candidatas oficiais e precisam detalhar um plano muito mais completo: estádios, vila olímpica, transporte, meio ambiente, segurança, legado para a população local.

Uma comissão avaliadora do COI visita cada cidade candidata, normalmente por quatro dias, conferindo de perto o que foi prometido no papel. O resultado dessas visitas é apresentado aos membros do COI cerca de um mês antes da votação final, que acontece numa Sessão do Comitê realizada justamente num país que não tenha candidatura na disputa, para evitar qualquer favorecimento.

Como funciona a escolha do país-sede dos Jogos Olímpicos hoje

A votação tradicional sempre foi simples na teoria: cada membro ativo do COI tem direito a um voto, membros de países com candidaturas na disputa ficam impedidos de votar enquanto a própria cidade não for eliminada, e é preciso maioria absoluta para vencer. Se isso não acontecer numa primeira rodada, a cidade com menos votos cai fora e uma nova rodada recomeça, até restar uma só.

Mas esse modelo de disputa aberta, com várias cidades brigando publicamente pelo mesmo posto, foi perdendo força depois de 2019. Naquele ano, o COI aprovou uma reforma batizada de Agenda Olímpica 2020, criando duas Comissões Anfitriãs do Futuro uma para os Jogos de Verão, outra para os de Inverno.

Em vez de abrir uma corrida com vários concorrentes gastando fortunas em campanhas de candidatura, o COI passou a manter um diálogo contínuo com cidades, regiões e até grupos de países interessados, identificando o nome mais favorável antes mesmo de qualquer votação formal.

Foi assim que Brisbane, na Austrália, se tornou a sede dos Jogos de 2032 praticamente sem concorrência direta, sendo apontada como anfitriã preferencial pelo COI e depois apenas confirmada numa sessão sem grande disputa, algo que não acontecia desde Los Angeles, em 1984.

A Carta Olímpica também passou a permitir candidaturas de mais de uma cidade ao mesmo tempo, abrindo espaço para sedes compartilhadas entre regiões ou até países vizinhos, um modelo que antes era praticamente impensável para as Olimpíadas.

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O que pouca gente sabe sobre a escolha do país-sede

Tem detalhes desse processo que escapam até de quem acompanha esporte com atenção. Um deles é que a votação da Copa de 2018 e da Copa de 2022 foi feita no mesmo dia, pelos mesmos 22 dirigentes do Comitê Executivo da FIFA, em Zurique.

Os dois resultados saíram em sequência, e foi justamente essa concentração de poder em pouca gente que abriu espaço para as denúncias de corrupção que vieram depois.

Outra curiosidade pouco lembrada é que cidades já desistiram de candidaturas olímpicas por falta de dinheiro ou de apoio popular, mesmo depois de meses de campanha. Boston, nos Estados Unidos, abandonou a corrida pelos Jogos de 2024 ainda em 2015, abrindo caminho para Los Angeles assumir a candidatura americana.

Hamburgo, na Alemanha, saiu da disputa depois que a população local rejeitou o projeto num referendo. Roma teve sua candidatura cancelada pelo próprio governo italiano, que considerou o custo insustentável para o país.

A Copa de 2030 também guarda um fato que poucos perceberam de imediato: ela será disputada em três continentes diferentes — Europa, África e América do Sul algo inédito na história do torneio.

A ideia de incluir Argentina, Uruguai e Paraguai como sedes de partidas de abertura surgiu de uma articulação que teve até Lionel Messi e Luis Suárez como padrinhos, numa campanha lançada ainda em 2017 para marcar o centenário do primeiro Mundial, justamente sediado no Uruguai.

E tem ainda o caso da escolha de Tóquio para os Jogos de 2020, decidida numa votação que surpreendeu quem apostava em Madrid ou Istambul. A cidade japonesa só confirmou a vitória depois que a capital espanhola foi eliminada na primeira rodada por empate técnico, mostrando como o sistema de eliminação progressiva pode mudar tudo numa única rodada extra de votos.

Vale lembrar também que nenhuma das duas entidades, FIFA ou COI, escolhe a sede pensando apenas em estádios bonitos. Garantias financeiras do governo, leis trabalhistas, política de vistos para torcedores e até questões ambientais entram na avaliação técnica, embora critérios políticos e econômicos continuem pesando mais do que a entidade costuma admitir publicamente.

Perguntas frequentes

Quem decide na escolha do país-sede da Copa do Mundo?

A decisão é tomada pelo Congresso da FIFA, formado por todas as federações nacionais filiadas à entidade. Cada federação tem direito a um voto, e o resultado é divulgado publicamente após a votação. Antes disso, a escolha passava por um pequeno Comitê Executivo, mas esse modelo foi abandonado depois dos escândalos de corrupção ligados às Copas de 2018 e 2022.

Quanto tempo antes é definida a escolha do país-sede de uma Copa ou Olimpíada?

A Copa do Mundo costuma ter sua sede definida entre seis e oito anos antes do evento. As Olimpíadas seguiam um prazo parecido, de cerca de sete anos, mas a reforma de 2019 retirou essa exigência fixa da Carta Olímpica, dando ao COI mais liberdade para anunciar sedes com prazos diferentes, como aconteceu com Brisbane 2032.

Por que a Copa do Mundo de 2026 vai ter três países-sede?

A FIFA decidiu unir Estados Unidos, México e Canadá principalmente por causa da ampliação do torneio, que passou de 32 para 48 seleções. Mais equipes significam mais jogos, e dividir a organização entre três países permite usar estádios já existentes, reduzir custos de construção e diluir a pressão sobre transporte, hospedagem e segurança.

O que é o rodízio continental usado pela FIFA na escolha do país-sede?

É a regra que impede confederações que sediaram as edições mais recentes de concorrer novamente na disputa seguinte. Como a Ásia recebeu a Copa de 2022 e a América do Norte vai receber a de 2026, essas duas confederações ficaram fora da corrida pela Copa de 2030, abrindo caminho para a candidatura europeia, africana e sul-americana vencer.

Quem vota na escolha do país-sede das Olimpíadas?

Os membros ativos do Comitê Olímpico Internacional, excluindo os membros honorários, votam em Sessões do COI realizadas em países sem candidatura na disputa daquele ciclo. Quem representa um país com cidade candidata fica impedido de votar até essa cidade ser eliminada do processo, evitando conflito de interesse direto na votação.

O que é o Bid Book exigido pela FIFA e pelo COI?

É o documento oficial de candidatura, com centenas de páginas detalhando estádios, hotéis, transporte, segurança e garantias governamentais do país ou cidade interessada. Tanto FIFA quanto COI usam esse material como base para a avaliação técnica das candidaturas antes de qualquer votação, e descumprir o que foi prometido no bid book pode gerar punições à organização local.

Por que o COI mudou o processo de escolha do país-sede a partir de 2019?

A reforma chamada Agenda Olímpica 2020 buscou reduzir o custo altíssimo das campanhas de candidatura, que levava cidades a desistir no meio do caminho por falta de apoio popular ou financeiro. Em vez de abrir disputas abertas com vários concorrentes, o COI passou a manter diálogo direto com cidades e regiões interessadas antes de levar um nome único à votação final.

A escolha do país-sede já envolveu denúncias de corrupção?

Sim. A votação que definiu Rússia 2018 e Catar 2022 no mesmo dia, em 2010, levou a investigações do FBI e da Justiça americana que resultaram em prisões e banimentos de dirigentes da FIFA. O episódio foi o principal motivo para a entidade abandonar o voto restrito ao Comitê Executivo e ampliar a decisão para todas as federações filiadas.

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