Como surgiu a disputa de pênaltis é uma pergunta que parece simples, mas a resposta envolve um jornalista espanhol, um dirigente israelense, um árbitro alemão que reivindicou a invenção sozinho e uma reunião feita na Escócia em pleno 1970.
Antes desse formato existir, decidir um jogo empatado dependia de coisas bem menos justas: cara ou coroa, sorteio em saquinho ou então marcar uma nova partida do zero, às vezes semanas depois, só pra ver se alguém ganhava de verdade.
O dado mais curioso é que a disputa de pênaltis, esse momento que hoje paralisa estádios inteiros e faz torcedor tampar o rosto com a camisa, só passou a existir oficialmente há pouco mais de cinquenta anos. Antes da década de 1970, Copas do Mundo inteiras foram decididas por sorteio quando dois times empatavam num mata-mata.
Parece absurdo pensar nisso hoje, mas foi exatamente assim que a Itália se classificou em 1968, numa semifinal de Eurocopa contra a União Soviética definida literalmente no cara ou coroa.
Esse texto reconstrói a trajetória completa desse formato: de onde veio a ideia, quem brigou pra implementá-la, quando ela foi usada por primeira vez num jogo profissional e os bastidores que a maioria dos torcedores nunca ouviu contar.

Como Surgiu a Disputa de Pênaltis no Futebol
Pra entender essa história é preciso primeiro entender o problema que ela resolveu. Até o final dos anos 1960, quando uma partida de mata-mata terminava empatada mesmo depois da prorrogação, o futebol simplesmente não tinha um método justo de desempate.
As soluções variavam de competição pra competição: jogava-se uma partida extra inteira, geralmente num campo neutro e em outra data, ou então recorria-se ao sorteio puro e simples — moeda jogada pro alto, decidindo a vaga de uma seleção inteira numa Eurocopa.
Antes da disputa de pênaltis, como os empates eram resolvidos
Esse cenário criava situações no mínimo estranhas. Em 1968, na semifinal da Eurocopa, Itália e União Soviética não conseguiram sair do empate dentro de campo, e a vaga na final foi decidida por uma simples moeda. A seleção italiana levou a melhor na sorte e seguiu pra final, enquanto os soviéticos voltaram pra casa eliminados sem perder uma única bola na marca do pênalti — perderam no ar, literalmente.
Esse tipo de injustiça incomodava dirigentes e torcedores havia anos, e foi justamente esse incômodo que abriu espaço pra ideia de usar cobranças de pênalti como forma de desempate.
A ideia que nasceu em Israel
O primeiro passo concreto em direção ao formato que conhecemos veio do jornalista espanhol Rafael Ballester, que sugeriu o uso de cobranças alternadas de pênalti como desempate ainda em 1962, durante o Troféu Ramón de Carranza, um torneio amistoso disputado na Espanha. A sugestão circulou, mas não ganhou força suficiente pra se tornar regra oficial naquele momento.
Foi do outro lado do Mediterrâneo que a ideia realmente avançou. O israelense Yosef Dagan defendia esse mesmo formato e conseguiu convencer a Associação de Futebol de Israel a testá-lo na Copa de Israel, em 1965.
O teste funcionou bem o suficiente pra ficar guardado na memória de outro dirigente israelense, Michael Almog, que veria depois o quanto esse tipo de solução fazia falta: em 1968, a seleção de Israel perdeu pra Bulgária num desempate decidido por sorteio nos Jogos Olímpicos, e Almog, revoltado com aquele critério, se juntou a Dagan pra levar a proposta adiante de vez. Em agosto de 1969, os dois enviaram formalmente a ideia pra FIFA.
Dentro da entidade, quem puxou a aceitação da proposta foi Koe Ewe Teik, integrante da comissão de árbitros da Malásia. Com o apoio dele, o assunto chegou à reunião anual do International Football Association Board, o órgão responsável por decidir as regras oficiais do futebol, realizada na Escócia. Em 27 de junho de 1970, o novo sistema de disputa de pênaltis foi oficialmente anunciado e aprovado como método válido de desempate.
A polêmica do árbitro alemão
Tem uma camada dessa história que gera discussão até hoje. Em 2006, a agência alemã Deutsche Presse-Agentur publicou uma reportagem afirmando que o árbitro Karl Wald teria sido o verdadeiro inventor da disputa de pênaltis, em 1970, durante a Copa da Bavária, um torneio regional alemão. A reportagem deu a Wald o apelido de “pai da disputa de pênaltis” na imprensa germânica.
O problema é que essa versão ignora todo o trabalho prévio feito por Ballester, Dagan e Almog, que já vinham defendendo e testando esse formato havia quase uma década antes da reunião na Escócia.
O mais provável é que Wald tenha aplicado e popularizado o sistema dentro do futebol alemão de forma independente, sem necessariamente saber da articulação que já corria dentro da FIFA — o que ajuda a explicar por que, até hoje, diferentes países contam versões um pouco diferentes de quem “inventou” esse formato.
A primeira disputa de pênaltis profissional da história
Com a regra aprovada em junho de 1970, não demorou muito pra ela aparecer num jogo de verdade. A estreia aconteceu em agosto daquele mesmo ano, na Inglaterra, durante a Copa Watney, um torneio de pré-temporada que reunia clubes das quatro divisões do futebol inglês. Manchester United e Hull City empataram por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação, e a vaga foi decidida nos pênaltis, com vitória do United por 4 a 3.
O nome que ficou marcado nessa estreia foi o do atacante norte-irlandês George Best, primeiro jogador da história a converter uma cobrança numa disputa oficial. Curiosamente, quem desperdiçou a primeira cobrança da história foi seu companheiro de time, o escocês Denis Law, parado pelo goleiro do Hull City, Ian McKechnie — outro escocês, num daqueles cruzamentos de destino que só o futebol consegue criar.
A primeira grande decisão internacional
Enquanto clubes ingleses já experimentavam o novo formato, as seleções nacionais ainda esperavam o momento de testá-lo numa decisão de peso. Esse momento chegou em 1976, na final da Eurocopa, entre Tchecoslováquia e Alemanha Ocidental.
O jogo terminou empatado, e a disputa de pênaltis virou palco de uma das cobranças mais lembradas da história do futebol: a cavadinha de Antonín Panenka, que decidiu o título e deu nome a um estilo de cobrança imitado até hoje em todo o mundo.
Na Copa do Mundo, o caminho foi um pouco mais lento. A regra entrou oficialmente no regulamento em 1978, mas a primeira disputa de fato só ocorreu quatro anos depois, em 1982, na semifinal entre Alemanha Ocidental e França, em Sevilha — um dos jogos mais dramáticos já disputados num Mundial, decidido nos pênaltis depois de uma prorrogação eletrizante.
O Que Pouca Gente Sabe Sobre a Disputa de Pênaltis
Tem detalhes dessa história que ficam fora do resumo básico, mas que dão um sabor especial pra quem gosta de entender o esporte por trás do esporte.
Um deles é que a Itália já experimentava algo parecido com cobranças alternadas de pênalti bem antes da aprovação oficial da FIFA. Registros mostram que a Coppa Italia, torneio de mata-mata do futebol italiano, recorreu a esse tipo de desempate informalmente já em setembro de 1958, mais de uma década antes da regra valer pra todo o mundo. Ou seja, a ideia já circulava em pelo menos dois cantos diferentes da Europa antes de ganhar status oficial.
Outra curiosidade está na sorte história envolvendo Alemanha e Inglaterra nesse tipo de disputa. A seleção alemã construiu uma reputação quase mítica nos pênaltis, vencendo todas as quatro disputas que enfrentou em Copas do Mundo.
A Inglaterra, do lado opostos, carregou durante décadas a fama de ser fraca nessa hora: perdeu todas as disputas que disputou em Mundiais até 2018, quando finalmente bateu a Colômbia por 4 a 3 nas oitavas de final daquela edição, encerrando um jejum amargo que durava desde os anos 1990.
Tem ainda episódios que mostram o quanto essa disputa pode se arrastar além do imaginável. O recorde reconhecido pelo Guinness Book aconteceu na final da Copa da Namíbia de 2005, quando o KK Palace bateu o Civics por 17 a 16, depois de 48 cobranças seguidas.
No Brasil, o Campeonato Pernambucano de 2023 teve um duelo entre Náutico e Salgueiro resolvido só depois de 34 cobranças, com vitória do Salgueiro — uma maratona que deixou goleiros, jogadores e torcedores exaustos antes mesmo de saber o resultado final.
Vale lembrar também que a disputa de pênaltis usa, como base, uma regra criada décadas antes pra um propósito completamente diferente: a cobrança de pênalti em si. Essa regra nasceu em 1890, proposta pelo irlandês William McCrum, goleiro e dirigente de clube, que queria punir com mais rigor faltas graves cometidas dentro da área.
A ideia foi aprovada e entrou em vigor em 1891, quase oitenta anos antes de alguém pensar em usar essa mesma cobrança como ferramenta de desempate.
Por fim, um detalhe que explica por que tanta gente desconfia desse formato até hoje: depois que a disputa de pênaltis se popularizou, surgiram outras tentativas de evitar que jogos decisivos terminassem dessa forma. O gol de ouro, usado em algumas edições de Eurocopa e Copa do Mundo nos anos 1990 e 2000, encerrava a prorrogação no primeiro gol marcado.
A regra do gol fora de casa, usada por muito tempo em competições de clubes europeus, também tentava resolver empates sem chegar aos pênaltis. Nenhuma das duas conseguiu se firmar de forma definitiva, e a disputa de pênaltis continua sendo, até hoje, o método mais usado pra decidir um jogo que recusa terminar com um vencedor claro.
Perguntas Frequentes
Como surgiu a disputa por pênaltis no futebol?
A disputa por pênaltis surgiu a partir de propostas feitas por dirigentes israelenses e por um jornalista espanhol nas décadas de 1960, como alternativa ao sorteio por moeda usado até então. A proposta foi formalizada pela FIFA e aprovada oficialmente em 27 de junho de 1970, numa reunião do International Football Association Board realizada na Escócia.
Quem inventou a disputa de pênaltis?
Não existe um único inventor reconhecido. O israelense Yosef Dagan testou o formato em 1965, Michael Almog ajudou a levar a proposta até a FIFA em 1969, e o árbitro alemão Karl Wald também é citado, em algumas reportagens, como criador independente do sistema dentro do futebol alemão na mesma época.
Quando foi a primeira disputa de pênaltis da história?
A primeira disputa de pênaltis num jogo profissional aconteceu em agosto de 1970, na Copa Watney, torneio inglês de pré-temporada. O Manchester United venceu o Hull City por 4 a 3 nos pênaltis, depois de um empate por 1 a 1 no tempo normal e na prorrogação.
Como os empates eram resolvidos antes da disputa de pênaltis?
Antes de 1970, os empates em jogos eliminatórios costumavam ser resolvidos por meio de partidas extras, remarcadas para outra data, ou por sorteio direto, geralmente decidido por uma moeda jogada ao alto. Esse método de sorteio definiu até vagas de seleções em semifinais de grandes torneios internacionais.
Quando a disputa de pênaltis foi usada pela primeira vez na Copa do Mundo?
A regra entrou no regulamento da Copa do Mundo em 1978, mas a primeira disputa de fato só aconteceu em 1982, na semifinal entre Alemanha Ocidental e França, em Sevilha. Antes disso, jogos empatados em Copas anteriores eram resolvidos por sorteio ou partidas extras.
Por que a disputa de pênaltis usa cinco cobranças por equipe?
O número de cinco cobranças por equipe foi definido como parte da regra aprovada pela FIFA em 1970, buscando um equilíbrio entre uma disputa rápida e uma amostra justa de cobranças. Se o empate persistir depois das cinco rodadas, a disputa segue em cobranças alternadas de morte súbita até que um time erre e o outro converta.
A disputa de pênaltis já teve alternativas no futebol?
Sim. O gol de ouro foi usado em algumas Copas do Mundo e Eurocopas nos anos 1990 e 2000, encerrando a prorrogação assim que um time marcasse. A regra do gol fora de casa também tentou evitar disputas de pênaltis em competições de clubes europeus por muitos anos, antes de ser abandonada.

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