O Brasil estava a um ponto do ouro olímpico no vôlei. Depois, esteve novamente. Não conseguiu fechar nenhuma das duas oportunidades. Em 12 de agosto de 2012, a seleção masculina vencia a Rússia por 2 sets a 0 na final dos Jogos de Londres e chegou a ter dois match points no terceiro set. Os russos sobreviveram, ganharam a parcial por 29 a 27 e iniciaram uma reação que terminaria em 3 a 2 e medalha de ouro.

O placar final foi 19-25, 20-25, 29-27, 25-22 e 15-9.

No meio da virada, o técnico Vladimir Alekno tomou uma decisão que se tornou parte da história do esporte: deslocou o central Dmitriy Muserskiy, de 2,18 m, para atuar como oposto.

Muserskiy terminou a decisão com 31 pontos, recorde de pontuação em uma final olímpica masculina naquele momento.

É difícil encontrar uma virada com combinação maior de improbabilidade e importância.

Mas não foi a única.

O próprio Brasil viveu oito anos antes uma derrota ainda mais difícil de explicar: tinha 24 a 19 no quarto set da semifinal olímpica feminina de Atenas-2004, cinco oportunidades consecutivas para eliminar a Rússia e uma vaga na final aparentemente encaminhada.

Perdeu todas.

Depois perdeu o set.

E perdeu o jogo.

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Quais foram as maiores viradas da história do vôlei?

Não existe um ranking oficial da FIVB para esse tipo de feito. A importância também depende do critério: virar dois sets, salvar match points ou realizar a reação em uma final olímpica possuem pesos diferentes.

Entre as grandes partidas documentadas do vôlei internacional, estas estão entre as mais extraordinárias:

JogoSituação antes da viradaResultado
Rússia x Brasil — Londres-2012Rússia perdia 0–2 na final olímpica; Brasil teve match pointsRússia 3–2
Rússia x Brasil — Atenas-2004 femininoBrasil vencia 2–1 e 24–19 no 4º setRússia 3–2
Itália x Japão — Paris-2024Itália perdia 0–2 e 21–24 no 3ºItália 3–2
Brasil x Rússia — Londres-2012 femininoBrasil enfrentou seis match points no tie-breakBrasil 3–2
França x Alemanha — Paris-2024França perdia 0–2 nas quartasFrança 3–2
Turquia x Holanda — Paris-2024Turquia perdia 0–2Turquia 3–2
Itália x Argentina — Mundial Sub-17 de 2024Itália perdia 0–2 e salvou seis match pointsItália 3–2
Japão x França — VNL 2026Japão perdia 0–2 e salvou três match pointsJapão 3–2

O primeiro caso, porém, carrega algo que os demais não possuem conjuntamente:

era uma final olímpica, o Brasil estava a um ponto do título e a Rússia ainda precisaria ganhar três sets consecutivos.

Brasil abriu 2 a 0 e parecia ter decidido o ouro de Londres

A seleção brasileira começou a final de 2012 impondo seu jogo.

Venceu o primeiro set por 25 a 19.

Depois ganhou o segundo por 25 a 20.

Mais uma parcial e seria tricampeã olímpica masculina, depois dos ouros de Barcelona-1992 e Atenas-2004.

A Rússia estava contra a parede.

Foi então que Alekno alterou a estrutura da equipe e colocou Muserskiy como principal referência ofensiva.

A mudança parece simples quando observada depois do resultado.

Não era.

Muserskiy era central, posição baseada principalmente em ataques rápidos pelo meio e bloqueio. Como oposto, passaria a receber muito mais bolas altas e assumir uma parcela muito maior da responsabilidade ofensiva.

Funcionou de maneira devastadora.

A FIVB descreve a mudança como uma decisão extraordinária que transformou a final. Muserskiy acabaria com 31 pontos, enquanto a Rússia completaria a virada.

O Brasil teve duas oportunidades de encerrar a partida no terceiro set

É esse detalhe que separa Londres-2012 de uma simples reação de 0 a 2.

O Brasil não apenas abriu dois sets.

Teve match points para ganhar por 3 a 0.

A Rússia escapou e fechou o terceiro set por 29 a 27.

Depois venceu o quarto por 25 a 22.

No tie-break, o cenário já havia sido completamente invertido.

Os russos abriram vantagem e fecharam por 15 a 9.

O placar agregado também produz um dado curioso.

As duas equipes fizeram exatamente 108 pontos cada uma durante a decisão, segundo o registro estatístico da partida.

O Brasil não perdeu porque foi atropelado no total.

Perdeu os pontos que mudavam o destino da medalha.

Oito anos antes, o Brasil feminino perdeu cinco match points seguidos

Se Londres-2012 é uma das maiores viradas olímpicas pelo tamanho da decisão, Atenas-2004 talvez seja a mais traumática para o vôlei brasileiro.

Brasil e Rússia disputavam uma vaga na final feminina.

As brasileiras começaram melhor:

25 a 18.

Depois:

25 a 21.

A Rússia diminuiu para 2 a 1 vencendo o terceiro set por 25 a 22.

No quarto, o Brasil voltou a assumir o controle e chegou a 24 a 19.

Eram cinco match points consecutivos.

Uma única bola separava a equipe de José Roberto Guimarães da primeira final olímpica feminina da história do país.

Nenhuma caiu.

A Rússia marcou cinco pontos consecutivos e chegou a 24 a 24. Depois venceu a parcial por 28 a 26.

O Brasil ainda abriu vantagem no tie-break — e perdeu de novo

A reação russa não terminou no quarto set.

No desempate, as brasileiras voltaram a construir vantagem.

O Brasil chegou à parte final do tie-break na frente, mas a Rússia novamente reagiu e ganhou por 16 a 14.

Placar final:

Rússia 3 x 2 Brasil — 18-25, 21-25, 25-22, 28-26 e 16-14.

A derrota teve consequências que ultrapassaram aquela noite.

O episódio do “24 a 19” virou uma referência recorrente na história da seleção feminina brasileira. Anos depois, ex-jogadoras ainda tratavam a partida como um dos maiores traumas esportivos daquela geração.

A Rússia avançou à final.

O Brasil sequer conseguiu transformar a frustração em medalha: perdeu depois a disputa pelo bronze para Cuba.

Em 2012, o Brasil devolveu parte do trauma contra a mesma Rússia

Oito anos depois, as duas seleções se encontraram novamente em uma partida olímpica eliminatória.

Desta vez eram as quartas de final de Londres-2012.

E a situação se inverteu.

Brasil e Rússia chegaram ao tie-break empatados em 2 sets a 2.

Na parte final, as russas tiveram sucessivas oportunidades para fechar a partida.

O Brasil salvou seis match points antes de vencer por impressionantes 21 a 19 no quinto set.

Sheilla foi decisiva.

O levantamento do ge atribui à oposta brasileira a defesa de cinco das seis oportunidades russas de encerrar o confronto, enquanto Thaísa salvou outra.

O resultado não era uma virada tradicional de 0 a 2.

Talvez tenha sido algo psicologicamente ainda mais difícil: sobreviver repetidamente ao ponto que eliminaria a equipe.

A vitória sobre a Rússia mudou completamente a Olimpíada brasileira

A importância daquela partida aumentou pelo que veio depois.

O Brasil entrou nos Jogos de Londres com dificuldades na fase de grupos e chegou ao mata-mata sem a mesma aura dominante que carregava quatro anos antes.

Depois de eliminar a Rússia, avançou.

Venceu o Japão na semifinal.

E bateu os Estados Unidos por 3 a 1 na final para conquistar o segundo ouro olímpico feminino consecutivo. A Volleyball World registra o Brasil como campeão de Pequim-2008 e Londres-2012.

Ou seja: os seis match points salvos contra a Rússia não preservaram apenas uma partida.

Preservaram uma campanha que terminaria com ouro.

Itália estava eliminada em Paris-2024: 0 a 2 e 21 a 24

Doze anos depois, os Jogos de Paris entregaram uma reação comparável.

Itália e Japão se enfrentaram nas quartas de final masculinas.

Os japoneses venceram o primeiro set por 25 a 20.

Ganharam o segundo por 25 a 23.

E chegaram ao terceiro vencendo por 24 a 21.

Três match points.

Se o Japão convertesse qualquer um deles, eliminaria a campeã mundial e avançaria à semifinal olímpica.

Não converteu.

A Itália marcou cinco dos seis pontos seguintes e venceu a parcial por 27 a 25.

O jogo havia mudado completamente.

Itália ainda precisou de 26 a 24 e 17 a 15 para completar a reação

Escapar dos três match points não encerrou o sofrimento italiano.

O quarto set foi novamente para além dos 25 pontos.

Itália 26 a 24.

O tie-break repetiu o padrão.

Nenhuma equipe conseguiu abrir distância suficiente para resolver rapidamente.

Finalmente, a Itália fechou em 17 a 15.

Resultado:

3 a 2 — 20-25, 23-25, 27-25, 26-24 e 17-15.

É difícil imaginar uma margem menor entre classificação e eliminação.

O Japão esteve a apenas um ponto da semifinal três vezes.

A Itália acabou avançando.

França também saiu de 0 a 2 nas quartas de Paris

O mais curioso é que a mesma rodada olímpica apresentou outra virada de dois sets.

A França, anfitriã e então campeã olímpica, enfrentou a Alemanha.

Os alemães ganharam:

25 a 18.

Depois 28 a 26.

A França precisava vencer três parciais seguidas para continuar defendendo o título.

Conseguiu.

25 a 20.

25 a 21.

15 a 13.

Resultado: França 3 x 2 Alemanha diante de mais de 10 mil torcedores em Paris.

A reação ganhou ainda mais importância alguns dias depois.

A França derrotou a Itália na semifinal e a Polônia na decisão, tornando-se campeã olímpica pela segunda edição consecutiva. A própria FIVB apontou a virada diante dos alemães como o momento de recuperação que impulsionou a caminhada até o ouro.

Duas seleções viraram de 0 a 2 no mesmo dia olímpico

A coincidência é extraordinária.

Em 5 de agosto de 2024, nas quartas de final masculinas de Paris:

Itália perdeu os dois primeiros sets para o Japão e venceu por 3 a 2.

Horas depois:

França perdeu os dois primeiros para a Alemanha e venceu por 3 a 2.

As duas equipes que pareciam eliminadas acabaram se enfrentando na semifinal.

A França ganhou.

Isso mostra uma característica particular do vôlei: um 2 a 0 pode representar domínio absoluto durante quase uma hora e, ainda assim, não garantir absolutamente nada.

Turquia também virou de 0 a 2 em Paris

As Olimpíadas de 2024 tiveram outro reverse sweep relevante.

Na estreia feminina, a Turquia enfrentou a Holanda.

As holandesas venceram os dois primeiros sets pelo mesmo placar:

25 a 19 e 25 a 19.

A Turquia reagiu com dois 25 a 22 e levou o confronto para o tie-break.

No quinto, venceu por 15 a 12.

Melissa Vargas terminou com 30 pontos, liderando a vitória turca por 3 a 2.

O peso histórico é inferior ao das partidas eliminatórias.

Mas a sequência ajuda a mostrar como Paris-2024 foi particularmente fértil em reações de 0 a 2.

Uma final mundial teve seis match points salvos antes da virada

Entre as categorias de base, existe um caso que supera quase todos em quantidade de oportunidades desperdiçadas.

Na final do primeiro Campeonato Mundial masculino Sub-17, em 2024, a Argentina abriu 2 sets a 0 sobre a Itália.

25 a 23.

25 a 17.

A Itália ganhou o terceiro por 25 a 22.

No quarto, porém, a Argentina teve seis match points para conquistar o título mundial.

A Itália salvou todos.

A parcial terminou em 33 a 31.

No tie-break, os italianos ganharam por 15 a 9 e completaram o 3 a 2.

A sequência inteira foi:

23-25, 17-25, 25-22, 33-31 e 15-9.

Não foi uma semifinal.

Era a decisão do título.

O Japão virou uma partida quase perdida contra a França em 2026

Um dos exemplos mais recentes aconteceu na Liga das Nações de 2026.

A França, então bicampeã olímpica, venceu os dois primeiros sets contra o Japão:

30 a 28.

25 a 19.

Os japoneses responderam vencendo o terceiro por 25 a 17.

No quarto, a partida entrou em uma sequência interminável de match points.

A França teve três oportunidades de fechar o confronto.

O Japão escapou e venceu por 35 a 33.

Depois levou o tie-break por 15 a 12.

O capitão Yuki Ishikawa comandou a reação, e o Japão manteve uma sequência de oito vitórias na VNL de 2026.

É um exemplo recente de como dois tipos de virada podem acontecer dentro da mesma partida:

virar um jogo de 0 a 2 e, antes disso, virar um set no qual o adversário teve match points.

Por que o vôlei produz viradas tão radicais?

Existe uma característica do sistema de pontuação que torna o esporte diferente de futebol ou basquete.

Um set perdido por 25 a 10 vale exatamente a mesma coisa que um set perdido por 30 a 28:

um set.

Os pontos não são transportados para a parcial seguinte.

Uma seleção pode ser atropelada durante 25 minutos, reorganizar bloqueio, saque ou distribuição e começar o set seguinte em 0 a 0.

Isso permite mudanças táticas muito profundas dentro da mesma partida.

Foi exatamente o que ocorreu com Muserskiy em Londres.

A Rússia não precisava recuperar os pontos perdidos nos dois primeiros sets.

Precisava descobrir uma formação capaz de vencer o terceiro.

Depois o quarto.

Depois o quinto.

O tie-break também transforma qualquer vantagem em algo muito menor

O quinto set normalmente vai apenas até 15 pontos, com necessidade de dois de diferença.

Isso encurta dramaticamente a margem para recuperação.

Um time que começa 5 a 1 atrás já consumiu uma parcela enorme do set.

Por outro lado, sequências de saque podem mudar tudo rapidamente.

A semifinal olímpica de Atenas-2004 mostra os dois extremos.

O Brasil desperdiçou 24 a 19 no quarto set.

Depois voltou a liderar no tie-break.

E perdeu novamente.

A partida funcionou como duas grandes viradas dentro da mesma virada.

Qual foi a maior virada da história do vôlei?

Se o critério combinar tamanho da desvantagem, quantidade de match points e importância da partida, Rússia x Brasil em Londres-2012 possui o argumento mais completo.

Era a final olímpica masculina.

O Brasil abriu 2 a 0.

Teve oportunidades de fechar o jogo no terceiro set.

A Rússia precisou mudar a função de um jogador durante a decisão.

Muserskiy marcou 31 pontos.

E o time venceu três sets consecutivos para transformar uma prata praticamente certa em ouro.

Mas há um segundo tipo de virada que talvez seja estatisticamente ainda mais cruel.

Em Atenas-2004, o Brasil feminino não precisava ganhar mais um set inteiro.

Precisava marcar um único ponto em cinco tentativas consecutivas.

Não conseguiu.

Oito anos depois, contra a mesma Rússia, precisou fazer exatamente o contrário: sobreviver repetidamente a match points adversários.

Sobreviveu.

Essa talvez seja a melhor demonstração de como uma virada no vôlei pode mudar mais que o placar.

Em 2004, cinco pontos perdidos ajudaram a criar um dos maiores traumas da seleção brasileira.

Em 2012, seis match points salvos abriram o caminho para um ouro olímpico.

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Meta description: Relembre as maiores viradas do vôlei, da final Brasil x Rússia em Londres-2012 ao 24 a 19 de Atenas e ao drama Itália x Japão.

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