Um pote de iogurte entregue durante uma partida de xadrez provocou uma reclamação formal no Campeonato Mundial de 1978. O desafiante Viktor Korchnoi suspeitava que o alimento servido ao campeão Anatoly Karpov pudesse transmitir uma mensagem da equipe soviética por meio da cor ou do momento da entrega. O episódio ocorreu em Baguio, nas Filipinas, onde dois enxadristas formados na União Soviética disputavam muito mais do que um título esportivo.

Karpov era o campeão mundial e permanecia ligado à estrutura esportiva soviética. Korchnoi havia deixado a União Soviética em 1976 e disputava o campeonato como dissidente, sem representar oficialmente uma seleção nacional. O confronto começou em julho de 1978 e só terminou em outubro, depois de 32 partidas, com vitória de Karpov por seis triunfos a cinco e 21 empates.

O iogurte não foi o único motivo de controvérsia. Korchnoi acusou um integrante da delegação adversária de tentar influenciá-lo psicologicamente a partir da plateia, passou a usar óculos espelhados e recorreu a dois integrantes de um movimento espiritual. A história ganhou versões cada vez mais extravagantes, mas os acontecimentos documentados já são suficientes para explicar por que aquele Mundial se tornou um dos episódios mais incomuns da história do xadrez.

Siga o Giro no Facebook
Siga o Giro no Instagram

Por que um duelo de xadrez se tornou um confronto político

Karpov havia se tornado campeão mundial em 1975, depois que Bobby Fischer não aceitou as condições estabelecidas para defender o título. Em Baguio, três anos depois, o soviético enfrentaria um adversário que conhecia desde os tempos em que ambos competiam dentro do mesmo sistema esportivo: Viktor Korchnoi, então com 47 anos, duas décadas mais velho que o campeão.

A diferença entre eles ultrapassava o tabuleiro. Korchnoi havia desertado da União Soviética em 1976, mas sua esposa e seu filho continuavam no país e enfrentavam restrições para sair. O enxadrista denunciava a situação publicamente, enquanto o governo soviético tinha interesse político em preservar o título diante de um antigo integrante de sua estrutura esportiva. Korchnoi competiu em Baguio sem bandeira nacional, embora a perda formal de sua cidadania soviética só tenha ocorrido depois do campeonato.

O regulamento ampliava a tensão porque não estabelecia um número fixo de partidas. Seria campeão o primeiro jogador a alcançar seis vitórias; os empates não contavam para atingir esse limite. A fórmula permitia uma recuperação mesmo depois de uma grande desvantagem, mas também tornava impossível prever quanto tempo o evento duraria.

A disputa começou em 18 de julho de 1978. Ninguém sabia que os dois continuariam envolvidos no confronto até 18 de outubro, quando o resultado da 32ª partida seria oficialmente definido.

O que havia de suspeito no iogurte servido a Karpov?

A controvérsia alimentar surgiu logo na segunda partida, em 20 de julho. Um recipiente de iogurte foi entregue a Karpov durante o jogo, sem que o campeão tivesse feito um pedido naquele momento. A delegação de Korchnoi apresentou uma reclamação ao árbitro principal, Lothar Schmid, argumentando que a entrega poderia violar as restrições à comunicação entre os jogadores e pessoas de fora da área de competição.

A objeção tinha um fundamento regulamentar: uma equipe não deveria conseguir transmitir instruções ao seu jogador durante uma partida. O protesto sugeria, então, que o tipo de alimento e o momento da entrega poderiam funcionar como um código. Um iogurte servido depois de determinado lance poderia, hipoteticamente, significar uma orientação para oferecer empate; outro alimento poderia representar uma instrução diferente.

Esses exemplos constavam de uma argumentação sobre o risco de comunicação clandestina. Não havia prova de que o iogurte contivesse uma mensagem, muito menos de que sabores específicos correspondessem a planos de ataque ou avaliações da posição. As versões que atribuem significados exatos a iogurte de morango, nozes e outras combinações apresentam como fato um código que nunca foi demonstrado.

A arbitragem tratou a reclamação como uma questão de controle sobre o que poderia chegar aos jogadores. Foram estabelecidas condições para a entrega de alimentos e bebidas, com supervisão e previsibilidade. O episódio se tornou célebre porque uma preocupação legítima com comunicação externa assumiu a forma de uma suspeita envolvendo um simples lanche.

Quem era Vladimir Zukhar e por que Korchnoi usava óculos espelhados?

A delegação soviética contava com Vladimir Zukhar, psicólogo associado ao grupo de Karpov. Sua presença na plateia tornou-se um dos principais pontos de atrito. Korchnoi afirmava que Zukhar se sentava perto do palco e o encarava de maneira perturbadora, chegando a suspeitar de uma tentativa de hipnose.

É preciso separar a presença do profissional da acusação feita contra ele. Zukhar esteve no evento, e sua posição no auditório provocou reclamações e negociações entre as equipes. Não há, porém, demonstração de que ele tenha hipnotizado Korchnoi, controlado seus pensamentos ou alterado o resultado de qualquer partida por meios paranormais. Também não é correto apresentá-lo simplesmente como um agente da KGB sem comprovação específica dessa função.

Korchnoi passou a usar óculos de lentes espelhadas. Sua equipe os relacionava à tentativa de reduzir o contato visual e o incômodo provocado pela iluminação, enquanto a delegação de Karpov reclamou que os reflexos atrapalhavam o campeão. Em 5 de agosto, integrantes da arbitragem examinaram os óculos nas condições de luz do local e concluíram que eram incomuns, mas não causavam a perturbação alegada.

A disputa chegou a um acordo no fim de agosto. Korchnoi abandonaria os óculos espelhados, e Zukhar permaneceria numa área mais afastada, destinada à delegação soviética. O entendimento mostra que o problema teve consequências concretas na organização do campeonato, embora a suposta influência hipnótica continuasse sem comprovação.

Como dois praticantes de meditação se tornaram uma questão de segurança

Em meio ao desgaste do confronto, Korchnoi conheceu em Manila integrantes da Ananda Marga, movimento espiritual originário da Índia. Dois deles, Stephen Michael Dwyer e Victoria Shepherd, passaram a acompanhá-lo e a ensinar práticas de meditação. O desafiante acreditava que a ajuda poderia melhorar sua concentração e protegê-lo da influência que atribuía a Zukhar.

A presença dos dois produziu um problema que ia muito além das crenças espirituais. Dwyer e Shepherd haviam sido condenados por um tribunal filipino em um caso relacionado a um ataque com faca contra um representante diplomático indiano. Recorriam da decisão e estavam em liberdade sob fiança. A situação jurídica transformou sua participação no evento em uma questão de segurança para os organizadores.

Em setembro, a direção do campeonato pressionou a equipe de Korchnoi para limitar a presença dos dois no hotel e nas instalações oficiais. A disputa quase interrompeu o Mundial, e foram negociadas condições para que o confronto continuasse. Antes da última partida, a pressão aumentou e os dois deixaram Baguio.

Nada disso demonstra que a meditação tenha alterado o desempenho de Korchnoi ou neutralizado algum poder exercido pela delegação soviética. O que se pode afirmar é que o enxadrista procurou esse tipo de apoio, que a presença de seus acompanhantes gerou um conflito documentado e que a organização precisou intervir para manter o campeonato em andamento.

O campeonato também teve uma reviravolta extraordinária no tabuleiro

A sucessão de incidentes acabou obscurecendo uma das maiores recuperações já vistas em uma disputa pelo título mundial. Depois de 17 partidas, Karpov liderava por quatro vitórias a uma. Korchnoi conseguiu reduzir a diferença, mas o campeão voltou a vencer e chegou ao placar de 5 a 2 após a 27ª partida.

Pelo regulamento, Karpov precisava de apenas mais uma vitória para conservar o título. Korchnoi, por sua vez, teria de vencer três partidas antes que o adversário conseguisse a sexta. A tarefa parecia enorme diante de um campeão que havia construído uma vantagem tão ampla ao longo de quase três meses.

O desafiante venceu a 28ª e a 29ª partidas, empatou a 30ª e voltou a ganhar na 31ª. De repente, o placar estava em 5 a 5. Depois de toda a controvérsia sobre alimentação, plateia, óculos e acompanhantes, o campeonato seria decidido por uma única vitória.

A 32ª partida começou em 17 de outubro. Korchnoi, conduzindo as peças pretas, escolheu uma abertura que levou a uma estrutura pouco habitual para aquele confronto, mas Karpov conseguiu construir uma posição superior. O jogo foi suspenso, como permitiam as regras da época, e o desafiante decidiu não retomá-lo no dia seguinte.

Em 18 de outubro de 1978, a desistência de Korchnoi confirmou a sexta vitória de Karpov. O campeão manteve o título por 6 a 5, com 21 empates. Pela pontuação convencional, em que cada empate vale meio ponto, o resultado foi de 16,5 a 15,5.

A FIDE reconheceu o conflito na plateia, mas manteve o resultado

As reclamações não desapareceram imediatamente com o encerramento do confronto. Em fevereiro de 1979, a direção da Federação Internacional de Xadrez examinou documentos, relatórios da arbitragem e manifestações das delegações sobre a condução do Mundial.

A entidade reconheceu que a posição ocupada por Zukhar nas primeiras fileiras durante a 32ª partida poderia ter sido percebida por Korchnoi como uma perturbação, especialmente diante de entendimentos anteriores sobre onde ele deveria permanecer. Ao mesmo tempo, observou que não houve protesto durante aquela partida e concluiu que os árbitros haviam aplicado as regras.

O resultado foi confirmado por unanimidade. A decisão não validou as acusações de hipnose nem estabeleceu que forças externas tivessem determinado a derrota de Korchnoi. Ela encerrou, no âmbito esportivo, uma disputa que havia colocado os organizadores diante de reclamações incomuns durante três meses.

A inteligência britânica entrou mesmo em alerta máximo?

Esse é o ponto em que a história precisa de uma correção decisiva. Não encontrei documentação que sustente o título sobre um suposto alerta máximo da inteligência britânica, nem que estabeleça uma operação chamada “Macho Man” ligada ao Mundial de Baguio. A Guerra Fria é parte indispensável da história, mas não autoriza atribuir ações específicas a serviços de inteligência sem documentos que as comprovem.

Existem relatos posteriores, associados ao Arquivo Mitrokhin, sobre esforços da KGB para acompanhar o confronto e impedir que um dissidente derrotasse o campeão soviético. Isso é diferente de afirmar que agentes britânicos entraram em alerta máximo ou que uma investigação internacional confirmou mensagens secretas em alimentos e técnicas de controle mental.

Também seria impreciso chamar o campeonato de uma disputa entre dois países. Karpov representava a União Soviética, mas Korchnoi não jogava oficialmente pela Grã-Bretanha. Ele era um dissidente soviético que competia sem bandeira nacional naquele momento.

A dimensão política do evento é verificável sem acrescentar uma operação de espionagem não documentada: o desafiante havia abandonado seu país, sua família permanecia submetida a restrições soviéticas, e o título mundial tornou-se um confronto de enorme valor simbólico.

O iogurte virou lenda, mas a decisão aconteceu sobre o tabuleiro

O Mundial de 1978 continuou repercutindo na cultura popular. Suas disputas políticas e seus bastidores ajudaram a inspirar elementos do musical Chess, criado por Tim Rice com músicas de Benny Andersson e Björn Ulvaeus, integrantes do ABBA. Décadas depois, o documentário Closing Gambit voltou aos acontecimentos de Baguio e às diferentes versões de seus protagonistas.

A lembrança mais difundida ainda é a do iogurte suspeito. Ela resume o clima de desconfiança, mas pode produzir uma impressão enganosa se for contada como prova de espionagem. O alimento foi entregue, houve protesto e a arbitragem precisou estabelecer regras; o suposto código nunca foi demonstrado.

O mesmo cuidado vale para Zukhar e para os acompanhantes de Korchnoi. Houve reclamações sobre a plateia, óculos espelhados, práticas de meditação e uma disputa real de segurança. Não há evidência de que poderes paranormais tenham decidido partidas.

O que permanece incontestável é o desfecho esportivo. Korchnoi recuperou uma desvantagem de 5 a 2 e empatou o confronto em 5 a 5, mas Karpov venceu a 32ª partida e conservou o título. Depois de três meses em que quase tudo parecia estar sob suspeita, a última palavra foi dada pelo resultado no tabuleiro.

Leia Mais: