Quase ninguém que canta o hino do Vasco no Maracanã ou em São Januário sabe de um detalhe que muda a forma de ouvir aquela melodia: a canção mais conhecida pela torcida não é o primeiro hino do clube, e nem o segundo. É o terceiro. Antes dela, o Vasco já tinha duas outras composições oficiais, uma escrita ainda em 1918 e outra criada através de um concurso interno, décadas antes da música que hoje todo torcedor reconhece de cor virar parte do repertório das arquibancadas.
A origem do hino do Vasco é, na verdade, a origem de três músicas diferentes, escritas em três momentos distintos da história do clube, cada uma carregando um pedaço da identidade vascaína. E tem um detalhe ainda mais curioso por trás disso: o compositor responsável pela versão que cantamos hoje não escreveu só pro Vasco. Ele também compôs hinos pros principais rivais do clube no Rio de Janeiro, numa época em que praticamente todo time carioca tinha uma marchinha de carnaval como cartão de visita.
Esse texto reconstrói essa trajetória inteira: quem escreveu cada um dos três hinos, em que contexto eles nasceram, e como uma canção quase se perdeu pra sempre antes de ser resgatada pela memória de uma torcedora apaixonada, décadas depois de ter sido composta.
A Origem do Hino do Vasco
Pra entender a origem do hino do Vasco é preciso voltar até 1918, ano em que o clube completava vinte anos de existência. Foi nesse contexto de celebração que o poeta e compositor Joaquim Barros Ferreira da Silva criou a primeira canção oficial dedicada ao time, batizada de “Hino Triunfal do Vasco da Gama”. A composição chegou até a diretoria do clube por intermédio do então vice-presidente Raul Ferreira, que se encarregou de levar a obra adiante e oficializá-la como hino.
O primeiro hino quase foi esquecido pra sempre
Apesar de oficial, esse primeiro hino não teve uma vida fácil dentro da memória coletiva da torcida. Existe registro de uma gravação comercial feita em setembro de 1930, lançada pela gravadora Brunswick, com interpretação do cantor H. da Costa acompanhado pelo coro Orfeão Portugal. Fora esse disco, porém, a canção praticamente desapareceu das rodas vascaínas conforme as décadas passaram, perdendo espaço pra outras composições que surgiriam depois.
O detalhe mais bonito dessa história aconteceu só em 1998. Uma torcedora chamada Dona Rosinha — Rosa Fernandes Portella Brandão, ligada por gerações à história do clube, já que seu pai foi diretor e tesoureiro do Vasco e sua mãe foi a primeira mulher admitida como sócia da instituição — reconstituiu de memória, ao piano, a melodia daquele hino de 1918, que ela aprendera a tocar ainda jovem. A gravação dessa apresentação foi feita por uma neta dela, garantindo que a canção não desaparecesse de vez junto com a memória de quem a conheceu em primeira mão.
O segundo hino nasceu de um concurso interno
A segunda composição oficial surgiu só em 1942, batizada de “Meu Pavilhão” e também chamada de Hino de Honra pelo clube. A música ficou a cargo do compositor Ernani Corrêa, com letra escrita por João de Freitas, e os dois venceram um concurso promovido pela Legião da Vitória, que era a torcida organizada e uniformizada oficial do Vasco naquele período. Diferente do primeiro hino, essa composição reforçava temas como a força e a tradição do clube nas competições de remo, modalidade que deu origem ao próprio Club de Regatas Vasco da Gama antes de o futebol se tornar o esporte mais popular da instituição.
Lamartine Babo e a marchinha que virou hino oficial
A canção que realmente conquistou o coração da torcida surgiu só em 1949, criada pelo compositor Lamartine Babo, um dos nomes mais importantes da música popular brasileira e das marchinhas de carnaval daquele período. A composição nasceu dentro do “Trem da Alegria”, um programa de auditório famoso na época, do qual Lamartine fazia parte como atração fixa, brincando e compondo em cima da hora pra entreter o público.
O detalhe que poucos vascaínos conhecem é que Lamartine não fez só o hino do Vasco. Ele compôs canções parecidas pra praticamente todos os grandes clubes do Rio de Janeiro, incluindo Flamengo, Fluminense e Botafogo, numa época em que ter uma marchinha de carnaval própria era quase tão importante pra um clube quanto ter um escudo bem definido. A diferença é que, no caso do Vasco, a composição de Lamartine colou de um jeito tão forte que se tornou o hino oficial do clube até hoje, superando as duas tentativas anteriores em popularidade e permanência.

O Que os Versos do Hino do Vasco Representam
Sem reproduzir a letra, vale entender o que cada trecho da composição de Lamartine busca transmitir, porque isso ajuda a explicar por que essa versão específica colou tanto entre os torcedores.
A primeira parte da canção faz referência direta à Cruz de Malta, o símbolo mais tradicional do escudo vascaíno, e lembra a ligação do clube com Vasco da Gama, o navegador português que deu nome à instituição desde sua fundação como clube de remo, em 1898. Essa conexão com as raízes portuguesas não é um detalhe qualquer: o Vasco nasceu dentro da colônia portuguesa do Rio de Janeiro, e boa parte da sua identidade histórica está amarrada a essa origem lusitana.
Na sequência, a letra expande o alcance do clube pra além do Rio de Janeiro, mencionando a força da torcida espalhada de norte a sul do país — um trecho que, segundo registros históricos da composição original, usava inclusive o plural “brasis” no lugar de “Brasil”, recurso estilístico de Lamartine pra reforçar a ideia de um território imenso, dividido em tantas realidades diferentes. Esse verso original caiu em desuso com o tempo e foi substituído, em gravações posteriores, pela forma mais simples e direta que conhecemos hoje.
A parte final da canção reforça o caráter multiesportivo do clube, citando conquistas no atletismo e no remo, além do futebol, e fecha com a ideia do Vasco como elo de união entre Brasil e Portugal — uma síntese e tanto da história de um clube que nasceu ligado a uma comunidade de imigrantes e se transformou numa das maiores potências esportivas do país.
O Que Pouca Gente Sabe Sobre o Hino do Vasco
Tem detalhes dessa trajetória que ficam de fora do resumo mais conhecido pela torcida, mas que merecem espaço.
O primeiro já apareceu antes, mas vale reforçar: o Vasco teve três hinos oficiais ao longo da sua história, um detalhe raro entre clubes brasileiros, que normalmente ficam só com uma composição reconhecida pela torcida. Some a isso o grito de guerra “Casaca”, criado pelos próprios sócios e torcedores do clube, e fica claro por que o Vasco costuma ser citado como um dos times com mais músicas e hinos dedicados dentro do futebol brasileiro.
Outro fato pouco lembrado é que o hino de 1918 só sobreviveu até os dias de hoje por puro acaso histórico. Se Dona Rosinha não tivesse guardado aquela melodia na memória e topado recriá-la ao piano em 1998, é bem provável que a primeira composição oficial do clube tivesse desaparecido de vez, restando apenas o registro escrito da letra publicado em livros e revistas especializadas, sem ninguém soubesse exatamente como a música tocava.
Tem ainda a curiosidade sobre o “duplo emprego” de Lamartine Babo nas marchinhas de clubes cariocas. Em pleno período de ouro do rádio brasileiro, era comum que compositores populares fossem contratados, ou simplesmente se voluntariassem, pra criar hinos de torcida pros clubes da cidade, e Lamartine se tornou uma espécie de “compositor oficial não declarado” do futebol carioca, emplacando composições pra praticamente todos os gigantes da cidade dentro de um curto espaço de tempo.
Por fim, vale lembrar que o segundo hino, “Meu Pavilhão”, nunca deixou de existir oficialmente — ele continua reconhecido pelo clube como Hino de Honra, mesmo sem o mesmo destaque popular da composição de Lamartine. Isso mostra como o Vasco preferiu acumular essas tradições musicais ao invés de simplesmente substituir uma pela outra, mantendo registrada cada fase da própria história sonora.
Perguntas Frequentes
Qual é a origem do hino do Vasco?
O hino atual do Vasco foi composto por Lamartine Babo em 1949, criado dentro do programa de rádio “Trem da Alegria”. Antes dele, o clube já tinha dois outros hinos oficiais: um escrito em 1918 por Joaquim Barros Ferreira da Silva, e outro criado em 1942 por Ernani Corrêa e João de Freitas, vencedor de um concurso interno promovido pela torcida organizada da época.
Quem compôs o hino do Vasco que conhecemos hoje?
O compositor é Lamartine Babo, um dos maiores nomes da música popular brasileira e das marchinhas de carnaval do século vinte. Além do Vasco, ele também compôs canções parecidas pra outros grandes clubes do Rio de Janeiro, como Flamengo, Fluminense e Botafogo, numa época em que ter uma marchinha própria era comum entre os times cariocas.
Quantos hinos o Vasco já teve na sua história?
O Vasco teve três hinos oficiais. O primeiro, de 1918, chamado “Hino Triunfal do Vasco da Gama”. O segundo, de 1942, batizado de “Meu Pavilhão” e reconhecido até hoje como Hino de Honra. E o terceiro, criado por Lamartine Babo em 1949, que se tornou a composição mais popular e mais cantada pela torcida.
Por que o hino do Vasco fala em Cruz de Malta?
A Cruz de Malta é o símbolo mais tradicional do escudo do Vasco, ligado às raízes portuguesas do clube e à homenagem ao navegador Vasco da Gama, que deu nome à instituição em 1898. O hino atual faz referência direta a esse símbolo logo nos primeiros versos, reforçando a identidade visual e histórica do time.
O primeiro hino do Vasco ainda existe?
Sim. A letra do hino de 1918 foi preservada em registros escritos publicados em livros e revistas sobre a história do clube, e a melodia foi resgatada em 1998, graças à memória de uma torcedora que aprendeu a tocá-la ao piano ainda jovem. Sem esse resgate, a música provavelmente teria se perdido de vez.
Lamartine Babo fez hinos para outros clubes além do Vasco?
Sim, ele compôs canções parecidas pra praticamente todos os grandes clubes do Rio de Janeiro, incluindo os principais rivais do Vasco. Esse tipo de composição era comum no rádio brasileiro das décadas de 1940 e 1950, período em que marchinhas de carnaval dedicadas a times de futebol faziam parte do repertório popular das rádios cariocas.
O hino “Meu Pavilhão” ainda é usado pelo Vasco?
Sim, embora com muito menos destaque do que o hino composto por Lamartine Babo. O clube reconhece oficialmente “Meu Pavilhão” como Hino de Honra, mantendo essa composição registrada na sua história, mesmo sem o mesmo nível de popularidade entre a torcida nos dias de jogo.

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