Quem foram os maiores jogadores da história do vôlei de todos os tempos? Se a resposta precisar ser apenas um nome, Karch Kiraly tem provavelmente o argumento mais difícil de superar.
O americano foi escolhido pela Federação Internacional de Voleibol (FIVB) como o melhor jogador masculino do século XX. Foi campeão olímpico de quadra em Los Angeles-1984 e Seul-1988, campeão mundial em 1986 e, depois de deixar o indoor, conseguiu algo que nenhum outro atleta repetiu: ganhou também o ouro olímpico no vôlei de praia, em Atlanta-1996.

Mas qualquer lista histórica muda quando entram outros critérios.
Giba foi o rosto da geração brasileira que praticamente dominou o vôlei masculino mundial durante os anos 2000. Sergey Tetyukhin conseguiu quatro medalhas olímpicas e participou de seis Olimpíadas. Lorenzo Bernardi foi um dos símbolos da lendária seleção italiana dos anos 1990.
Entre as mulheres, a discussão é ainda mais impressionante. Regla Torres foi escolhida pela FIVB como a melhor jogadora do século XX, enquanto Mireya Luis liderou uma Cuba que conquistou três ouros olímpicos consecutivos. Lang Ping foi campeã olímpica e MVP e depois ainda se tornou campeã olímpica como treinadora.
Não existe, portanto, um ranking oficial definitivo que coloque todos os grandes jogadores da história em ordem. Mas títulos, prêmios individuais, impacto técnico, longevidade e domínio sobre suas respectivas épocas permitem formar um grupo bastante restrito.
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Karch Kiraly conseguiu algo que ninguém mais fez
Charles “Karch” Kiraly ocupa uma posição única porque construiu duas carreiras extraordinárias em modalidades diferentes.
Na quadra, foi peça central da geração dos Estados Unidos que conquistou:
ouro olímpico em 1984;
ouro olímpico em 1988;
Mundial de 1986;
Copa do Mundo de 1985.
Em Seul-1988, Kiraly ainda foi escolhido como MVP dos Jogos Olímpicos. A FIVB também o elegeu melhor jogador do mundo em 1986 e 1988.
Poderia ter parado aí e já estaria entre os maiores.
Mas mudou de modalidade.
Kiraly tornou-se profissional do vôlei de praia e, quando o esporte estreou oficialmente nos Jogos Olímpicos em Atlanta-1996, conquistou o ouro ao lado de Kent Steffes.
Até hoje, é o único jogador campeão olímpico tanto no vôlei de quadra quanto no vôlei de praia.
Sua carreira na areia foi igualmente gigantesca: a FIVB registra 144 títulos nos circuitos profissionais domésticos dos Estados Unidos.
Em 2001, veio a chancela histórica: Kiraly foi reconhecido pela FIVB como o melhor jogador masculino de vôlei do século XX.
Poucos atletas, em qualquer esporte, conseguiram dominar duas versões diferentes da mesma modalidade dessa maneira.
Giba virou o rosto da seleção brasileira que dominou o mundo
Se Kiraly possui o currículo mais singular, Giba tem um argumento diferente: foi protagonista de uma das maiores dinastias do vôlei masculino.
Gilberto Amauri Godoy Filho não tinha o tamanho que normalmente se associa aos atacantes dominantes. Com aproximadamente 1,92 m, enfrentava jogadores consideravelmente maiores.
Compensava com impulsão, velocidade, técnica e uma capacidade incomum de aparecer nos momentos decisivos.
A FIVB o descreve como possivelmente o jogador mais bem-sucedido do mundo durante os anos 2000.
A geração comandada por Bernardinho conquistou praticamente tudo.
Com Giba, o Brasil ganhou o Mundial de 2002, o ouro olímpico em Atenas-2004 e voltou a ser campeão mundial em 2006 e 2010.
Foram três Mundiais consecutivos.
Giba também acumulou oito títulos da Liga Mundial e participou de três finais olímpicas consecutivas: ouro em 2004 e prata em Pequim-2008 e Londres-2012.
Seu impacto, porém, não aparece apenas na quantidade de medalhas.
Era capitão, líder emocional e frequentemente o jogador que recebia a bola nos pontos mais importantes.
Por isso, qualquer discussão sobre o maior jogador brasileiro da história inevitavelmente passa por seu nome.
Serginho conseguiu ser MVP olímpico jogando como líbero
O Brasil tem outro candidato que quebra completamente o padrão da discussão.
Sérgio Santos, o Serginho, não era atacante, levantador ou jogador responsável por marcar dezenas de pontos.
Era líbero.
Mesmo assim, terminou os Jogos do Rio-2016 escolhido como MVP do torneio olímpico, aos 40 anos.
Sua coleção olímpica é extraordinária:
ouro em Atenas-2004;
prata em Pequim-2008;
prata em Londres-2012;
ouro no Rio-2016.
Serginho disputou quatro finais olímpicas consecutivas, algo que nenhum outro jogador masculino havia conseguido.
Em 2009, já havia realizado outro feito incomum: tornou-se o primeiro líbero eleito MVP da Liga Mundial.
Sua presença entre os maiores é importante por outro motivo.
O vôlei possui funções extremamente diferentes. Comparar um líbero com um atacante é quase como comparar posições distintas em esportes diferentes.
Serginho mostrou que um jogador podia dominar uma partida sem necessariamente aparecer entre os maiores pontuadores.
Sergey Tetyukhin ganhou medalha em quatro Olimpíadas
Pouquíssimos jogadores combinaram excelência e longevidade como o russo Sergey Tetyukhin.
Foram seis participações olímpicas, feito inédito entre jogadores homens quando encerrou sua trajetória pela seleção.
E quatro delas terminaram com medalha:
prata em Sydney-2000;
bronze em Atenas-2004;
bronze em Pequim-2008;
ouro em Londres-2012.
Tetyukhin tornou-se o primeiro jogador de vôlei a conquistar quatro medalhas olímpicas incluindo pelo menos uma de cada cor.
Sua carreira profissional durou 27 anos.
Pela Rússia, acumulou 320 partidas oficiais e atravessou diferentes gerações até alcançar seu maior momento aos 36 anos, na histórica final olímpica de Londres.
O Brasil abriu 2 sets a 0 e esteve próximo do ouro.
A Rússia virou para 3 a 2.
Tetyukhin finalmente se tornou campeão olímpico.
Lorenzo Bernardi simbolizou a seleção que foi considerada a melhor do século
A Itália dominou o vôlei masculino durante boa parte da década de 1990 de maneira tão intensa que sua geração recebeu um reconhecimento extraordinário.
A FIVB escolheu a seleção italiana de 1990 a 1998 como a melhor equipe masculina do século XX.
E Lorenzo Bernardi foi um dos grandes símbolos daquele time.
Ponteiro extremamente completo, conquistou os Mundiais de 1990 e 1994, além de dois Campeonatos Europeus.
Foi escolhido MVP do Mundial de 1994.
A grande lacuna de sua carreira foi justamente a Olimpíada.
A Itália chegou à final de Atlanta-1996 como uma das grandes favoritas, mas perdeu para a Holanda em uma decisão de cinco sets.
Bernardi terminou com a prata.
Ainda assim, sua combinação de recepção, ataque, técnica e inteligência tornou-o uma referência para gerações de ponteiros.
Regla Torres tinha 17 anos quando conquistou seu primeiro ouro olímpico
Se Kiraly ocupa posição privilegiada na discussão masculina, a cubana Regla Torres possui o reconhecimento equivalente entre as mulheres.
A FIVB a escolheu como melhor jogadora feminina do século XX.
E sua história olímpica começou de forma quase inacreditável.
Torres tinha apenas 17 anos quando Cuba conquistou o ouro em Barcelona-1992.
Não parou.
Cuba repetiu o título em Atlanta-1996.
E novamente em Sydney-2000.
Foram três ouros olímpicos consecutivos, além dos títulos mundiais de 1994 e 1998 durante o período de domínio das chamadas Morenas del Caribe.
Torres reunia altura, velocidade e uma capacidade de bloqueio que a tornou particularmente difícil de enfrentar.
Quando a FIVB precisou escolher uma representante feminina para resumir seu primeiro século, escolheu justamente ela.
Mireya Luis saltava mais de três metros apesar de ter 1,75 m
Regla Torres não era a única candidata ao posto de maior jogadora daquela geração cubana.
Para muitos, Mireya Luis era ainda mais extraordinária.
A ponteira tinha aproximadamente 1,75 m, baixa para os padrões de uma atacante de elite internacional.
Isso não a impediu de atacar acima dos três metros.
A própria FIVB destaca sua extraordinária impulsão e sua capacidade ofensiva.
O currículo acompanha o talento:
3 ouros olímpicos — 1992, 1996 e 2000;
2 Mundiais — 1994 e 1998;
3 Copas do Mundo — 1989, 1991 e 1995.
Também foi MVP da Copa do Mundo em 1989 e 1995 e do Grand Prix de 1993.
Mais do que participar daquela seleção histórica, Mireya foi capitã e uma de suas principais referências ofensivas.
É por isso que existe uma distinção interessante quando se discute a melhor jogadora cubana.
Regla Torres possui o reconhecimento oficial da FIVB como jogadora do século. Mireya Luis possui um dos currículos mais dominantes já construídos no esporte.
Lang Ping ganhou ouro como jogadora e repetiu o feito como treinadora
A chinesa Lang Ping também ocupa uma categoria especial.
Conhecida como “Martelo de Ferro”, foi a principal atacante da geração que transformou a China em potência mundial nos anos 1980.
A sequência começou com o título da Copa do Mundo de 1981.
Depois vieram:
Mundial de 1982;
ouro olímpico em Los Angeles-1984;
nova Copa do Mundo em 1985.
Lang foi MVP do Mundial de 1982, dos Jogos Olímpicos de 1984 e da Copa do Mundo de 1985.
Décadas depois, construiu uma segunda carreira histórica.
Como treinadora, levou a China ao ouro olímpico no Rio-2016.
Assim, tornou-se uma das raríssimas figuras do esporte a conquistar o título olímpico como atleta e como técnica.
Sua influência vai além dos troféus: Lang Ping tornou-se um dos principais símbolos esportivos da China.
Kerri Walsh Jennings e Misty May-Treanor dominaram a areia como nenhuma outra dupla
Se o vôlei de praia entrar na discussão, duas americanas precisam aparecer.
Misty May-Treanor e Kerri Walsh Jennings conquistaram juntas três ouros olímpicos consecutivos:
Atenas-2004;
Pequim-2008;
Londres-2012.
Também venceram três Campeonatos Mundiais consecutivos, em 2003, 2005 e 2007.
Misty encerrou a carreira depois do terceiro ouro.
Kerri continuou e conquistou bronze no Rio-2016, chegando à quarta medalha olímpica.
A dupla conseguiu algo especialmente raro no esporte: durante anos, entrar em um torneio sem vencê-lo era tratado quase como surpresa.
No vôlei de praia feminino, qualquer lista histórica começa inevitavelmente pelas duas.
Emanuel construiu uma das maiores carreiras do vôlei de praia masculino
O Brasil também possui um nome incontornável na areia.
Emanuel Rego disputou cinco Olimpíadas e conquistou três medalhas com três resultados diferentes:
ouro em Atenas-2004;
bronze em Pequim-2008;
prata em Londres-2012.
Também conquistou três títulos mundiais em diferentes parcerias.
Essa capacidade de permanecer no topo durante tantas temporadas é parte importante de seu legado.
No vôlei de praia, trocar de parceiro pode significar reconstruir completamente dinâmica, estratégia e responsabilidades em quadra.
Emanuel conseguiu vencer em diferentes configurações e épocas.
Quem é, então, o maior jogador da história?
Qualquer ranking absoluto terá uma parcela de subjetividade, principalmente porque o esporte mudou radicalmente.
As regras mudaram.
O sistema de pontuação mudou.
A função do líbero nem sequer existia durante boa parte da história.
O nível de profissionalização dos clubes aumentou e o vôlei de praia tornou-se modalidade olímpica apenas em 1996.
Ainda assim, é possível construir uma lista de referência considerando impacto, títulos, desempenho individual, longevidade e domínio da época:
| Jogador(a) | País | Principal argumento histórico |
|---|---|---|
| Karch Kiraly | EUA | Jogador do século; ouro olímpico na quadra e praia |
| Regla Torres | Cuba | Jogadora do século; três ouros olímpicos |
| Mireya Luis | Cuba | Três Olimpíadas, dois Mundiais e domínio ofensivo |
| Giba | Brasil | Líder da geração brasileira dominante dos anos 2000 |
| Lang Ping | China | MVP e campeã olímpica; enorme impacto histórico |
| Lorenzo Bernardi | Itália | Símbolo da histórica geração italiana |
| Sergey Tetyukhin | Rússia | Quatro medalhas e seis participações olímpicas |
| Serginho | Brasil | Dois ouros, quatro finais olímpicas e MVP como líbero |
| Misty May-Treanor | EUA | Três ouros olímpicos consecutivos na praia |
| Kerri Walsh Jennings | EUA | Três ouros e quatro medalhas olímpicas na praia |
| Emanuel Rego | Brasil | Três medalhas olímpicas e três Mundiais na praia |
A ordem pode mudar dependendo do peso atribuído ao vôlei de praia ou de quadra e às diferentes posições.
O primeiro nome, porém, é particularmente difícil de deslocar.
Kiraly encerrou a carreira com três ouros — e depois ganhou outro como técnico
Existe um último detalhe que amplia a dimensão de Karch Kiraly.
Depois de conquistar dois ouros olímpicos na quadra e um na praia como jogador, ele assumiu a seleção feminina dos Estados Unidos.
Em Tóquio, comandou as americanas ao primeiro ouro olímpico da história da seleção feminina do país.
Tornou-se, assim, a única pessoa a reunir ouro olímpico como jogador de vôlei de quadra, jogador de vôlei de praia e treinador de vôlei.
Não entra diretamente na comparação sobre quem foi melhor dentro da quadra.
Mas ajuda a explicar por que, quando a discussão é ampliada para perguntar quem construiu a trajetória mais extraordinária da história do esporte, Karch Kiraly continua sendo o ponto de partida.
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