A Sociedade Esportiva Palmeiras completa 112 anos nesta quarta-feira, 26 de agosto de 2026, em uma situação que ajuda a dimensionar a transformação ocorrida desde a reunião de 46 pessoas que deu origem ao Palestra Italia, em 1914.
O clube que nasceu para representar a numerosa comunidade italiana de São Paulo chega ao aniversário como recordista de títulos do Campeonato Brasileiro, com 12 conquistas, tricampeão da Libertadores e novamente envolvido simultaneamente nas principais competições da temporada.
Há ainda uma coincidência especial no calendário de 2026: o Palmeiras passa o aniversário em campo.
Às 21h30 desta quarta-feira, enfrenta o Santos no atual Nubank Parque, no jogo de ida das quartas de final da Copa do Brasil. Antes da partida, o time também está nas quartas da Libertadores e lidera o Campeonato Brasileiro, no qual chegou a 51 pontos em 24 rodadas, sua melhor campanha nesse estágio desde a adoção do atual formato de pontos corridos.
Aos 112 anos, portanto, a história palmeirense reúne dois extremos: começou em uma sala com dezenas de fundadores e chega a 2026 disputando, mais uma vez, três das maiores taças disponíveis no calendário.
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O Palmeiras nasceu como Palestra Italia e a primeira reunião nem terminou em fundação
A história começou antes de 26 de agosto.
Em 1914, as excursões ao Brasil dos clubes italianos Torino e Pro Vercelli estimularam integrantes da comunidade italiana de São Paulo a criar uma associação esportiva que os representasse.
O jornalista Vincenzo Ragognetti publicou no jornal Fanfulla, voltado à colônia italiana, um convite para interessados na criação da nova agremiação. Luigi Cervo foi outro personagem decisivo na mobilização e defendia que o futebol fosse o principal esporte da entidade.
Uma primeira reunião ocorreu em 19 de agosto de 1914, mas os participantes não chegaram a um acordo sobre as diretrizes do clube.
A decisão ficou para a semana seguinte.
Em 26 de agosto, 46 pessoas se reuniram no extinto Salão Alhambra, na antiga Rua Marechal Deodoro, nº 2, região da atual Praça da Sé, no centro de São Paulo.
Ali nasceu oficialmente o Palestra Italia.
E há um detalhe que desmonta uma simplificação comum sobre a origem da instituição: embora concebido para representar a comunidade italiana, o grupo presente à fundação não era formado exclusivamente por italianos. Segundo o próprio Palmeiras, havia também brasileiros, dois portugueses e um espanhol entre os 46 participantes.
Ezequiel Simoni foi escolhido como primeiro presidente.
O primeiro troféu veio antes mesmo da estreia no Campeonato Paulista
O novo clube não precisou esperar muito para vencer.
Sua primeira partida ocorreu em 24 de janeiro de 1915, contra o Savoia, no atual município de Votorantim, na região de Sorocaba. O Palestra Italia venceu por 2 a 0 e conquistou a Taça Savoia, primeiro troféu de sua história.
A entrada no Campeonato Paulista aconteceu em 1916.
O primeiro título estadual veio quatro anos depois, em 1920, temporada em que o Palestra também adquiriu o Parque Antarctica, endereço que se tornaria inseparável da história do clube.
O que começou como uma associação ligada à comunidade italiana já se transformava, em poucos anos, em uma potência do futebol paulista.
Mas a mudança mais dramática ainda estava por acontecer.
Por que o Palestra Italia virou Palmeiras em 1942
A origem do nome atual está diretamente ligada à Segunda Guerra Mundial.
Em 1942, com o Brasil alinhado aos Aliados e em conflito com as potências do Eixo, entidades brasileiras passaram a sofrer restrições ao uso de referências a Alemanha, Itália e Japão.
O Palestra Italia mudou inicialmente sua denominação para Palestra de São Paulo, em março daquele ano.
Não bastou.
Em setembro, diante da pressão para uma nova alteração, o clube adotou definitivamente o nome Sociedade Esportiva Palmeiras. A escolha permitia, entre outras coisas, preservar o “P” e o verde associados à identidade da instituição.
A mudança ocorreu em 14 de setembro de 1942.
Seis dias depois, a nova identidade enfrentaria um teste que acabaria transformado em um dos episódios centrais da memória palmeirense.
O Palestra morreu líder e o Palmeiras nasceu campeão
Em 20 de setembro de 1942, o Palmeiras disputou sua primeira partida com o novo nome.
E não foi um jogo qualquer.
O adversário era o São Paulo, no Pacaembu, em confronto decisivo pelo Campeonato Paulista. Em meio à tensão política e às acusações dirigidas ao clube por suas raízes italianas, os jogadores entraram em campo carregando a bandeira brasileira.
O Palmeiras venceu por 3 a 1 e garantiu o título estadual. O São Paulo deixou o campo antes do término da partida.
Nascia a narrativa que atravessaria gerações: “O Palestra morre líder e o Palmeiras nasce campeão.”
O episódio ficou conhecido como Arrancada Heroica.
A importância foi tamanha que, décadas depois, 20 de setembro passou a integrar oficialmente o calendário do município de São Paulo como o Dia do Palmeiras.
De 1914 a 2026, os números mostram o tamanho da transformação
A dimensão esportiva que o clube alcançou fica mais evidente quando os números atuais são colocados ao lado daquele começo de 1914.
O Palmeiras tornou-se 12 vezes campeão brasileiro, marca recorde da competição nacional, além de conquistar quatro Copas do Brasil e três Libertadores. Até 2025, contabilizava também uma Supercopa do Brasil, uma Recopa Sul-Americana e cinco Torneios Rio-São Paulo, entre outros troféus.
Em 2026, acrescentou mais uma conquista à coleção.
Em março, derrotou o Novorizontino na decisão e chegou ao 27º título do Campeonato Paulista.
O troféu também confirmou uma característica do Palmeiras desta década: a frequência com que chega às decisões.
Desde 2020, o clube conquistou 12 títulos, considerando as competições contabilizadas pelo próprio Palmeiras: cinco Paulistas, duas Libertadores, dois Brasileiros, uma Copa do Brasil, uma Supercopa do Brasil e uma Recopa Sul-Americana.
É uma concentração de conquistas incomum até para os padrões históricos do clube.
Abel Ferreira e Gustavo Gómez chegaram aos 112 anos como recordistas
Dois personagens da equipe atual simbolizam essa fase.
Com o Paulista de 2026, Abel Ferreira chegou a 11 títulos pelo Palmeiras e superou Oswaldo Brandão, que tinha dez, tornando-se isoladamente o treinador mais vencedor da história alviverde segundo os registros do clube.
Gustavo Gómez alcançou outro recorde.
O capitão passou a ser o jogador com mais títulos na história do Palmeiras, com 13 conquistas, de acordo com a contagem oficial palmeirense.
A ligação do paraguaio com o clube ganhou outro capítulo justamente às vésperas do aniversário: o Palmeiras anunciou em 24 de agosto a renovação de seu contrato até dezembro de 2030.
São marcas que ajudam a colocar o período atual em perspectiva. Não se trata apenas de uma equipe vencedora em uma temporada, mas de um ciclo que já alterou rankings históricos internos construídos ao longo de mais de um século.
O escudo atual guarda uma referência escondida à data de fundação
Os 112 anos também estão ligados a um detalhe que muitos torcedores veem constantemente sem perceber.
Segundo o manual de identidade visual publicado pelo clube, elementos do escudo fazem referência à fundação: as 26 linhas horizontais remetem ao dia 26, enquanto as oito estrelas representam o mês de agosto.
É uma forma de carregar 26 de agosto de 1914 no próprio símbolo.
O brasão também preserva o “P”, letra que atravessou Palestra Italia, Palestra de São Paulo e Palmeiras e permaneceu como uma das conexões visuais entre as diferentes fases da instituição.
A festa dos 112 anos começou antes do dia 26
As comemorações de 2026 não ficaram restritas à data oficial.
Em 14 de agosto, associados participaram de uma celebração na sede social que também marcou a reinauguração do saguão do clube, reformado.
Dias depois, Palmeiras e Puma apresentaram o terceiro uniforme da temporada. A camisa azul foi concebida para recuperar as raízes italianas da instituição.
A escolha conecta diretamente o Palmeiras de 2026 ao Palestra Italia de 1914: mais de oito décadas depois da mudança de nome provocada pela guerra, a origem italiana deixou de representar uma identidade pressionada pelas circunstâncias políticas daquele período e tornou-se parte assumida da memória institucional.
No aniversário, o presente encontra o passado contra o Santos
O calendário reservou outro componente simbólico para os 112 anos.
Palmeiras e Santos se enfrentam nesta quarta-feira pela Copa do Brasil, competição em que os dois clubes já protagonizaram confrontos marcantes.
Em 1998, o Palmeiras eliminou o rival na semifinal e depois conquistou o torneio. Em 2015, os dois decidiram o título: após perder por 1 a 0 na Vila Belmiro, o Verdão venceu por 2 a 1 em casa e ficou com a taça nos pênaltis.
Há também um retrospecto curioso especificamente em aniversários.
Segundo levantamento divulgado pelo Lance!, o Palmeiras já disputou 14 partidas em 26 de agosto, com oito vitórias, quatro empates e apenas duas derrotas. Foram 25 gols marcados e 16 sofridos.
O 15º jogo nessa data chega justamente aos 112 anos.
E ocorre em um momento esportivo relevante: além das quartas da Copa do Brasil e da Libertadores, o Palmeiras lidera o Brasileiro de 2026 e alcançou 51 pontos nas primeiras 24 rodadas, superando sua própria marca de 2022 para esse estágio da era dos pontos corridos.
É aí que a trajetória iniciada por 46 pessoas em uma reunião no centro de São Paulo encontra o Palmeiras de 2026.
O clube mudou de nome, atravessou guerra, transformou seu estádio, acumulou títulos nacionais e continentais e viu diferentes gerações reconstruírem sua força esportiva.
A história dos 112 anos, porém, chega a 26 de agosto sem um ponto final: nesta noite, contra o Santos, começa mais uma disputa por uma vaga em semifinal.
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