James Van Alen desenvolveu o sistema que acabou com sets intermináveis no tênis; futebol adotou disputa por pênaltis em 1970, vôlei transformou o quinto set em tie-break em 1988 e outros esportes encontraram soluções próprias para impedir jogos sem fim
Antes do tie-break, uma partida de tênis podia simplesmente continuar.
6 a 6.
7 a 7.
10 a 10.
20 a 20.
Não havia necessariamente um ponto predeterminado em que o set terminaria. Para vencer, era preciso abrir dois games de vantagem.
Foi esse problema que incomodou o americano James Van Alen, milionário, tenista amador e fundador do International Tennis Hall of Fame.
Na década de 1960, Van Alen começou a experimentar sistemas capazes de acelerar o esporte. Uma de suas ideias acabaria se transformando no tie-break, hoje parte inseparável do tênis profissional.
Mas a busca por uma maneira justa de resolver empates não aconteceu apenas ali.
O futebol já decidiu confrontos por sorteio e cara ou coroa antes de institucionalizar as disputas por pênaltis. A NFL criou uma prorrogação de morte súbita e depois precisou reformá-la. O vôlei adotou um quinto set diferente dos demais e acabou levando a lógica do ponto por rally para a partida inteira.
Cada esporte resolveu o mesmo problema de uma maneira diferente:
quando ninguém consegue vencer pelas regras normais, o que fazer para que o jogo termine?
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Quem inventou o tie-break do tênis?
O nome mais associado à invenção é James Van Alen.
Americano nascido em 1902, Van Alen estava profundamente envolvido com o tênis e fundou em Newport, Rhode Island, o International Tennis Hall of Fame.
Ele acreditava que partidas excessivamente longas prejudicavam o espetáculo.
Seu laboratório foi o torneio de Newport.
Durante os anos 1960, Van Alen desenvolveu experiências com um sistema chamado VASSS — Van Alen Streamlined Scoring System.
A ideia era simples na essência:
em vez de deixar um set empatado continuar indefinidamente até alguém abrir dois games, haveria uma disputa curta de pontos para decidir o vencedor.
Era o embrião do tie-break moderno.
O primeiro tie-break não era igual ao atual
A invenção passou por diferentes formatos.
Uma das versões desenvolvidas por Van Alen era conhecida como “sudden-death tiebreaker”.
O desempate tinha nove pontos.
O primeiro jogador a chegar a cinco venceria.
Se o placar chegasse a 4 a 4, o ponto seguinte decidiria tudo.
Literalmente:
um ponto para ganhar o set.
A ideia resolveu o problema da duração.
Criou outro.
O resultado podia depender de um único ponto sem necessidade de vantagem de dois.
O formato foi posteriormente modificado até chegar ao sistema mais familiar atualmente.
Como funciona o tie-break tradicional do tênis?
Pelas regras da ITF, o tie-break convencional é disputado quando o set chega a 6 games a 6, nas competições que utilizam esse sistema.
A pontuação deixa temporariamente de ser 15, 30 e 40.
Passa a ser contada normalmente:
1, 2, 3, 4…
Vence quem chegar primeiro a 7 pontos, desde que possua pelo menos dois de vantagem. (itftennis.com)
Portanto:
7 a 4 encerra.
7 a 5 encerra.
7 a 6 não.
Nesse último caso, continua:
8 a 6 encerra.
8 a 7 não.
15 a 13 encerra.
Não existe teto enquanto ninguém abrir dois pontos.
Por que o saque muda no tie-break?
Existe uma mecânica específica.
O jogador que começa o tie-break saca apenas o primeiro ponto.
Depois, o adversário saca dois.
A partir daí, os jogadores alternam blocos de dois serviços.
A sequência fica:
1 saque → 2 saques → 2 saques → 2 saques…
A ITF determina ainda que o jogador que sacou primeiro no tie-break será o recebedor no primeiro game do set seguinte. (itftennis.com)
Os atletas também trocam de lado durante o desempate para reduzir vantagens provocadas por vento, sol e características da quadra.
Grand Slams chegaram a usar quatro regras diferentes
Durante anos, nem os quatro principais torneios do tênis concordavam sobre como terminar um set decisivo.
Australian Open, Roland Garros, Wimbledon e US Open possuíam formatos diferentes.
Isso significava que um jogador precisava conhecer uma regra específica dependendo do Grand Slam que estivesse disputando.
A situação finalmente foi padronizada.
Atualmente, quando um jogo chega a 6 a 6 no set decisivo, os Grand Slams utilizam um match tie-break até 10 pontos, novamente com diferença mínima de dois.
Ou seja:
10 a 8 termina.
10 a 9 não.
11 a 9 termina.
A lógica inventada para evitar sets intermináveis acabou ganhando uma versão ainda mais longa justamente no set que decide a partida.
O futebol tinha uma solução muito mais cruel: sorte
O futebol enfrentava um problema semelhante.
Em uma competição eliminatória, alguém precisava avançar.
Mas o jogo podia terminar empatado mesmo depois da prorrogação.
Durante décadas, diferentes competições utilizaram soluções variadas.
Uma delas parece inacreditável hoje:
sorteio.
Em determinadas situações, a classificação podia ser definida pela retirada de um papel ou lançamento de moeda.
Um dos casos mais famosos aconteceu na Eurocopa de 1968.
Itália e União Soviética empataram por 0 a 0 na semifinal mesmo após a prorrogação.
Não houve pênaltis.
A Itália avançou por cara ou coroa.
Poucos anos depois, o futebol internacional adotaria uma alternativa que transferia a decisão do acaso puro para jogadores e goleiros.
Quem inventou a disputa por pênaltis?
Aqui a resposta é muito menos simples que no tênis.
Diferentes formatos de desempate por cobranças já haviam sido utilizados em competições locais.
Dois nomes aparecem especialmente na história da adoção internacional: o israelense Yosef Dagan e o árbitro alemão Karl Wald.
Dagan propôs formalmente um sistema de cobranças depois de Israel ser eliminado dos Jogos Olímpicos de 1968 por sorteio. A proposta chegou aos organismos internacionais.
Wald, por sua vez, também desenvolveu e defendeu na Alemanha um sistema de disputa por pênaltis para substituir decisões por sorte.
Por isso, atribuir a invenção exclusivamente a uma única pessoa simplifica uma história que teve propostas paralelas.
O fato documental mais importante é outro:
em 27 de junho de 1970, a International Football Association Board, a IFAB, aprovou oficialmente o sistema de disputa por pênaltis para decidir partidas empatadas.
A primeira disputa oficial aconteceu poucas semanas depois
A adoção foi rápida.
Em 5 de agosto de 1970, Hull City e Manchester United empataram por 1 a 1 depois da prorrogação pela Watney Cup, na Inglaterra.
A partida é frequentemente apresentada como a primeira disputa oficial por pênaltis do futebol inglês sob a nova regulamentação.
George Best realizou a primeira cobrança do Manchester United.
O United venceu o desempate.
A BBC observa, porém, que a própria FIFA não confirma documentalmente que tenha sido a primeira disputa oficial do mundo — um exemplo de como é arriscado transformar uma história complexa em um único “primeiro”.
Como funciona a disputa por pênaltis?
O princípio básico tornou-se universalmente conhecido.
Cada equipe realiza inicialmente cinco cobranças, alternadamente.
Se uma delas construir uma vantagem impossível de ser alcançada antes das dez cobranças, a disputa termina antecipadamente.
Exemplo:
Time A converte quatro.
Time B perde três de suas quatro primeiras.
Não é necessário executar todas as cobranças restantes se o resultado já for matematicamente irreversível.
Se depois de cinco para cada lado houver empate, começa a chamada morte súbita.
Cada equipe cobra uma vez.
Se uma marcar e a outra perder dentro da mesma rodada, acabou.
Diferentemente do tênis, portanto, não é preciso abrir “dois pontos”.
É necessário terminar uma rodada de cobranças à frente.
No vôlei, “tie-break” significa o quinto set
O vôlei utiliza a expressão de maneira diferente.
Uma partida é disputada em melhor de cinco sets.
Se uma equipe vencer os três primeiros, termina 3 a 0.
Se chegar a 2 a 2, porém, é necessário um set para desempatar.
Esse quinto set é chamado de tie-break.
Hoje, os quatro primeiros sets vão normalmente até 25 pontos.
O quinto vai até 15.
Em todos eles é necessário abrir dois pontos de diferença. (fivb.com)
Assim:
15 a 13 termina.
15 a 14 não.
16 a 14 termina.
20 a 18 também.
Não há limite máximo enquanto a diferença de dois não aparecer.
O tie-break mudou o vôlei em 1988
O sistema não nasceu junto com o esporte.
Durante grande parte da história do vôlei, a pontuação dependia da posse do saque.
Uma equipe podia ganhar a jogada e recuperar o direito de sacar sem necessariamente adicionar um ponto ao placar.
Isso tornava a duração das partidas muito imprevisível.
Em 1988, o Congresso da FIVB em Seul adotou o chamado Tie-Break Rally Point System para o quinto set.
A grande mudança era esta:
cada rally passava a valer um ponto, independentemente de quem tivesse sacado.
Naquele modelo, o quinto set chegava a 15 e havia regras de limite de pontuação diferentes das atuais. Registros históricos da modalidade situam essa aprovação no congresso de 1988.
O experimento apontava para uma transformação ainda maior.
O que era exceção no quinto set virou regra para o jogo inteiro
Em 1998, a FIVB promoveu uma das maiores alterações da história do vôlei.
O rally point system passou a ser utilizado em todos os sets.
A partir daí, toda jogada passou a produzir um ponto.
Os quatro primeiros sets passaram a ser disputados até 25.
O tie-break permaneceu mais curto, até 15.
É basicamente a estrutura utilizada atualmente. A FIVB confirma que as partidas são em melhor de cinco, com os quatro primeiros sets a 25 e o último a 15, sempre exigindo dois pontos de diferença.
Isso significa que o antigo “sistema especial” do tie-break acabou transformando a própria maneira de contar pontos no vôlei.
Basquete não tem tie-break: simplesmente joga mais
No basquete, a solução é conceitualmente mais simples.
Se o placar termina empatado, adiciona-se tempo.
Na NBA, um jogo empatado depois dos quatro quartos segue para uma prorrogação de cinco minutos.
Se continuar empatado?
Mais cinco.
E mais cinco.
Quantas forem necessárias.
As regras oficiais da NBA determinam que, havendo empate ao fim do quarto período, o jogo continua pelos períodos extras necessários.
Portanto, não existe uma disputa artificialmente separada, equivalente aos pênaltis.
O basquete continua sendo jogado normalmente até alguém terminar uma prorrogação na frente.
Isso permite jogos com várias prorrogações
A consequência é que não existe um limite teórico predeterminado de períodos extras.
Se duas equipes empatarem depois de cinco minutos adicionais, jogam outra prorrogação.
O mecanismo preserva praticamente todas as características normais da modalidade.
Cestas continuam valendo dois ou três pontos.
Lances livres continuam valendo um.
Faltas e regras de posse continuam fazendo parte do jogo.
É uma filosofia completamente diferente da adotada pelo futebol.
O futebol troca a partida por uma habilidade específica: cobrança de pênalti.
O basquete mantém o próprio jogo.
A NFL criou sua prorrogação na temporada regular em 1974
O futebol americano encontrou um meio-termo.
A NFL instituiu a prorrogação para jogos da temporada regular em 1974. Registros oficiais da liga confirmam esse marco.
Durante muito tempo, o sistema ficou associado à morte súbita.
A lógica era extremamente simples:
quem pontuasse primeiro ganhava.
Isso produziu uma crítica óbvia.
A equipe que ganhasse o sorteio e recebesse a bola poderia avançar algumas jardas, acertar um field goal e terminar o jogo.
O adversário talvez nem tocasse na bola.
A NFL precisou mudar sua própria solução
Em 2010, a NFL alterou a prorrogação dos playoffs.
Em 2012, levou o formato modificado também para a temporada regular.
A mudança reduziu o poder de um field goal imediatamente após o sorteio.
Depois surgiu outra controvérsia.
Nos playoffs, ainda era possível que uma equipe marcasse touchdown na primeira campanha e encerrasse a partida sem permitir uma posse ofensiva ao adversário.
Em 2022, a NFL mudou novamente a regra da pós-temporada para assegurar oportunidade de posse às duas equipes.
É um ótimo exemplo de como sistemas de desempate raramente ficam congelados.
Quando uma solução cria uma vantagem considerada excessiva, a regra é novamente redesenhada.
Badminton possui um limite que o tênis não tem
O badminton moderno usa sets — oficialmente chamados de games — até 21 pontos.
Em 20 a 20, não basta marcar o próximo.
É necessário abrir dois.
22 a 20 encerra.
23 a 21 encerra.
Mas aqui aparece uma diferença importante em relação ao tênis e ao vôlei:
existe um teto.
Se o placar chegar a 29 a 29, quem fizer o 30º ponto vence.
Ou seja:
30 a 29 encerra o game.
As regras simplificadas da BWF estabelecem exatamente esse mecanismo.
Isso impede que uma parcial continue indefinidamente.
Tênis de mesa usa a lógica de dois pontos
No tênis de mesa, cada game normalmente vai até 11 pontos.
Mas 11 a 10 não encerra quando os jogadores chegaram empatados a 10.
É preciso abrir dois pontos.
Assim:
12 a 10 encerra.
12 a 11 não.
13 a 11 encerra.
A lógica se aproxima do tênis e do vôlei.
A grande diferença é a escala: como os games são muito mais curtos, a situação de empate crítico acontece em 10 a 10.
A ITTF mantém as regras técnicas e seus documentos oficiais dentro de seu conjunto normativo internacional.
Nem todo “tie-break” serve para desempatar uma partida
Aqui existe uma confusão de linguagem.
No tênis, o tie-break normalmente decide um set.
No vôlei, “tie-break” é o quinto set que decide a partida.
No futebol, a disputa por pênaltis determina quem avança ou vence uma competição eliminatória, mas não transforma tecnicamente o placar do jogo em uma vitória convencional pelo número de gols da disputa.
No basquete, nem existe uma fase separada: o jogo simplesmente continua na prorrogação.
E em campeonatos por pontos, “tiebreaker” pode significar algo completamente diferente.
Pode ser um critério de desempate da classificação.
Saldo de gols.
Confronto direto.
Pontos entre os empatados.
Número de vitórias.
Diferença de pontos.
Ranking.
Nesse caso, ninguém necessariamente volta a jogar.
O regulamento apenas estabelece qual estatística separa equipes ou atletas que terminaram empatados.
Cada esporte escolheu entre quatro maneiras de resolver o mesmo problema
Apesar das dezenas de regulamentos existentes, a maioria dos desempates esportivos segue uma destas ideias:
| Modelo | Exemplo | Como resolve |
|---|---|---|
| Pontuação curta especial | Tênis | Tie-break a 7 ou 10 |
| Set decisivo | Vôlei | 5º set a 15 |
| Habilidade específica | Futebol | Disputa por pênaltis |
| Tempo adicional | NBA/NFL | Prorrogação |
Há ainda esportes que misturam mecanismos.
O futebol começa acrescentando tempo — a prorrogação — e, se isso não funcionar, troca para os pênaltis.
A NFL adiciona tempo, mas aplica condições especiais sobre posse e pontuação.
O badminton mantém o jogo normal, exige dois pontos de vantagem e depois impõe um teto.
Cada solução tenta equilibrar três objetivos que nem sempre combinam:
justiça esportiva, duração previsível e emoção.
Por que o tie-break foi uma invenção tão importante?
Porque esportes televisionados possuem um problema que os regulamentos antigos não precisavam resolver com a mesma intensidade:
ninguém sabe quanto tempo um jogo sem limite pode durar.
No tênis, sets com vantagem podiam se estender dramaticamente.
No antigo vôlei, recuperar o saque sem marcar ponto permitia longos períodos sem avanço no placar.
Para jogadores, isso significava desgaste.
Para organizadores, atrasos.
Para emissoras, imprevisibilidade.
Para o público, partidas que podiam ultrapassar muito a duração esperada.
O tie-break não foi criado apenas para produzir drama.
Foi uma tecnologia regulatória para colocar algum limite no tempo de competição.
A ironia: o homem que inventou o tie-break achava que ele ainda era longo demais
James Van Alen queria acelerar radicalmente o tênis.
As versões posteriores do desempate ficaram menos extremas que seu modelo de morte súbita.
Em vez de um possível ponto decisivo em 4 a 4, prevaleceu a necessidade de vantagem de dois.
Isso tornou o sistema mais justo, mas também permitiu tie-breaks muito longos.
Ainda assim, o princípio de Van Alen venceu.
O tênis aceitou que um set empatado não precisava continuar em:
8 a 8.
12 a 12.
20 a 20.
Ele poderia mudar de formato para encontrar um vencedor.
Décadas depois, a palavra que nasceu associada a essa solução escapou do tênis.
Hoje, “tie-break” é utilizada informalmente para quase qualquer mecanismo capaz de responder à pergunta que todos os esportes eventualmente precisam enfrentar: e se terminar empatado?
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