A Chapecoense estava a caminho da primeira final continental de sua história quando o avião que transportava a delegação caiu nas montanhas próximas a Medellín, na Colômbia. O acidente aconteceu em 28 de novembro de 2016, horário local, e matou 71 das 77 pessoas a bordo. Entre as vítimas estavam jogadores, integrantes da comissão técnica, dirigentes, jornalistas e tripulantes. Apenas seis pessoas sobreviveram.

A equipe enfrentaria o Atlético Nacional na decisão da Copa Sul-Americana. Em vez da partida, marcada para 30 de novembro, o estádio Atanasio Girardot recebeu uma homenagem às vítimas. O clube colombiano pediu que o título fosse concedido à Chapecoense, solicitação aceita pela Conmebol em 5 de dezembro.

A tragédia também deixou duas tarefas muito diferentes para quem permaneceu em Chapecó. Uma era preservar a memória das vítimas e acompanhar as necessidades dos sobreviventes e de suas famílias. A outra era manter o clube em funcionamento, com compromissos esportivos e financeiros que não desapareceram após o acidente. A reconstrução começou sob uma mobilização internacional, mas seus resultados e dificuldades se estenderiam por muitos anos.

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O relatório revelou que o avião decolou com combustível insuficiente

A investigação oficial colombiana, concluída em abril de 2018, identificou uma sequência de falhas que vai além da expressão pane seca. O avião da LaMia partiu de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, rumo ao aeroporto de Rionegro, que atende Medellín, sem combustível suficiente para cumprir os requisitos de segurança da rota.

Segundo a Aeronáutica Civil da Colômbia, o voo precisava de pelo menos 11.603 quilos de combustível, mas dispunha de 9.300 quilos. A diferença era de 2.303 quilos, aproximadamente 20% da quantidade mínima exigida. O planejamento não contemplou adequadamente combustível para contingências, reservas e deslocamento até um aeroporto alternativo.

A investigação concluiu que a empresa e a tripulação sabiam da quantidade extremamente limitada de combustível, mas não realizaram uma escala para reabastecer. A declaração de emergência também ocorreu tardiamente, quando o esgotamento já comprometia a possibilidade de chegar à pista. Os motores perderam potência por falta de combustível, e a aeronave caiu às 21h59, no horário colombiano.

O relatório apontou ainda deficiências organizacionais na LaMia, problemas de supervisão e falhas na gestão da segurança operacional. Essas conclusões são técnicas e procuram explicar o acidente e prevenir sua repetição; não equivalem, por si sós, à atribuição de responsabilidade criminal a cada pessoa envolvida.

Seis pessoas sobreviveram, mas suas histórias seguiram caminhos diferentes

Entre os sobreviventes estavam três jogadores da Chapecoense: Alan Ruschel, Jakson Follmann e Hélio Neto. Também foram resgatados o jornalista Rafael Henzel e os tripulantes Ximena Suárez e Erwin Tumiri. A existência de seis sobreviventes em um acidente que matou 71 pessoas tornou suas histórias conhecidas internacionalmente, mas a recuperação de cada um envolveu condições médicas e consequências distintas.

Ruschel conseguiu voltar ao futebol profissional depois de um longo período de tratamento e reabilitação. Follmann teve parte da perna direita amputada e precisou reconstruir sua rotina fora dos gramados. Neto enfrentou uma recuperação prolongada e não retomou a carreira profissional no mesmo nível. Essas trajetórias não devem ser apresentadas como resultados equivalentes de um suposto método extraordinário de medicina esportiva.

Rafael Henzel voltou a trabalhar como jornalista, mas morreu em março de 2019, após sofrer um infarto enquanto jogava futebol. Sua morte, mais de dois anos depois do acidente, não altera o número oficial de 71 vítimas fatais da queda do avião. A distinção preserva a precisão dos registros sem diminuir a importância de sua trajetória.

O Atlético Nacional pediu o título para a Chapecoense, e a Conmebol tomou a decisão

A final da Copa Sul-Americana deveria começar em 30 de novembro de 2016, em Medellín. Em vez de receber uma partida, o estádio Atanasio Girardot tornou-se palco de uma homenagem às vítimas, com milhares de pessoas vestidas de branco. A manifestação de solidariedade ganhou repercussão internacional e aproximou as duas torcidas num momento em que a competição havia perdido seu sentido esportivo imediato.

Naquele mesmo dia, o Atlético Nacional enviou uma carta à Conmebol solicitando que a Chapecoense fosse declarada campeã. O pedido partiu do adversário, mas a concessão do título dependia de uma decisão formal da entidade organizadora. Em 5 de dezembro de 2016, o Conselho da Conmebol confirmou a Chapecoense como campeã da Copa Sul-Americana, com as prerrogativas esportivas e econômicas correspondentes.

O Atlético Nacional foi reconhecido como vice-campeão e recebeu o prêmio extraordinário Centenário Conmebol ao Fair Play, no valor de US$ 1 milhão. A homenagem, portanto, teve efeitos concretos na classificação e nas premiações do torneio. A conquista da Chapecoense também lhe garantiu uma vaga inédita na Copa Libertadores de 2017.

O gesto colombiano é suficientemente significativo sem a necessidade de acrescentar frases atribuídas a dirigentes que não tenham registro verificável. O documento oficial estabelece o essencial: o Atlético Nacional solicitou a concessão do título, e a Conmebol aceitou o pedido como homenagem às vítimas.

Reconstruir o clube exigiu muito mais do que contratar outro elenco

A Chapecoense precisou reorganizar praticamente todo o departamento de futebol para a temporada de 2017. A tragédia havia atingido jogadores, comissão técnica e dirigentes, enquanto o calendário continuava a exigir participação no Campeonato Catarinense, no Brasileirão e, pela primeira vez, na Libertadores.

A reconstrução contou com contratações, empréstimos de atletas e manifestações de apoio de outros clubes. A equipe voltou a disputar partidas em janeiro de 2017, menos de dois meses depois do acidente. O retorno ao campo representou a retomada das atividades profissionais, mas não o encerramento do luto ou das necessidades das famílias atingidas.

O clube conquistou o Campeonato Catarinense de 2017 e terminou o Brasileirão daquele ano na oitava posição. Os resultados demonstraram que a nova equipe conseguiu competir, embora não autorizem a conclusão de que a estrutura anterior tenha sido plenamente recuperada. A reconstrução esportiva, a situação financeira e a reparação às famílias eram processos diferentes, com prazos e dificuldades próprios.

A recuperação esportiva não foi uma trajetória de crescimento contínuo

A história posterior da Chapecoense mostra por que a expressão “maior reconstrução do futebol moderno” exige cautela. Não existe uma medida reconhecida que permita classificar objetivamente reconstruções de clubes após tragédias, e a solidariedade recebida em 2016 não garantiu estabilidade permanente.

Depois da retomada de 2017, a Chapecoense enfrentou dificuldades esportivas e financeiras. Foi rebaixada da Série A em 2019, conquistou a Série B de 2020 e retornou à primeira divisão em 2021. Naquele mesmo ano, voltou a cair. A sequência revela uma recuperação com conquistas importantes, mas também com retrocessos que não devem ser apagados por uma narrativa de superação linear.

O título da Série B de 2020 foi uma conquista coletiva da equipe formada anos depois da tragédia. Alan Ruschel participou daquela campanha, mas a reconstrução não pode ser atribuída exclusivamente a um sobrevivente ou a um único dirigente. Ela envolveu sucessivas administrações, profissionais, jogadores e torcedores.

O que permanece dez anos depois da tragédia

A história do voo LaMia 2933 reúne acontecimentos que precisam ser compreendidos separadamente. A investigação aeronáutica identificou falhas de planejamento e operação que levaram ao esgotamento do combustível. A Conmebol concedeu à Chapecoense um título continental após o pedido do Atlético Nacional. O clube, por sua vez, precisou continuar existindo enquanto sobreviventes e familiares enfrentavam consequências que não se encerraram com o retorno do futebol.

O aspecto mais importante do relatório técnico é que o acidente não foi apresentado como uma fatalidade inexplicável. A quantidade de combustível estava abaixo do mínimo exigido, uma escala para reabastecimento não foi realizada e a emergência foi comunicada tarde demais. São conclusões que transformam a memória da tragédia também em uma discussão sobre decisões operacionais e prevenção.

A Chapecoense voltou a jogar, conquistou títulos e enfrentou novos rebaixamentos. Nenhum desses resultados substitui a memória das 71 pessoas mortas, nem permite medir a recuperação de quem sobreviveu ou perdeu familiares. Às vésperas do décimo aniversário do acidente, em novembro de 2026, a história permanece ligada tanto ao que foi reconstruído quanto às responsabilidades e consequências que ultrapassam o futebol.

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