Entre os maiores públicos da história do futebol está um estádio com quase 200 mil pessoas assistindo a uma única partida de futebol parece incompatível com o esporte moderno. Em 16 de julho de 1950, Brasil e Uruguai entraram no Maracanã para decidir o quadrangular final da Copa do Mundo. A FIFA registra 173.850 espectadores — número que continua sendo o recorde oficial de público de uma partida de Mundial. A quantidade total de pessoas presentes, porém, foi ainda maior.

Registros históricos do Maracanã apontam 199.854 presentes. A própria FIFA afirma que se acredita que mais de 200 mil pessoas tenham entrado no estádio naquele dia.

Para dimensionar: seria necessário colocar praticamente três Maracanãs atuais dentro do antigo estádio para acomodar uma multidão semelhante.

E o Maracanazo não está sozinho.

Décadas antes da transformação dos grandes estádios em arenas com assentos individuais, catracas eletrônicas e rígidos padrões de segurança, partidas no Brasil, Escócia e outros centros do futebol levaram multidões que dificilmente poderão ser reproduzidas.

O detalhe surpreendente é que alguns dos recordes mundiais pertencem não a finais de Copa do Mundo ou Champions League, mas a campeonatos estaduais e copas nacionais.

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Afinal, qual foi o maior público da história do futebol?

Depende do critério utilizado.

Essa ressalva é indispensável porque registros antigos misturam três números diferentes:

público pagante, público presente e estimativas de público.

No Brasil x Uruguai de 1950, por exemplo, os 173.850 registrados pela FIFA não representam necessariamente todas as pessoas que estavam dentro do Maracanã.

A FIFA considera esse o maior público da história das Copas e reconhece que a quantidade real provavelmente ultrapassou 200 mil.

Nos registros históricos do estádio, aparecem 199.854 presentes.

É por isso que duas pessoas podem responder à mesma pergunta com números diferentes sem necessariamente estarem falando de jogos diferentes.

Brasil x Uruguai colocou quase 200 mil pessoas no Maracanã

O recorde mais famoso aconteceu justamente em uma das partidas mais traumáticas da história da Seleção Brasileira.

Brasil 1 x 2 Uruguai
16 de julho de 1950
Maracanã, Rio de Janeiro
173.850 espectadores oficialmente registrados pela FIFA
199.854 presentes segundo registros históricos do estádio

O Brasil precisava apenas de um empate para conquistar o Mundial.

Friaça abriu o placar no início do segundo tempo. Juan Alberto Schiaffino empatou e Alcides Ghiggia marcou o gol da virada uruguaia.

Nascia o Maracanazo.

A dimensão do público transformou a partida em algo ainda mais difícil de reproduzir. A FIFA informa que os 173.850 espectadores continuam constituindo o recorde de uma partida de Copa do Mundo.

O estádio inaugurado naquele Mundial havia sido projetado para receber multidões em uma escala que desapareceria progressivamente do futebol.

O mais impressionante é que o Maracanazo nem foi um caso isolado

Quatro anos depois, o Maracanã voltou a se aproximar dos 200 mil presentes.

Em 21 de março de 1954, Brasil e Paraguai disputaram uma partida pelas Eliminatórias da Copa do Mundo.

O Brasil venceu por 4 a 1.

O público registrado historicamente foi de aproximadamente 195,5 mil presentes, dos quais cerca de 174,6 mil eram pagantes.

Isso mostra que as multidões gigantescas não estavam restritas à excepcionalidade da Copa de 1950.

O antigo Maracanã funcionava regularmente em uma escala hoje inimaginável.

E a prova definitiva viria nove anos depois.

Fla-Flu colocou 194 mil pessoas em um jogo de campeonato estadual

Talvez esse seja o número mais surpreendente de toda a lista.

Em 15 de dezembro de 1963, Flamengo e Fluminense disputaram a decisão do Campeonato Carioca.

Não era Copa do Mundo.

Não era final de Libertadores.

Não era sequer uma competição nacional.

Mesmo assim, 194.603 pessoas estiveram no Maracanã para assistir ao Fla-Flu.

O próprio Flamengo registra 177.020 pagantes em sua ficha histórica da partida, embora outras bases históricas apresentem pequenas divergências no número de pagantes. O total presente de 194.603 é a referência mais difundida.

O jogo terminou 0 a 0.

Como o Flamengo precisava apenas do empate, saiu campeão carioca.

O número é tratado pelo clube como recorde mundial de público para uma partida entre clubes.

É uma marca extraordinária não apenas pelo tamanho, mas pela competição em que aconteceu.

Um Campeonato Carioca colocou no estádio uma multidão maior que a população atual de muitas cidades brasileiras.

Os maiores públicos históricos não formam um ranking tão simples quanto parece

Montar uma lista mundial absolutamente definitiva é problemático.

Há jogos antigos com registros incompletos, partidas em que foram contabilizados apenas pagantes, outras com público total, estimativas não verificáveis e até eventos disputados em rodadas duplas.

Por isso, um ranking jornalisticamente seguro precisa deixar explícito qual número está sendo comparado.

Entre os públicos documentados mais extraordinários aparecem:

PartidaAnoEstádioPúblico registrado/presente
Brasil 1 x 2 Uruguai1950Maracanã199.854 presentes; 173.850 oficiais FIFA
Brasil 4 x 1 Paraguai1954Maracanãcerca de 195,5 mil presentes
Flamengo 0 x 0 Fluminense1963Maracanã194.603 presentes
Escócia 3 x 1 Inglaterra1937Hampden Park149.415
Celtic 2 x 1 Aberdeen1937Hampden Parkcerca de 147 mil
Fluminense 1 x 1 Corinthians1976Maracanã146.043
Celtic 2 x 1 Leeds United1970Hampden Park136.505
Real Madrid 7 x 3 Eintracht Frankfurt1960Hampden Parkmais de 127 mil

Os números históricos de Hampden têm pequenas divergências entre registros oficiais. A Scottish FA, por exemplo, informa 149.145 para Escócia x Inglaterra em uma página, enquanto o Scottish Football Museum registra 149.415. Para Celtic x Aberdeen, a federação cita 147.365, enquanto outras fontes históricas registram 146.433.

Essas diferenças são justamente o motivo pelo qual rankings históricos precisam ser tratados com cautela.

A Escócia colocou quase 150 mil pessoas para assistir a um jogo em 1937

Antes de o Maracanã existir, outro estádio simbolizava o gigantismo das arquibancadas.

O Hampden Park, em Glasgow, chegou a ter capacidade próxima de 150 mil pessoas.

Em 17 de abril de 1937, Escócia e Inglaterra se enfrentaram pelo British Home Championship.

A Escócia venceu por 3 a 1.

O Scottish Football Museum registra 149.415 espectadores e classifica a marca como recorde britânico para uma partida de futebol.

A Scottish FA também reconhece o jogo como recorde europeu de público para uma partida internacional, embora apresente o número de 149.145 em sua página histórica sobre Hampden.

Mesmo usando o número mais conservador, estamos falando de aproximadamente 149 mil pessoas em um estádio em 1937.

E Hampden faria algo ainda mais extraordinário apenas sete dias depois.

Uma semana depois, quase 150 mil voltaram para ver Celtic x Aberdeen

Em 24 de abril de 1937, Celtic e Aberdeen disputaram a final da Copa da Escócia.

Mais uma multidão.

A Scottish FA registra 147.365 espectadores. O Scottish Football Museum e o Aberdeen trabalham com 146.433.

O Celtic venceu por 2 a 1.

Independentemente da pequena divergência estatística, a partida permanece como uma das maiores concentrações documentadas de torcedores para um confronto entre clubes na Europa.

E há um detalhe ainda mais impressionante.

O Scottish Football Museum afirma que aproximadamente 20 mil pessoas ficaram do lado de fora, sem conseguir entrar.

Ou seja: a demanda potencial poderia ter levado o evento para perto de 170 mil espectadores.

Celtic x Leeds colocou 136 mil pessoas em uma semifinal europeia

Hampden ainda produziria outros recordes.

Em abril de 1970, Celtic e Leeds United disputaram a semifinal da Copa dos Campeões da Europa.

O público foi de 136.505 espectadores.

Segundo os registros históricos escoceses, continua sendo o recorde de público de uma semifinal da principal competição europeia de clubes.

O Celtic venceu por 2 a 1.

O número ajuda a explicar por que a Escócia ocupa posição tão incomum nessa história: Hampden combinava capacidade gigantesca com uma cultura futebolística capaz de lotá-lo.

A maior final da Champions antes de existir Champions teve 127 mil pessoas

Dez anos antes de Celtic x Leeds, Hampden recebeu outro jogo histórico.

Real Madrid 7 x 3 Eintracht Frankfurt, pela final da Copa dos Campeões Europeus de 1960.

Foi uma das partidas mais célebres da história do torneio, com quatro gols de Ferenc Puskás e três de Alfredo Di Stéfano.

E havia mais de 127 mil espectadores nas arquibancadas.

A Scottish FA registra a partida como o maior público de uma final da Copa dos Campeões.

Compare isso com o futebol atual: finais modernas da Champions normalmente acontecem em estádios cuja capacidade total fica muito abaixo de 100 mil.

O recorde de 1960 não depende apenas da popularidade da competição.

Depende de um tipo de estádio que praticamente deixou de existir.

O Brasil tem outro número difícil de imaginar: 183 mil pagantes

Existe uma diferença importante entre público presente e público pagante.

E, nesse segundo critério, outra partida da Seleção chama atenção.

Brasil e Paraguai se enfrentaram no Maracanã em 31 de agosto de 1969, pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970.

O Brasil venceu por 1 a 0 e confirmou a classificação para o Mundial que conquistaria no México no ano seguinte.

O registro histórico aponta 183.341 pagantes.

É uma marca especialmente impressionante porque não estamos comparando público total, mas ingressos contabilizados.

A partida ocorreu justamente durante a trajetória da equipe que se transformaria na seleção de Pelé, Jairzinho, Tostão, Gérson, Rivellino e Carlos Alberto Torres campeã mundial em 1970.

Até um Fluminense x Corinthians levou 146 mil ao Maracanã

Outra demonstração da escala do futebol brasileiro daquela época aconteceu no Campeonato Brasileiro de 1976.

Em 5 de dezembro, Fluminense e Corinthians empataram por 1 a 1 no Maracanã.

Público: 146.043.

O jogo ficou marcado pela chamada Invasão Corintiana, quando dezenas de milhares de torcedores viajaram de São Paulo ao Rio de Janeiro.

O Corinthians avançou nos pênaltis.

O número mostra novamente como multidões acima de 100 mil não estavam restritas à Seleção Brasileira.

Durante décadas, clássicos estaduais e grandes confrontos nacionais transformaram o Maracanã em um fenômeno sem equivalente no futebol atual.

Por que esses recordes praticamente não podem ser quebrados hoje?

A resposta não é falta de interesse pelo futebol.

É arquitetura, segurança e regulamentação.

Os antigos estádios possuíam enormes setores em pé. No Maracanã, a antiga Geral permitia concentrar milhares de pessoas em espaços muito menores do que os necessários para arquibancadas modernas.

Hampden também chegou a uma capacidade de aproximadamente 150 mil lugares em sua configuração histórica. Hoje, depois das reformas e da transformação em estádio com assentos, sua capacidade é de 51.866.

O Maracanã passou por processo semelhante.

Isso significa que a comparação entre épocas precisa considerar algo fundamental:

o público máximo atual é determinado pela capacidade física e pelas normas de segurança, não necessariamente pela quantidade de pessoas interessadas no ingresso.

Um jogo pode ter demanda para 150 mil pessoas e mesmo assim receber apenas 70 mil porque simplesmente não há espaço autorizado para as outras 80 mil.

O Maracanã perdeu capacidade, mas seus recordes ficaram praticamente congelados

Essa transformação criou um fenômeno curioso.

Os recordes antigos tornaram-se quase inalcançáveis.

O estádio que recebeu aproximadamente 200 mil pessoas em 1950 já não pode comportar algo sequer próximo disso.

O mesmo aconteceu com Hampden.

Por isso, os maiores públicos da história do futebol funcionam como uma espécie de registro de uma era desaparecida do esporte.

Não necessariamente mostram quais partidas despertaram a maior demanda de todos os tempos. Mostram quais partidas combinaram enorme interesse popular com estádios construídos para acomodar multidões em condições que hoje seriam inviáveis.

O recorde do Maracanazo sobrevive há 76 anos

Quando Brasil e Uruguai entraram em campo em 16 de julho de 1950, ninguém sabia que aquela multidão estabeleceria uma referência capaz de atravessar praticamente toda a história moderna do futebol.

Em 2026, passaram-se 76 anos.

A FIFA continua reconhecendo os 173.850 espectadores oficiais daquele jogo como recorde de uma partida de Copa do Mundo.

E o total historicamente atribuído ao Maracanã chega a 199.854 presentes, enquanto estimativas citadas pela própria FIFA colocam a quantidade real acima de 200 mil.

Há uma ironia nisso.

O futebol tornou-se muito maior comercialmente desde 1950. A Copa ganhou audiência global, os clubes passaram a movimentar bilhões e os grandes jogos são transmitidos instantaneamente para praticamente todo o planeta.

Mas, dentro de um estádio, nenhuma final de Copa moderna voltou a reunir uma multidão como aquela.

E provavelmente nunca reunirá.

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