O corredor Derek Redmond havia completado menos da metade de sua semifinal dos 400 metros nos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, quando sentiu uma dor violenta na parte posterior da coxa direita. Ele diminuiu a velocidade, levou a mão à perna e caiu na pista. Os outros atletas seguiram em direção à chegada, enquanto o britânico via desaparecer a oportunidade pela qual havia enfrentado anos de lesões e cirurgias.

Redmond, porém, voltou a ficar de pé. Começou a percorrer o restante da pista aos saltos, apoiando-se na perna que ainda conseguia usar. Foi então que seu pai, Jim, deixou a arquibancada, passou pela segurança e entrou na pista para alcançá-lo. Os dois seguiram abraçados até o fim da volta, diante de um estádio que acompanhava a cena em pé.

O episódio aconteceu em 3 de agosto de 1992, mas alguns detalhes frequentemente repetidos sobre ele precisam ser corrigidos. Redmond não completou oficialmente a prova, a lesão não pode ser descrita como uma ruptura muscular total sem documentação clínica específica, e a ajuda do pai não transformou o abandono em uma desclassificação por assistência externa. A força da história está no que as imagens mostram, não em exagerar o diagnóstico ou alterar o resultado esportivo.

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O sonho olímpico já havia sido interrompido quatro anos antes

Aos 26 anos, Derek Redmond chegou a Barcelona carregando uma história de recuperação. Ele havia sido campeão mundial no revezamento 4 x 400 metros com a Grã-Bretanha em 1991, mas sua trajetória individual era marcada por problemas físicos. Nos Jogos de Seul, em 1988, uma lesão no tendão de Aquiles o impediu de disputar sua prova pouco antes da estreia. Nos quatro anos seguintes, passou por cinco cirurgias até conseguir voltar ao nível necessário para competir em outra Olimpíada.

Em Barcelona, os primeiros resultados indicavam que a recuperação havia funcionado. Redmond venceu sua bateria inicial dos 400 metros em 45s03, o melhor tempo daquela rodada, e também passou pelas quartas de final. A medalha não estava garantida, mas ele havia demonstrado condições de disputar uma vaga entre os oito finalistas.

A semifinal seria o teste decisivo. Redmond estava na raia 5 e precisava terminar entre os classificados para continuar na competição. Depois de tantos anos de preparação, a distância entre ele e a final olímpica havia diminuído para uma única volta na pista.

A lesão aconteceu antes da metade da prova

Redmond largou bem, mas sentiu uma dor súbita na parte posterior da coxa direita após aproximadamente 150 metros de corrida. A lesão atingiu os músculos isquiotibiais, responsáveis por movimentos fundamentais para a velocidade. Ele perdeu o ritmo imediatamente, levou a mão à perna e caiu, enquanto os demais competidores continuavam a prova.

O atleta havia sofrido uma ruptura muscular, descrita em relatos da época como uma lesão grave. Não é possível, contudo, afirmar que o músculo tenha se rompido completamente sem um laudo que estabeleça a extensão exata do dano. Também seria incorreto localizar a lesão no tendão de Aquiles: esse havia sido o problema que prejudicara sua participação olímpica em 1988, não a causa da queda em Barcelona.

Quando percebeu que os adversários já estavam longe, Redmond se levantou. Em vez de deixar a pista com a equipe médica, começou a avançar apoiado na perna esquerda, tentando preservar a direita. Seu objetivo já não era alcançar os outros corredores, mas percorrer os metros que faltavam.

Jim Redmond saiu da arquibancada para tentar impedir que o filho se machucasse ainda mais

Jim Redmond acompanhava a semifinal das arquibancadas. Ao ver o filho cair e depois tentar continuar, deixou seu lugar e desceu em direção à pista. Sem credencial para acessar a área de competição, precisou passar pelos responsáveis pela segurança até conseguir chegar ao atleta.

O gesto costuma ser contado como se Jim tivesse decidido imediatamente ajudar Derek a completar a corrida. Seu relato posterior apresenta uma motivação inicial diferente: ele entrou na pista para tentar convencer o filho a parar, preocupado com a possibilidade de agravar a lesão. Jim explicou que não queria ver Derek se machucar ainda mais por insistir numa prova cuja classificação já havia escapado.

Derek, porém, estava determinado a seguir. Em entrevista à BBC em 2012, contou que o pai disse que ele não precisava provar mais nada, mas ouviu como resposta que terminaria a corrida. Diante da decisão do filho, Jim mudou de atitude e passou a acompanhá-lo.

Os dois se abraçaram, e Derek apoiou parte do peso no pai. O atleta chorava enquanto avançava com dificuldade, e Jim tentava ajudá-lo a percorrer os últimos metros. A reação do público cresceu à medida que a dupla se aproximava da linha de chegada.

Eles cruzaram a linha juntos, mas Derek não recebeu um resultado oficial

A cena terminou com pai e filho chegando ao fim da volta diante dos aplausos do estádio. Derek percorreu fisicamente os 400 metros, mas isso não significa que tenha concluído a semifinal para fins de classificação. O registro oficial da prova o apresenta como DNF, sigla inglesa para did not finish, usada quando um atleta não completa a disputa de maneira válida.

É importante distinguir esse registro de uma desclassificação. A sigla DNF não é equivalente a DQ, utilizada para indicar desclassificação. A ajuda externa recebida por Redmond também não deve ser apresentada, sem respaldo documental, como a causa específica de uma punição aplicada pela arbitragem.

A emoção do episódio não depende dessa confusão. Redmond não conquistou medalha, não avançou à final e não recebeu um tempo válido pela semifinal. O que as imagens registraram foi um atleta lesionado tentando terminar seu percurso e um pai que, depois de tentar fazê-lo desistir, decidiu permanecer ao seu lado.

A cena ganhou um significado ainda maior depois da morte de Jim

O gesto continuou sendo lembrado muito depois dos Jogos de Barcelona. Em 2012, quando Londres se preparava para receber a Olimpíada, Jim Redmond foi escolhido para participar do revezamento da tocha olímpica. A homenagem ocorreu vinte anos depois da corrida que o havia tornado conhecido mundialmente.

Jim morreu em 2 de outubro de 2022, aos 81 anos. A notícia levou o Comitê Olímpico Internacional e a Associação Olímpica Britânica a prestarem homenagens ao homem que ajudara Derek na pista. As manifestações reforçaram a permanência daquela imagem na memória olímpica, três décadas após o acontecimento.

Derek também voltou a contar publicamente o que se passou naquele dia. Seu relato acrescentou uma dimensão que nem sempre aparece nos vídeos compartilhados nas redes sociais: Jim não entrou na pista porque acreditava que o filho ainda poderia vencer. Entrou porque estava preocupado com ele e só o ajudou a continuar depois de perceber que Derek não aceitaria parar.

A corrida, portanto, não é uma demonstração de que a força de vontade consegue superar qualquer lesão. Redmond sofreu uma lesão grave, perdeu a chance de disputar a final e precisou de apoio para chegar ao fim do percurso. A decisão de continuar foi dele, mas não deve ser confundida com uma recomendação para que atletas lesionados ignorem os riscos médicos.

O que permanece na história é a mudança de papel de Jim Redmond ao longo de poucos segundos. Primeiro, tentou proteger o filho fazendo-o parar. Depois, ao perceber que Derek insistiria, ofereceu o ombro para acompanhá-lo. A medalha olímpica não veio, mas a imagem dos dois atravessando a pista juntos continuou a ser lembrada mesmo após a morte do pai.

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