As lesões de LCA no futebol feminino apresentam uma diferença difícil de ignorar. Um estudo publicado com dados de sete temporadas do futebol profissional alemão encontrou incidência de ruptura do ligamento cruzado anterior durante jogos de 0,91 por 1.000 horas de exposição entre mulheres, contra 0,37 entre homens. Naquela população e período analisados, a incidência feminina foi aproximadamente 2,5 vezes maior.
A diferença ajuda a explicar por que tantos casos de jogadoras afastadas por meses chamaram atenção no futebol de elite. Mas classificá-la simplesmente como uma “epidemia” pode produzir uma conclusão que a ciência não sustenta.
A UEFA afirma que a frequência das lesões entre jogadoras permaneceu relativamente consistente nas últimas duas décadas e estima que o problema afete entre 1% e 3% das atletas durante uma temporada. O que existe é um risco desproporcional e um impacto esportivo considerável, não evidência suficiente para afirmar que uma epidemia esteja crescendo continuamente.
A pergunta mais importante, portanto, é outra: por que o joelho das jogadoras está mais exposto e o que realmente pode ser feito para reduzir esse risco?
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O que acontece quando o LCA se rompe
O ligamento cruzado anterior fica no interior do joelho e exerce papel fundamental na estabilidade da articulação.
Uma ruptura pode acontecer em uma fração de segundo. No futebol, isso nem sempre exige uma entrada violenta de uma adversária.
Um dos exemplos mais úteis para compreender o problema aparece quando uma jogadora pressiona a adversária, desacelera rapidamente e tenta mudar de direção. O pé fica apoiado no gramado enquanto o restante do corpo precisa responder quase instantaneamente ao movimento da jogada.
É justamente nesse intervalo que determinadas combinações biomecânicas podem elevar a carga sobre o joelho.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 examinou estudos que utilizaram vídeos para investigar mecanismos e fatores biomecânicos envolvidos nas lesões de LCA no futebol. O objetivo desse tipo de pesquisa é reconstruir o movimento imediatamente anterior à lesão e identificar padrões repetidos.
E os vídeos estão revelando algo importante.
Lesões de LCA no futebol feminino acontecem muitas vezes sem contato direto
Um dos maiores estudos recentes sobre o tema identificou 247 lesões de LCA no futebol feminino profissional entre 2022 e 2024, considerando partidas internacionais e 25 ligas nacionais.
Havia imagens adequadas para análise de 127 casos.
Entre eles, 49% das lesões ocorreram sem contato, 41% envolveram contato indireto e apenas 10% foram classificadas como resultado de contato direto.
Isso muda a maneira de enxergar o problema.
Uma ruptura pode ocorrer sem que outra atleta atinja diretamente o joelho lesionado. Às vezes existe contato em outra região do corpo, suficiente para alterar equilíbrio, posição e resposta motora. Em outras situações, não existe contato algum.
O estudo encontrou ainda um cenário particularmente recorrente: ações de pressão e desarme representaram 53% dos casos analisados em vídeo.
O risco, portanto, está inserido em movimentos absolutamente normais do futebol.
O segundo em que a biomecânica se torna decisiva
Imagine uma lateral avançando para pressionar uma adversária.
Ela acelera, percebe uma mudança na trajetória da bola e precisa frear. O pé toca o gramado, o quadril começa a reorganizar o movimento e o joelho recebe rapidamente forças provenientes do solo enquanto o corpo tenta mudar de direção.
É uma situação que acontece centenas de vezes em uma partida.
No estudo de 2026, os pesquisadores observaram que, nos casos em que a biomecânica podia ser analisada adequadamente, as lesões durante ações de pressão ou desarme frequentemente apresentavam flexão relativamente limitada do quadril e do joelho, além de valgo do joelho em parte relevante dos casos.
O valgo ocorre quando o joelho se desloca medialmente em relação ao alinhamento do membro inferior.
Isso não significa que uma única posição seja capaz de prever quem sofrerá uma lesão.
O mecanismo é multiplanar. Flexão, rotação, forças do solo, posição do tronco, velocidade, movimento do quadril e resposta neuromuscular podem interagir em milissegundos.
Uma análise anterior de 37 lesões no futebol feminino profissional alemão chegou a uma conclusão semelhante. Quase metade ocorreu sem contato e os pesquisadores identificaram quatro padrões recorrentes, incluindo lesões durante pressão, corrida acompanhada de disputa, contato joelho contra joelho e aterrissagem.
Não existe uma única causa para o risco maior
É aqui que uma explicação aparentemente simples pode se tornar enganosa.
As lesões de LCA em mulheres já foram associadas a diferenças anatômicas, características neuromusculares, biomecânica, fatores hormonais e exposição esportiva.
Mas nenhum desses elementos, isoladamente, explica todos os casos.
A própria UEFA reuniu especialistas para discutir o problema e chama atenção para a necessidade de abandonar mitos e explicações simplistas. A entidade trata a lesão como uma questão multifatorial e defende pesquisas especificamente desenhadas para atletas mulheres.
Isso também exige cautela quando o ciclo menstrual entra na discussão.
Há interesse científico legítimo sobre hormônios, propriedades dos ligamentos e possíveis mudanças neuromusculares ao longo do ciclo. Mas transformar essa hipótese em uma fórmula simples, sugerindo que determinada fase explica sozinha as rupturas, ultrapassa o que a evidência atual permite concluir.
O joelho não joga isoladamente.
Ele responde ao movimento do quadril, tornozelo e tronco, à força muscular, à percepção da jogada e às decisões tomadas sob pressão.
O cérebro também participa dessa equação
Uma das linhas mais interessantes de investigação está justamente além do joelho.
No futebol real, a atleta não realiza uma mudança de direção previamente ensaiada em um laboratório. Ela observa a bola, acompanha adversárias, interpreta espaços e decide para onde correr enquanto executa o movimento.
Uma análise de lesões no futebol feminino profissional espanhol publicada em 2026 investigou também possíveis fatores neurocognitivos envolvidos nos padrões de ruptura do LCA. A proposta reforça uma mudança importante na prevenção: treinar apenas movimentos previsíveis pode não reproduzir todas as exigências de uma partida.
Isso ajuda a entender por que o treinamento preventivo moderno não precisa ensinar apenas a “aterrissar corretamente”.
A atleta precisa aprender a controlar o corpo quando a situação muda sem aviso.
O dado que derruba a explicação da fadiga
Outro detalhe chama atenção nos vídeos.
Se a fadiga acumulada durante a partida fosse a principal explicação, seria intuitivo esperar uma concentração de rupturas nos minutos finais.
O estudo com 247 casos encontrou justamente o contrário.
Cerca de 67% das lesões analisadas ocorreram nos primeiros 45 minutos, e 65% aconteceram durante ações defensivas.
Um estudo anterior com 37 lesões também encontrou sete das 17 rupturas sem contato nos primeiros 15 minutos.
Esses resultados não significam que fadiga e carga devam ser ignoradas. Significam que elas não explicam sozinhas o fenômeno.
A intensidade das primeiras ações, exposição a situações defensivas e características biomecânicas específicas também precisam entrar na análise.
Prevenção pode reduzir as lesões de LCA
A parte mais importante da ciência talvez seja justamente aquela que impede o problema de parecer inevitável.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no British Journal of Sports Medicine avaliou programas preventivos envolvendo 11.773 jogadoras.
Programas de exercícios com múltiplos componentes foram associados a uma redução de 45% nas lesões de LCA, além de uma redução de 27% nas lesões em geral. Os próprios autores, entretanto, classificaram a evidência disponível como de baixa qualidade, o que exige cautela na interpretação do tamanho exato do efeito.
Esses programas combinam diferentes elementos em vez de apostar em um exercício milagroso.
Força, equilíbrio, controle neuromuscular, pliometria, agilidade, aterrissagem e técnica de mudança de direção podem fazer parte do trabalho.
A UEFA recomenda sessões preventivas de aproximadamente 10 a 20 minutos, duas vezes por semana, durante a pré-temporada e ao longo de toda a temporada, com atenção para força do core, agilidade, aterrissagem e mudanças de direção.
O desafio passa a ser transformar conhecimento científico em rotina.
O problema não termina quando a jogadora volta ao campo
Há ainda uma consequência menos visível.
Retornar depois de uma reconstrução do LCA não significa que o risco desapareceu.
Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu 34 estudos e 16.905 futebolistas que passaram por reconstrução do ligamento. A incidência combinada de uma segunda lesão de LCA foi de 21,6%. Entre as mulheres, a estimativa agrupada chegou a 23,5%.
Esses números envolvem estudos heterogêneos e diferentes contextos, portanto não funcionam como previsão individual.
Ainda assim, mostram por que a reabilitação não deve ser tratada apenas como uma corrida para voltar aos jogos.
Força, controle motor, confiança, exposição progressiva às demandas do futebol e critérios de retorno precisam caminhar juntos.
O próximo avanço pode acontecer antes da lesão
Durante anos, boa parte da discussão sobre o LCA no futebol feminino tentou encontrar uma explicação única.
A ciência mais recente aponta para uma direção diferente.
O problema parece surgir da interação entre contexto da jogada, biomecânica, controle neuromuscular e outras características individuais e ambientais. Ao mesmo tempo, estudos em vídeo estão permitindo identificar com precisão cada vez maior quais situações antecedem as rupturas.
Isso muda a pergunta.
Em vez de procurar apenas por que as mulheres rompem mais o LCA, pesquisadores e clubes podem investigar quais situações do futebol colocam determinada atleta sob maior risco e como prepará-la para responder melhor a elas.
A diferença é fundamental.
Lesões de LCA no futebol feminino são um problema sério e desproporcional. Mas não precisam ser apresentadas como destino inevitável da atleta.
Se programas preventivos já conseguem reduzir significativamente o risco em estudos, a próxima fronteira está em aproximar laboratório e campo: transformar os segundos que antecedem uma ruptura em movimentos que possam ser treinados antes que ela aconteça.
Fontes consultadas
PubMed, British Journal of Sports Medicine, Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy, Sports Medicine, Journal of Science and Medicine in Sport e UEFA, com prioridade para revisões sistemáticas, estudos epidemiológicos e análises biomecânicas em vídeo.
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