Tem hino de clube que nasce de concurso, hino que nasce de encomenda pra um carnavalesco famoso, e tem hino que nasce de um homem sendo despejado de casa, cantarolando baixinho enquanto carregava os móveis pra rua. O hino do São Paulo pertence a esse último grupo, e talvez seja por isso que ele carrega um peso emocional tão diferente dos outros: foi escrito num momento de perda total, por um torcedor que tinha dado praticamente tudo que possuía pro clube, e que decidiu transformar aquela dor numa declaração de amor cantada até hoje pela Torcida Tricolor.
Como foi criado o hino do São Paulo é uma pergunta que tem uma resposta surpreendente pra quem só conhece a versão final, a que toca antes de cada jogo no Morumbi. A letra que conhecemos hoje passou por pelo menos duas reformulações importantes, incluindo um detalhe pouco divulgado: numa das primeiras versões, a composição chegava a citar o nome do Palmeiras, justamente porque um dos clubes que deu origem ao São Paulo se chamava Associação Atlética das Palmeiras — e isso, décadas depois, criou uma confusão e tanto.
Esse texto reconstrói essa trajetória inteira: quem escreveu o hino, em que contexto pessoal ele nasceu, por que a letra precisou mudar mais de uma vez e o que pouca gente sabe sobre o autor dessa canção, que além de compositor, também foi general e vice-governador do estado de São Paulo.
Como Foi Criado o Hino do São Paulo
A história do hino começa com um homem chamado José Porphyrio da Paz, nascido em Araxá, Minas Gerais, em 1903. Militar de carreira, Porphyrio se tornou um dos torcedores mais dedicados que o São Paulo já teve, e foi peça importante na reconstrução do clube em 1935, justamente no período em que o São Paulo lutava pela própria sobrevivência depois de uma fusão fracassada com o Clube de Regatas Tietê. Ele assumiu o cargo de diretor esportivo naquele momento delicado, e seu nome ficaria marcado pra sempre na história do clube, mas não por causa de uma taça ou de uma contratação importante.
Quem foi Porphyrio da Paz, o autor do hino
Porphyrio não era músico de profissão. Era tenente do Exército, e mais tarde chegaria a general, além de carreira política de peso: foi vice-governador do estado de São Paulo entre 1955 e 1963, e também exerceu mandatos como deputado estadual. Mas o que move essa história não é a carreira militar nem a política — é a devoção quase irracional que ele tinha pelo São Paulo, ao ponto de direcionar praticamente todos os próprios ganhos pra ajudar o clube durante a fase mais difícil da sua existência.
O despejo que inspirou os primeiros versos
Foi exatamente esse excesso de generosidade que custou caro pra Porphyrio. Tanto dinheiro foi direcionado ao clube que ele e a família acabaram despejados da própria casa, sem conseguir pagar as contas em dia. No dia da mudança forçada, carregando os pertences pra fora junto da família, Porphyrio começou a cantarolar baixinho uma frase que viria a se tornar o primeiro verso do hino, numa espécie de consolo dentro daquele momento difícil. A melodia e a letra foram tomando forma a partir daquele instante de 1936, sem que ele tivesse a intenção inicial de criar algo oficial — a canção nasceu como desabafo pessoal, não como projeto.
O tempo passou e Porphyrio não esqueceu aquela frase cantarolada na pior fase financeira da própria vida. Foi aperfeiçoando os versos pouco a pouco, até que, em 1942, a composição completa — letra e melodia, ambas de sua autoria — foi reconhecida oficialmente pelo São Paulo Futebol Clube como hino do time.

As Mudanças na Letra do Hino ao Longo do Tempo
A versão que conhecemos hoje, cantada antes de cada jogo no Morumbi, não é exatamente igual à composição original de Porphyrio. A letra completa tinha mais estrofes do que a versão atual, e pelo menos uma delas precisou ser reescrita por um motivo bem específico: ela citava diretamente os dois clubes que se uniram em 1930 pra dar origem ao São Paulo, o Club Athletico Paulistano e a Associação Atlética das Palmeiras.
Na época em que Porphyrio escreveu essa estrofe, citar a Associação Atlética das Palmeiras não causava confusão nenhuma, porque esse clube não tinha relação alguma com o futebol profissional — era só uma das duas instituições fundadoras do Tricolor. O problema surgiu depois, quando o antigo Palestra Itália, até então o maior rival paulista, mudou de nome em 1942 e passou a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras. De repente, o hino do São Paulo passou a citar literalmente o nome “Palmeiras” dentro da própria letra, só que agora essa palavra remetia direto ao arquirrival, e não mais à associação esportiva que ajudou a fundar o clube décadas antes.
A solução inicial de Porphyrio foi trocar a palavra “Palmeiras” por “Floresta”, numa referência à região da cidade onde o São Paulo nasceu. Só que essa tentativa também não resolveu o problema de identidade: o termo “Floresta” já era associado a outros clubes da capital, como a Associação Atlética São Bento, o Clube de Regatas Tietê e o Club Canottieri Esperia, criando uma confusão diferente, mas igualmente incômoda. Diante desse impasse, Porphyrio decidiu reescrever a estrofe inteira, abandonando qualquer referência direta a nomes de clubes e criando os versos que conhecemos hoje, focados na grandeza e na história do Tricolor sem mencionar nenhuma instituição específica.
A versão final desse processo de ajustes só ficou pronta em 29 de abril de 1966, alguns anos depois da inauguração do Estádio do Morumbi. Nessa data, numa reunião do Conselho Deliberativo do clube, Porphyrio apresentou a letra definitiva e, num gesto que reforça o tamanho do seu amor pelo São Paulo, doou formalmente todos os direitos sobre a composição à instituição, sem reter nenhum tipo de remuneração futura sobre a canção que tinha criado em um dos piores momentos da própria vida.
O Que Pouca Gente Sabe Sobre o Hino do São Paulo
Tem detalhes dessa história que ficam fora do resumo mais conhecido pela torcida, mas que merecem espaço.
O primeiro é raro até entre hinos de clubes brasileiros: Porphyrio não escreveu só a letra. Ele compôs também a melodia inteira, sozinho, sem ajuda de um parceiro musical profissional. A maioria dos hinos de clubes grandes do Brasil nasceu da parceria entre um letrista e um compositor de música, como aconteceu, por exemplo, com outros clubes cariocas e paulistas da mesma época. No caso do São Paulo, as duas funções couberam à mesma pessoa — um militar sem formação musical formal, movido só pela emoção de torcedor.
Outro fato pouco lembrado é o tamanho do carinho que a torcida organizada do São Paulo desenvolveu pelo próprio Porphyrio com o passar das décadas. Em 1973, no aniversário do clube, a Torcida Uniformizada Tricolor organizou uma passeata de carros — cerca de cinquenta veículos — que passou bem na frente da casa dele, cantando o hino que ele próprio tinha composto quatro décadas antes. Foi uma forma de homenagear, ainda em vida, o homem que deu nome e voz ao sentimento mais cantado pelos são-paulinos.
Tem também o detalhe da fotografia mais conhecida de Porphyrio, registrada durante a reinauguração do São Paulo em 1936, ano em que o clube foi oficialmente refundado depois da crise que quase apagou sua existência. Na imagem, ele aparece de farda, reforçando a dupla identidade que carregou a vida inteira: militar de carreira e, ao mesmo tempo, um dos torcedores mais simbólicos que o clube já teve.
Por fim, vale lembrar que Porphyrio da Paz faleceu em 1983, aos 80 anos, deixando como legado não só a canção entoada até hoje nos dias de jogo, mas também a história pessoal de superação que está por trás dela. Poucos torcedores que cantam o hino antes de cada partida sabem que aquela melodia nasceu de um despejo, foi reescrita pelo menos duas vezes por questões de identidade entre clubes rivais, e só ganhou a forma definitiva décadas depois de composta — um processo bem mais longo e bem mais humano do que normalmente se imagina sobre um hino de futebol.
Perguntas Frequentes
Como foi criado o hino do São Paulo?
O hino foi criado em 1936 por José Porphyrio da Paz, um militar e torcedor símbolo do clube, durante um momento de dificuldade pessoal. Ele compôs os primeiros versos cantarolando baixinho enquanto era despejado da própria casa com a família, depois de direcionar boa parte dos próprios recursos pra ajudar o São Paulo na fase de refundação do clube, em 1935.
Quem escreveu o hino do São Paulo?
A letra e a melodia foram criadas por José Porphyrio da Paz, nascido em Araxá, Minas Gerais, em 1903. Militar de carreira, ele também foi vice-governador do estado de São Paulo entre 1955 e 1963, além de deputado estadual, mas ficou marcado na história do clube principalmente como o autor do hino tricolor.
Quando o hino do São Paulo se tornou oficial?
A composição foi reconhecida oficialmente pelo clube em 1942, seis anos depois de Porphyrio ter criado os primeiros versos. A versão definitiva da letra, a mesma cantada atualmente, só ficou pronta em 29 de abril de 1966, depois de passar por reformulações ligadas a referências de outros clubes presentes na composição original.
Por que a letra do hino do São Paulo mudou?
A estrofe original citava os dois clubes que deram origem ao São Paulo em 1930, incluindo a Associação Atlética das Palmeiras. O problema surgiu quando o rival Palestra Itália passou a se chamar Sociedade Esportiva Palmeiras, em 1942, fazendo com que o hino citasse, sem querer, o nome do maior rival do clube. A estrofe precisou ser reescrita por completo.
O hino do São Paulo já citou o Palmeiras?
Sim, de forma indireta. A referência original era à Associação Atlética das Palmeiras, uma das instituições fundadoras do São Paulo, sem relação com o clube rival. Só depois que o Palestra Itália adotou o nome Palmeiras é que essa palavra na letra passou a remeter ao arquirrival, levando Porphyrio a reescrever o trecho.
Porphyrio da Paz recebia direitos autorais pelo hino do São Paulo?
Não. Em 29 de abril de 1966, durante uma reunião do Conselho Deliberativo do clube, Porphyrio doou formalmente todos os direitos sobre a composição ao São Paulo Futebol Clube, deixando de receber qualquer tipo de remuneração futura pela música que tinha criado décadas antes.
Porphyrio da Paz ainda era vivo quando foi homenageado pela torcida?
Sim. Em 1973, ainda em vida, ele foi homenageado pela Torcida Uniformizada Tricolor durante uma passeata de carros que passou em frente à sua residência, com os participantes cantando o hino que ele mesmo havia composto. Porphyrio faleceu somente em 1983, aos 80 anos.

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