Quem vê de longe acha que é simples falta de cuidado: o jogador rasgou a meia, não tinha outra pra trocar e entrou em campo assim mesmo. Só que essa explicação não passa nem perto da realidade. O buraco na ponta do meião furado, hoje espalhado por praticamente todo campeonato importante do planeta, é uma escolha pensada com cuidado, ligada direto a conforto, performance e até prevenção de lesão — e não tem nada de descuido por trás dela.
Por que alguns jogadores usam meião furado é uma pergunta que ganhou força conforme a moda se espalhou pelos gramados, e a resposta está ligada a um problema bem específico que surgiu com a chegada das chuteiras ultraleves e supercoladas ao pé. Esses modelos, pensados pra dar mais contato com a bola, também apertam o pé de um jeito que o tecido tradicional do meião não acompanha bem, e foi tentando resolver esse aperto que jogadores começaram a recortar a parte de baixo da própria meia.
Esse texto explica de onde vem essa moda, por que ela realmente funciona, quem foram os primeiros craques a popularizá-la, e o que diz a regra oficial do futebol sobre cortar ou furar o próprio uniforme em pleno jogo.
Por Que Alguns Jogadores Usam Meião Furado
O motivo central é simples de entender, mesmo que pareça estranho à primeira vista: conforto e desempenho dentro da chuteira. O meião tradicional de futebol é feito pra cobrir a perna inteira, do tornozelo até a altura do joelho, incluindo a parte de baixo do pé, que fica encaixada dentro da chuteira junto com o restante do equipamento. Só que esse tecido contínuo, pensado mais pra estética e padronização do uniforme do que pra performance específica do pé, começou a incomodar bastante quando as marcas de material esportivo passaram a lançar chuteiras cada vez mais justas e leves.
A chegada das chuteiras ultraleves mudou tudo
Modelos desenvolvidos pra aumentar o contato direto entre o pé e a bola, com menos camadas de material entre os dois, acabaram deixando o calçado mais apertado do que os modelos tradicionais usados décadas atrás. Esse aperto, somado ao tecido fino do meião na altura do pé, passou a causar desconforto, atrapalhar a circulação sanguínea e até facilitar câimbras em jogadores com músculos de panturrilha mais desenvolvidos. Foi tentando resolver justamente esse incômodo que o hábito de cortar a parte inferior da meia ganhou força entre atletas de alto rendimento.
O que o corte realmente resolve
Ao recortar o pé do meião, o jogador consegue substituir aquele tecido por uma meia separada, geralmente mais curta e feita de um material diferente, com mais aderência interna e melhor ajuste dentro da chuteira. Essa combinação reduz o atrito entre o pé e o calçado, melhora a sensação de toque na bola e ainda evita o aperto excessivo que prejudicava a circulação na perna. Na prática, o jogador ganha o melhor dos dois mundos: mantém o meião tradicional cobrindo a canela, onde fica a caneleira de proteção, e troca só a parte do pé por algo mais confortável e ajustado ao próprio gosto.
Como Essa Moda Começou e Se Espalhou pelo Mundo
A prática nasceu na Europa, ainda no início dos anos 2010, entre jogadores que já testavam diferentes combinações de equipamento em busca de qualquer vantagem extra dentro de campo. Nomes como Cristiano Ronaldo, Gareth Bale e Dani Alves foram dos primeiros a aparecer em jogos importantes com o tecido da caneleira exposto, enquanto o calção e a camisa permaneciam intactos, sem nenhum tipo de alteração visível além da própria meia.
O que parecia, a princípio, só uma escolha estética — quase um capricho de jogador rico testando moda nova — foi ganhando justificativa técnica conforme mais atletas relatavam a mesma sensação de alívio depois do corte. A tendência atravessou o continente e chegou ao Brasil através de jogadores como Neymar, Gabriel Jesus e Vinícius Júnior, que adotaram o hábito tanto em clubes europeus quanto em convocações pela Seleção Brasileira.
As marcas esportivas, percebendo o tamanho que aquilo tinha tomado entre os profissionais, decidiram parar de tratar o corte como um problema e passaram a vender o próprio produto já adaptado. Surgiram modelos conhecidos popularmente como “canelitos”, que vêm de fábrica sem a parte do pé, pensados justamente pra ser combinados com uma meia curta separada. Grandes fabricantes como Nike, Adidas e Puma desenvolveram ainda meiões com divisões ajustáveis, permitindo ao jogador escolher o ajuste ideal sem precisar recorrer a tesoura nenhuma. A Umbro, por exemplo, criou uma tecnologia antiderrapante aplicada direto na sola do meião, tentando resolver o mesmo problema sem exigir o corte. Já o Liverpool chegou a testar modelos híbridos que já vinham de fábrica com uma abertura própria na altura da sola, antecipando uma demanda que antes só era resolvida com tesoura no vestiário.
O Que Pouca Gente Sabe Sobre o Meião Furado
Tem detalhes dessa história que ficam de fora do resumo mais repetido por aí, mas que merecem espaço.
O primeiro é sobre a regra oficial que regula essa prática. O futebol permite o corte do meião, desde que a peça usada por baixo, seja meia curta, fita ou qualquer outro material aplicado, tenha exatamente a mesma cor da parte do meião que foi retirada. Quando um jogador aparece com a meia de baixo numa cor diferente da meia original, o árbitro precisa, primeiro, avisar verbalmente pra correção do equipamento. Se o problema persistir na parada seguinte do jogo, a penalidade vira cartão amarelo. Foi exatamente esse detalhe que pegou jogadores como Neymar, Messi e Mbappé em maus lençóis durante passagens pelo Paris Saint-Germain, quando apareceram com meião azul combinado a uma meia curta branca, descumprindo a regra de cor única.
Outra curiosidade pouco lembrada é que essa prática já foi tratada de forma bem mais rígida pela FIFA. Durante a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, a entidade chegou a proibir formalmente o uso do meião furado nas partidas do torneio, depois de notar o crescimento da tendência entre as seleções participantes. Neymar, que já vinha adotando o corte em jogos anteriores pela Seleção Brasileira, precisou voltar a usar meias completamente lisas durante aquele Mundial — uma mudança que, segundo registros da época, também envolveu pressão de patrocinadores esportivos interessados em manter a peça publicitária do uniforme visível por completo. Já na Copa do Mundo seguinte, em 2022, no Catar, a postura mudou: o meião furado passou a ser tratado com mais normalidade, com alternativas já homologadas pelas próprias marcas oficiais dos uniformes.
Tem ainda um detalhe interessante sobre o cuidado pessoal de alguns craques com esse tipo de equipamento. Cristiano Ronaldo, por exemplo, é conhecido por personalizar suas próprias meias de compressão antes de cada partida, ajustando o material conforme a sensibilidade do próprio corpo naquele dia específico de jogo — prova de que, pra um atleta de elite, até um detalhe tão pequeno quanto o tecido em volta do pé pode interferir no rendimento dentro de campo.
E vale registrar como clubes inteiros passaram a se adaptar à regra de cores combinadas pra evitar punição. Em partidas do Mundial de Clubes, o Palmeiras usou meião verde com atletas optando pelo corte, sempre combinando a meia curta usada por baixo na mesma tonalidade do uniforme oficial. O Fluminense seguiu padrão parecido em compromissos internacionais, usando meião grená e cuidando pra manter a mesma cor na peça extra usada por baixo — mostrando que, mesmo numa prática que parece informal, existe todo um cuidado técnico e regulamentar por trás de cada detalhe.
Perguntas Frequentes
Por que alguns jogadores usam meião furado?
Os jogadores cortam a parte do pé do meião principalmente por conforto e desempenho. As chuteiras ultraleves modernas apertam bastante o pé, e o tecido fino do meião tradicional acaba incomodando ainda mais nessa região. Ao cortar e substituir por uma meia separada, com mais aderência e melhor ajuste, o jogador melhora a circulação, reduz o atrito e evita desconfortos como câimbras durante a partida.
O meião furado é permitido pelas regras do futebol?
Sim, desde que a peça usada por baixo do corte tenha exatamente a mesma cor da parte retirada do meião original. Caso o jogador use uma meia de cor diferente, o árbitro avisa verbalmente na primeira oportunidade e pode aplicar cartão amarelo se a irregularidade não for corrigida na parada seguinte do jogo.
Quando os jogadores começaram a usar meião furado?
A prática ganhou força no início dos anos 2010, na Europa, com jogadores como Cristiano Ronaldo, Gareth Bale e Dani Alves aparecendo em campo com o corte na parte inferior da meia. A tendência se espalhou depois para o Brasil, sendo adotada por nomes como Neymar, Gabriel Jesus e Vinícius Júnior.
Por que a FIFA proibiu o meião furado na Copa de 2018?
A entidade percebeu o crescimento dessa tendência entre as seleções e decidiu restringir o uso durante o Mundial da Rússia, buscando manter um padrão visual mais uniforme entre os uniformes. Jogadores como Neymar precisaram abandonar o corte naquele torneio específico, retornando a meias completamente lisas durante as partidas da competição.
O meião furado realmente melhora o desempenho do jogador?
Existe relato consistente de jogadores profissionais afirmando que o corte melhora o conforto dentro da chuteira, principalmente em modelos mais justos e leves. A troca por uma meia separada, com tecido diferente e mais aderência, reduz o atrito com o calçado e melhora a circulação sanguínea na região do pé e da panturrilha.
Existem meiões já fabricados sem a parte do pé?
Sim. Diante da popularidade do corte improvisado, marcas esportivas passaram a vender modelos já produzidos sem a parte inferior, conhecidos popularmente como “canelitos”. Esses produtos são pensados para ser combinados com uma meia curta separada, eliminando a necessidade de o próprio jogador recortar a peça original com tesoura.
O meião furado pode causar alguma penalidade durante o jogo?
Pode, caso a regra de cores não seja respeitada. Se a meia usada por baixo do corte tiver tonalidade diferente da parte original do meião, o árbitro orienta a correção do equipamento verbalmente. Caso o jogador não regularize a situação na parada seguinte da partida, a infração pode resultar em cartão amarelo.
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