Favorita em 2005, a Seleção caiu diante de Portugal e viu a França ser campeã. Em 2006, voltou à mesma areia, goleou o Canadá por 12 a 1, eliminou os portugueses e derrotou o Uruguai por 4 a 1 na final.

Por Giro do Esporte

Atualizado em 30 de setembro de 2026

Quando o Brasil entrou na arena de Copacabana para enfrentar o Uruguai em 12 de novembro de 2006, não disputava a primeira Copa do Mundo de Futebol de Areia organizada pela FIFA. Tentava corrigir o que havia acontecido exatamente no mesmo lugar um ano antes, quando recebeu a edição inaugural sob a administração da entidade e não conseguiu chegar à final.

A FIFA havia incorporado oficialmente o futebol de areia em 2005 e realizado naquele ano, também em Copacabana, sua primeira Copa do Mundo da modalidade. O Brasil era favorito e chegou a contar com Romário, mas perdeu uma semifinal espetacular para Portugal depois de um empate por 6 a 6 e uma disputa de pênaltis. A França de Eric Cantona acabou campeã ao superar os portugueses na decisão.

Por isso, o torneio de 2006 tinha um significado especial. O Brasil possuía uma história vitoriosa nos campeonatos mundiais anteriores à FIFA, mas ainda não havia levantado o novo troféu oficial da entidade. Doze meses depois da frustração, voltou à Praia de Copacabana e produziu uma campanha devastadora: seis vitórias em seis jogos, 52 gols marcados e 16 sofridos.

A consagração veio diante do Uruguai. Buru, Benjamin, Duda e Sidney marcaram na vitória por 4 a 1, resultado que deu ao Brasil seu primeiro título da Copa do Mundo de Futebol de Areia da FIFA e iniciou uma sequência de domínio que se estenderia pelas quatro primeiras conquistas brasileiras da era FIFA.

O futebol de areia já tinha campeões mundiais antes de a FIFA assumir o torneio

A história internacional da modalidade não começou em 2006, nem mesmo em 2005. O futebol praticado nas praias brasileiras foi sendo transformado em produto esportivo organizado durante os anos 1990, com regras padronizadas, competições internacionais e jogadores que passaram a se especializar na areia.

A primeira competição mundial desse ciclo foi realizada em 1995, no Rio de Janeiro. O Brasil dominou amplamente aquela fase anterior à FIFA e construiu boa parte da reputação que carregaria quando a entidade máxima do futebol decidiu incorporar oficialmente a modalidade dez anos depois.

A mudança ocorreu em 2005. A própria FIFA registra aquele torneio de Copacabana como a primeira FIFA Beach Soccer World Cup. Isso significa que chamar a edição de 2006 de “primeiro Mundial FIFA” é incorreto: ela foi a segunda edição organizada pela entidade.

O que aconteceu em 2006 foi diferente e, para o Brasil, igualmente histórico. Pela primeira vez, a seleção que havia dominado os antigos Mundiais conseguiu conquistar o campeonato sob a chancela da FIFA.

Em 2005, Portugal estragou a festa brasileira na mesma areia

A expectativa para o primeiro Mundial FIFA era enorme. Além da tradição da seleção, o Brasil levou Romário para o torneio, acrescentando ao espetáculo uma das maiores estrelas do futebol de campo do país. O roteiro parecia caminhar para uma final de enorme apelo até o encontro com Portugal.

Na semifinal, Brasil e Portugal protagonizaram um empate por 6 a 6. Madjer marcou quatro vezes para os portugueses e depois converteu a cobrança que definiu a disputa por pênaltis em 2 a 1. A seleção anfitriã estava eliminada dentro de Copacabana.

Portugal também não seria campeão. Na final, enfrentou a França de Eric Cantona, que havia se transformado em técnico e jogador da seleção francesa de futebol de areia. O confronto terminou 3 a 3 e novamente foi decidido nos pênaltis, desta vez com vitória francesa.

O Brasil terminou em terceiro ao derrotar o Japão. Para uma seleção acostumada a dominar os torneios mundiais anteriores, entretanto, ver outra equipe levantar em Copacabana o primeiro troféu mundial da FIFA produziu uma frustração que continuaria presente quando o campeonato retornasse ao Rio no ano seguinte.

Júnior Negão, capitão brasileiro em 2006, lembraria posteriormente exatamente dessa sensação. Em depoimento recuperado pela FIFA, contou que havia crescido no Leme, ao lado de Copacabana, e que a derrota de 2005 tinha sido particularmente dolorosa. Um ano depois, seria ele o responsável por levantar o troféu.

O Brasil marcou 29 gols somente na primeira fase de 2006

A edição seguinte cresceu para 16 seleções e foi disputada entre 2 e 12 de novembro de 2006. O Brasil começou deixando claro que a campanha seria muito diferente da anterior.

Na estreia, goleou a Polônia por 9 a 2. Depois vieram dez gols contra o Japão, numa vitória por 10 a 2, e outros dez diante dos Estados Unidos, no triunfo por 10 a 6. A seleção terminou a primeira fase com nove pontos e impressionantes 29 gols em três partidas.

O volume ofensivo não dependia de apenas um jogador. A equipe comandada por Alexandre Soares tinha nomes como Júnior Negão, Benjamin, Bruno Malias, Buru, Sidney, Bueno, Betinho e o goleiro Mão. A variedade de finalizadores dificultava a marcação e permitia ao Brasil manter uma intensidade ofensiva elevada mesmo com as substituições constantes características do futebol de areia.

Essa distribuição de gols é importante porque corrige outra versão comum sobre o torneio. Buru não foi o artilheiro da Copa de 2006 e tampouco recebeu a Bola de Ouro. O principal destaque individual da competição foi o português Madjer, que marcou 21 gols e recebeu tanto a Bola de Ouro quanto a Chuteira de Ouro.

Entre os brasileiros, Benjamin marcou 12 gols e terminou atrás apenas de Madjer na artilharia. Bruno Malias fez dez, enquanto Júnior Negão marcou nove. Buru, apesar de decisivo na final, terminou a competição com quatro gols.

O mata-mata começou com 12 a 1 e colocou Portugal novamente no caminho

Se a fase de grupos já havia mostrado o poder ofensivo brasileiro, as quartas de final produziram uma goleada ainda maior. O Canadá foi derrotado por 12 a 1, resultado que a FIFA registra entre os grandes placares da história da competição e como a maior vitória em uma partida de mata-mata do torneio.

A semifinal, porém, colocava diante do Brasil justamente a seleção responsável pelo trauma do ano anterior. Portugal continuava fortíssimo e tinha Madjer realizando uma competição extraordinária.

Desta vez, não houve disputa de pênaltis. O Brasil venceu por 7 a 4 e garantiu sua primeira presença na final desde que a FIFA assumira o Mundial. Sidney marcou três vezes, Bruno Malias fez dois gols e Betinho e Bueno completaram o placar brasileiro.

A classificação tinha um componente de revanche esportiva difícil de ignorar. Um ano antes, Portugal eliminara o anfitrião diante da torcida de Copacabana. Agora, no mesmo cenário, o Brasil retirava os portugueses da disputa pelo título.

Do outro lado da chave, o Uruguai eliminou a então campeã França. O jogo terminou 2 a 2 depois da prorrogação e os uruguaios venceram a disputa por pênaltis.

Brasil x Uruguai colocou outra vez uma final mundial em solo carioca

A decisão carregava uma coincidência histórica impossível de passar despercebida. Brasil e Uruguai voltavam a disputar um título mundial no Rio de Janeiro, ainda que em outra modalidade e em circunstâncias completamente diferentes das de 1950.

Não havia relação esportiva direta entre o Maracanazo e a final de Copacabana, mas a comparação era inevitável. A própria FIFA posteriormente recordaria que a última vez que Brasil e Uruguai haviam se encontrado numa partida decisiva de um Mundial no Rio terminara com uma das derrotas mais traumáticas da história do futebol brasileiro. Em 2006, porém, a história na areia tomou outro rumo.

O Brasil ainda chegou à decisão com um problema relevante. Bruno Malias, um de seus principais goleadores e autor de dez gols no campeonato, estava suspenso. Mesmo sem ele, a equipe controlou a final.

Buru abriu o placar aos 11 minutos. Ricar empatou para o Uruguai aos 14, deixando a partida em 1 a 1, mas Benjamin recolocou o Brasil na frente três minutos depois. Na sequência, Duda marcou aos 26 e Sidney fechou o placar aos 34.

Brasil 4, Uruguai 1.

A arena de Copacabana tinha capacidade registrada de aproximadamente 10 mil espectadores, e a final aparece com lotação de 10 mil. Isso sustenta a imagem de arquibancadas cheias, mas não a afirmação de que “mais de 10 mil” estivessem dentro da arena em cada partida do campeonato.

Madjer foi o melhor jogador do Mundial, apesar do título brasileiro

A conquista coletiva do Brasil não significou domínio absoluto nas premiações individuais. Madjer terminou o torneio com 21 gols, quase o dobro dos 12 de Benjamin, e recebeu a Bola de Ouro de melhor jogador e a Chuteira de Ouro de artilheiro. O português havia sido algoz brasileiro em 2005 e continuava sendo uma das figuras mais importantes do futebol de areia mundial.

Benjamin ficou com a Bola de Prata e também com a Chuteira de Prata. Bruno Malias apareceu em terceiro nas duas premiações, com dez gols. Esses resultados ajudam a dimensionar a força do elenco brasileiro: mesmo sem possuir o principal jogador individual da competição, a seleção colocou dois atletas imediatamente atrás de Madjer.

O Brasil também não precisou depender de um artilheiro isolado para chegar aos 52 gols em seis partidas, média superior a oito por jogo. Foram 29 gols na fase de grupos, 12 contra o Canadá, sete diante de Portugal e quatro na final.

A comparação com a campanha anterior torna a conquista ainda mais significativa. Em 2005, o Brasil tinha Romário, jogava em casa e era apontado como favorito, mas parou na semifinal. Em 2006, sem precisar de uma estrela do futebol de campo para concentrar as atenções, a seleção especializada na areia finalmente venceu o Mundial FIFA.

Júnior Negão recebeu o troféu em uma praia que conhecia desde criança

Depois do apito final, o capitão Júnior Negão recebeu o troféu em Copacabana. Para um jogador criado no vizinho bairro do Leme, o cenário tornava a conquista particularmente simbólica.

Anos depois, ele lembraria à FIFA que havia sido estranho perder o primeiro Mundial da entidade justamente em casa. Ao falar sobre 2006, definiu a sensação de levantar o troféu como capitão em sua própria cidade como especialmente emocionante. A conquista transformou a frustração de 2005 em ponto de partida para um período de enorme domínio.

O título de 2006 seria apenas o primeiro dessa nova fase. O Brasil conquistou novamente o Mundial FIFA em 2007, 2008 e 2009, formando uma sequência de quatro títulos consecutivos. A modalidade começou a enfrentar uma concorrência internacional cada vez maior, mas a seleção continuaria como principal referência histórica do torneio.

A edição de 2006 também não deve ser descrita como o momento em que o futebol de areia se tornou internacional. O processo havia começado muito antes e, segundo a própria FIFA, competições dos anos 1990 já tinham ajudado a espalhar o esporte por países da Europa, Ásia e América. O Mundial FIFA ampliou e institucionalizou uma expansão que já estava em curso.

Copacabana não recebeu o primeiro título mundial do Brasil, mas recebeu aquele que faltava

A diferença parece pequena, mas muda completamente o significado histórico de 2006. O Brasil já havia sido campeão mundial diversas vezes nos campeonatos anteriores à administração da FIFA. Também não estava participando do primeiro Mundial organizado pela entidade, porque essa edição ocorrera um ano antes.

O que faltava era justamente ganhar sob a nova estrutura da FIFA.

A conquista também teve um roteiro que dificilmente poderia ser mais apropriado. O Brasil perdeu o primeiro Mundial FIFA em sua própria praia, viu Portugal arruinar a campanha de 2005 e retornou ao mesmo local no ano seguinte. Marcou 52 gols, aplicou 12 a 1 nas quartas, eliminou Portugal na semifinal e chegou à decisão contra o Uruguai.

Buru, Benjamin, Duda e Sidney fizeram os gols do 4 a 1 que encerrou a espera. Júnior Negão levantou a taça, e o Brasil iniciou ali uma sequência de quatro títulos consecutivos da Copa do Mundo da FIFA.

Copacabana, portanto, não foi o lugar onde o Brasil descobriu o futebol de areia nem onde conquistou seu primeiro título mundial da modalidade. Foi o cenário em que, um ano depois de perder a primeira Copa organizada pela FIFA em casa, a maior potência histórica das areias finalmente conquistou o troféu que ainda não possuía.

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