Em 10 de setembro de 1960, o soldado etíope venceu os 42,195 km em 2h15min16s2, então melhor marca mundial, e conquistou o primeiro ouro olímpico de um atleta negro representando uma nação africana. Quatro anos depois, faria algo que nenhum maratonista havia conseguido.
Por Giro do Esporte
Atualizado em 30 de setembro de 2026
Quando Abebe Bikila atravessou a linha de chegada diante do Arco de Constantino, em Roma, já era noite. Soldados italianos seguravam tochas ao longo de partes do percurso, o Coliseu aparecia ao fundo e o etíope de 28 anos terminava os 42,195 quilômetros sem um par de tênis nos pés.
O cronômetro marcou 2h15min16s2, então a melhor marca mundial para a maratona e 0,8 segundo abaixo da referência anterior do soviético Sergei Popov. Bikila também se tornou o primeiro atleta negro representando uma nação africana a conquistar uma medalha de ouro olímpica, um marco que precedeu a explosão de resultados de corredores da África Oriental nas décadas seguintes.
Mas existe um detalhe menos conhecido que transforma aquela vitória em algo ainda mais carregado de significado. Aproximadamente 500 metros antes da chegada, Bikila fez seu ataque definitivo contra o marroquino Rhadi Ben Abdesselam nas proximidades do Obelisco de Axum, monumento retirado da Etiópia pelas forças da Itália fascista depois da invasão do país africano.
Vinte e quatro anos depois da ocupação italiana, um etíope passava diante daquele símbolo para deixar para trás seu último adversário e conquistar o ouro olímpico na própria capital italiana.
Bikila não chegou a Roma como um homem escolhido às pressas para correr uma maratona
Uma das versões mais repetidas da história afirma que Bikila teria entrado na equipe olímpica praticamente no último instante, apenas porque outro atleta etíope se lesionou. Há fontes que relatam uma alteração tardia na composição da delegação, mas os registros de sua preparação mostram que tratá-lo simplesmente como substituto improvisado distorce sua trajetória.
Bikila já vinha sendo preparado pelo técnico sueco Onni Niskanen, responsável por atletas ligados à Guarda Imperial etíope. Antes dos Jogos, venceu uma prova de seleção em altitude em 2h21min23s, marca melhor que o então recorde olímpico. Esse desempenho garantiu seu lugar entre os maratonistas enviados a Roma. Portanto, embora fosse praticamente desconhecido fora da Etiópia, seu potencial não era surpresa para quem acompanhava sua preparação.
Sua trajetória até aquele ponto também era incomum. Nascido em 1932, Bikila ingressara na Guarda Imperial e treinava nas condições de altitude da Etiópia. Niskanen percebeu sua capacidade para corridas de longa distância e desenvolveu um programa que combinava resistência, força e preparação em terrenos variados.
Roma seria uma de suas primeiras grandes oportunidades internacionais. Para boa parte da imprensa e dos adversários, ele era apenas um corredor africano desconhecido. Para sua equipe, havia razões concretas para acreditar que pudesse acompanhar os melhores do mundo.
Ele não correu descalço porque a Etiópia não podia comprar tênis
A ausência de calçados se tornou tão associada a Bikila que acabou produzindo uma explicação simplificada: um atleta de um país pobre teria chegado à Olimpíada sem tênis adequados e sido obrigado a correr descalço. A história real é diferente.
Bikila estava habituado a treinar tanto com quanto sem calçados. Nos dias anteriores à prova, os tênis que utilizava apresentaram problemas e ele experimentou outro par em Roma. O teste provocou bolhas e desconforto, levando-o a escolher a condição com a qual já tinha experiência: correr descalço. A World Athletics registra que os calçados originais haviam se deteriorado e que um novo par comprado em Roma provocou bolhas. A decisão, portanto, não nasceu de falta de recursos no momento da largada.
A associação específica com a Adidas também exige cuidado. Algumas reconstruções afirmam que Bikila experimentou pares fornecidos pela empresa, mas fontes especializadas que reconstituíram sua história apontam incerteza sobre a marca exata do calçado testado. O fato bem documentado é que os novos tênis não funcionaram para seus pés e que ele preferiu competir sem eles.
Essa diferença importa porque muda a interpretação da corrida. Bikila não improvisou uma maratona descalço sem preparação. Ele escolheu competir numa condição com a qual estava familiarizado porque julgou que um calçado inadequado seria um problema maior.
A primeira maratona olímpica noturna começou às 17h30
Roma oferecia outro desafio: o calor de setembro. A organização marcou a largada para 17h30, evitando as horas mais quentes e fazendo com que grande parte da prova fosse disputada depois do pôr do sol.
A World Athletics registra 69 atletas de 35 países na largada, com temperatura em torno de 23°C. O percurso saiu da região do Capitólio, atravessou diferentes partes da capital e utilizou trechos históricos como a Via Ápia antes de retornar para a chegada diante do Arco de Constantino.
A prova também rompeu uma tradição olímpica. Em vez de terminar dentro do estádio principal, a maratona teve sua chegada montada junto a um dos monumentos mais conhecidos da Roma antiga. A iluminação reforçou o caráter teatral: centenas de soldados italianos seguravam tochas ao longo de trechos do caminho enquanto os corredores avançavam pela noite.
A World Athletics considera aquela a primeira maratona olímpica disputada à noite. Décadas antes de provas noturnas se tornarem comuns em grandes eventos de rua, Roma produziu uma das imagens mais cinematográficas da história dos Jogos.
Aos 20 quilômetros, a disputa começou a se transformar num duelo africano
Bikila não atacou imediatamente. Nos quilômetros iniciais, permaneceu próximo ao grupo dianteiro enquanto a seleção natural de uma maratona em ritmo elevado eliminava progressivamente os concorrentes.
Por volta dos 20 quilômetros, o etíope e Rhadi Ben Abdesselam, do Marrocos, já começavam a se destacar. A dupla passou a metade da prova em aproximadamente 1h06min40s e continuou ampliando a diferença sobre os perseguidores.
Aos 30 quilômetros, a vantagem sobre os atletas que vinham atrás já superava dois minutos. Aos 35 km, Bikila e Rhadi continuavam juntos, marcando cerca de 1h50min27s. O ouro havia se transformado essencialmente numa disputa entre dois corredores africanos.
Esse detalhe também ajudava a antecipar uma mudança no atletismo mundial. Os três medalhistas de Roma, Bikila, Rhadi e o neozelandês Barry Magee, representavam países que nunca haviam conquistado uma medalha olímpica na maratona. A prova estava produzindo uma ruptura com a geografia tradicional da modalidade.
O ataque decisivo aconteceu diante de um símbolo da ocupação da Etiópia
Depois dos 40 quilômetros, Rhadi tentou acelerar. Bikila respondeu. Os dois continuaram próximos até aproximadamente 500 metros da chegada, quando o etíope finalmente aumentou o ritmo na Piazza di Porta Capena.
Ali estava o Obelisco de Axum.
O monumento havia sido retirado da cidade etíope de Axum depois da invasão promovida pela Itália de Benito Mussolini em 1935 e da ocupação consolidada no ano seguinte. Transportado para Roma como troféu imperial, o obelisco permaneceu na capital italiana durante décadas.
A World Athletics registra que foi justamente nessa região que Bikila fez seu movimento decisivo. O acervo do Museu Olímpico também situa o ataque próximo ao monumento e destaca sua origem etíope. A coincidência transformou a reta final numa cena de enorme força histórica.
É tentador afirmar que Bikila escolheu conscientemente aquele ponto por causa do significado político do obelisco. Algumas narrativas posteriores fazem essa associação diretamente, mas as fontes não são totalmente uniformes sobre até que ponto o simbolismo determinou sua estratégia. O fato seguro é que o ataque aconteceu naquela região e que o monumento estava ali como consequência da ocupação italiana.
Bikila abriu vantagem. Rhadi não conseguiu responder.
Um obstáculo inesperado ainda apareceu nos últimos metros
A corrida quase produziu outra cena insólita antes da chegada. Já isolado na liderança, Bikila precisou desviar de uma motoneta que havia entrado no percurso nos instantes finais. A World Athletics registra o episódio nos últimos 60 metros da prova. Mesmo assim, o etíope manteve a vantagem.
Ele passou sob a iluminação das tochas e cruzou a linha diante do Arco de Constantino em 2h15min16s2. Rhadi chegou 25 segundos depois, em 2h15min41s6, enquanto Barry Magee conquistou o bronze.
O tempo de Bikila melhorou por apenas oito décimos de segundo a marca mundial anterior de Sergei Popov. Em uma corrida de mais de duas horas e quinze minutos, a diferença para a referência mundial foi inferior a um segundo.
A imagem que permaneceu, porém, não foi a do cronômetro. Foi a de um atleta africano correndo sem sapatos pela capital de uma antiga potência colonial, deixando para trás seus adversários diante de monumentos romanos e de um símbolo retirado de seu próprio país.
O ouro foi um marco para a África, mas a definição histórica precisa ser precisa
A vitória de Bikila costuma ser descrita como a primeira medalha de ouro olímpica da África Subsaariana. Essa formulação é amplamente utilizada e ajuda a situar a importância regional do resultado, mas a World Athletics oferece uma definição ainda mais específica: ele foi o primeiro atleta negro representando uma nação africana a conquistar ouro nos Jogos Olímpicos.
Também foi o primeiro ouro olímpico da Etiópia. O país se tornaria nas décadas seguintes uma das grandes potências mundiais das provas de longa distância, produzindo campeões como Mamo Wolde, Miruts Yifter, Haile Gebrselassie, Kenenisa Bekele e outros nomes que ampliariam essa tradição.
A vitória de Bikila não criou sozinha a força do atletismo africano. Talento, altitude, estruturas de treinamento, tradições esportivas e transformações sociais posteriores fazem parte de uma explicação muito mais complexa.
Mas Roma forneceu uma demonstração impossível de ignorar. Um atleta praticamente desconhecido pelo público internacional derrotara os melhores maratonistas olímpicos e estabelecera a melhor marca mundial.
Quatro anos depois, uma cirurgia tornou sua defesa do título ainda mais improvável
Se a história terminasse em Roma, Bikila já teria lugar garantido entre os grandes personagens olímpicos. O que aconteceu em Tóquio 1964 ampliou ainda mais sua importância.
Apenas cerca de seis semanas antes dos Jogos, ele precisou passar por uma cirurgia de apêndice. Sua capacidade de defender o título passou a ser questionada. Quando chegou ao Japão, desta vez usando tênis, voltou a enfrentar os melhores maratonistas do mundo.
Bikila não apenas venceu. Completou a prova em 2h12min11s2, quase dois minutos abaixo da melhor marca mundial anterior. Depois de cruzar a linha, ainda realizou exercícios de alongamento e calistenia diante das câmeras, uma cena que reforçou a impressão de domínio.
Com a vitória, tornou-se o primeiro homem a conquistar duas maratonas olímpicas. Até então, desde a criação dos Jogos modernos em 1896, nenhum campeão da prova havia conseguido defender o título.
Em Roma ele vencera descalço. Em Tóquio venceu calçado. O elemento comum não eram os pés nus, mas a superioridade de um corredor excepcional.
A história de Bikila não terminou com seus dois ouros
Bikila tentou um terceiro título olímpico na Cidade do México, em 1968, mas problemas físicos o obrigaram a abandonar a maratona. No ano seguinte, sua vida mudou de forma muito mais profunda.
Em 1969, sofreu um grave acidente automobilístico na Etiópia. Lesões na coluna o deixaram com paralisia, e ele passou a utilizar cadeira de rodas. Mesmo assim, continuou envolvido com o esporte e participou de competições destinadas a atletas com deficiência.
Bikila morreu em 25 de outubro de 1973, aos 41 anos, após uma hemorragia cerebral relacionada às complicações de suas lesões. Sua carreira competitiva havia sido relativamente curta, mas extraordinariamente eficiente: a World Athletics registra que venceu 12 das 13 maratonas que disputou entre 1960 e 1966. A estatística ajuda a mostrar que Roma não foi um acidente produzido por tênis ruins ou por uma noite inspirada.
Sua influência atravessou gerações. O domínio posterior de etíopes e quenianos nas provas de longa distância possui causas muito maiores do que um único atleta, mas Bikila foi o primeiro grande símbolo olímpico dessa transformação.
O detalhe mais famoso da vitória também é o que mais esconde sua grandeza
Sessenta e seis anos depois, dizer que Abebe Bikila “venceu uma maratona olímpica descalço” continua sendo suficiente para despertar curiosidade. É uma imagem tão poderosa que frequentemente engole o restante da história.
Mas os pés nus não explicam o desempenho. Bikila correu 42,195 quilômetros em 2h15min16s2, estabeleceu a melhor marca mundial, derrotou Rhadi Ben Abdesselam num duelo de altíssimo nível e terminou a prova suficientemente forte para produzir uma aceleração decisiva depois dos 40 quilômetros.
Também não era um desconhecido escolhido por acaso algumas horas antes da corrida. Havia vencido a seletiva etíope em 2h21min23s, tempo que já demonstrava seu potencial. E não correu descalço porque seu país fosse incapaz de fornecer tênis: experimentou calçados, teve problemas e escolheu uma condição com a qual estava acostumado.
A coincidência histórica tornou tudo ainda mais extraordinário. O homem que representava uma Etiópia invadida pela Itália fascista pouco mais de duas décadas antes fez seu ataque definitivo próximo a um monumento retirado de seu país durante aquela ocupação.
Depois passou pelo Coliseu, chegou diante do Arco de Constantino e tornou-se campeão olímpico.
Quatro anos mais tarde, já usando tênis, venceu novamente e provou definitivamente que a lenda nunca esteve nos pés descalços. Estava no corredor.
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