Aos 19 anos, Yuzuru Hanyu fez história com 101,45 pontos no programa curto da patinação artística. No dia seguinte, dois erros ameaçaram o título, mas o japonês superou Patrick Chan por 4,47 pontos e iniciou uma sequência de dois ouros olímpicos.
Por Marcio Tamer
Atualizado em 10 de outubro de 2026
Yuzuru Hanyu entrou para a história da patinação artística em 13 de fevereiro de 2014, quando recebeu 101,45 pontos pelo programa curto dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sóchi, na Rússia. Aos 19 anos, tornou-se o primeiro homem a ultrapassar a barreira dos 100 pontos nesse segmento em uma competição internacional reconhecida pela União Internacional de Patinação (ISU).
O resultado foi tão expressivo que colocou o japonês na liderança antes do programa livre, disputado no dia seguinte. Mas a conquista olímpica esteve longe de ser uma apresentação perfeita do início ao fim. Em 14 de fevereiro, Hanyu sofreu duas quedas durante sua série e viu o canadense Patrick Chan ganhar uma oportunidade de assumir a liderança.
O desfecho contrariou a expectativa de uma decisão definida apenas por apresentações sem erros. Hanyu terminou com 280,09 pontos, contra 275,62 de Chan, e conquistou o primeiro ouro olímpico masculino da história do Japão na patinação artística.
A vantagem final de 4,47 pontos mostrou como a pontuação recorde do programa curto foi decisiva. Também revelou uma característica importante da modalidade: a vitória depende da soma de dois programas, e uma apresentação com falhas pode continuar competitiva quando a dificuldade e os demais elementos rendem notas suficientes.
Antes de Sóchi, Hanyu já havia chegado muito perto dos 100 pontos
A marca de 101,45 pontos não surgiu inesperadamente. Dois meses antes dos Jogos, em dezembro de 2013, Hanyu havia conquistado a Final do Grand Prix, em Fukuoka, no Japão, com um programa curto avaliado em 99,84 pontos.
A pontuação já representava um recorde mundial e deixava o japonês a apenas 0,16 ponto da barreira simbólica dos 100.
Naquela competição, Hanyu superou Patrick Chan, então tricampeão mundial e principal referência da patinação artística masculina. O resultado indicava que a disputa olímpica poderia ser mais equilibrada do que sugeria a experiência do canadense.
Chan havia conquistado os Campeonatos Mundiais de 2011, 2012 e 2013, enquanto Hanyu chegava aos Jogos como um jovem talento em ascensão, treinado pelo canadense Brian Orser, medalhista olímpico e técnico de destaque.
A diferença de idade e experiência reforçava o contraste entre os dois. Chan tinha 23 anos e já havia dominado a modalidade durante três temporadas. Hanyu, com 19, buscava seu primeiro título olímpico e ainda não havia vencido um Campeonato Mundial adulto.
O programa curto de Sóchi seria o primeiro grande teste desse confronto.
Como Hanyu alcançou os históricos 101,45 pontos no programa curto?
Em 13 de fevereiro, Hanyu entrou no gelo do Palácio de Patinação Iceberg ao som de Parisienne Walkways, do guitarrista Gary Moore.
A apresentação combinou saltos de alta dificuldade, giros, sequências de passos e interpretação musical. O japonês executou um toeloop quádruplo, um axel triplo e uma combinação de lutz triplo com toeloop triplo, elementos que ajudaram a construir uma pontuação técnica elevada.
O axel triplo merece uma explicação. Diferentemente de outros saltos, o axel começa com a impulsão de frente e termina com a aterrissagem de costas. Por isso, exige três rotações e meia para ser considerado triplo.
O movimento é difícil, mas não foi inventado por Hanyu. Patinadores já executavam o axel triplo havia décadas. O feito histórico de Sóchi foi a pontuação total do programa curto, não a realização inédita desse salto.
A nota de 101,45 pontos representou um novo recorde mundial sob o sistema de julgamento da ISU. Hanyu tornou-se o primeiro homem a superar os 100 pontos no programa curto em competição internacional oficial.
Patrick Chan também apresentou uma série forte e terminou em segundo, com 97,52 pontos. A diferença entre os dois foi de 3,93 pontos, vantagem significativa antes do programa livre.
A liderança, porém, ainda não garantia o ouro. O segundo segmento tinha peso maior na pontuação total, e qualquer erro importante poderia mudar a classificação.
O programa livre teve duas quedas e colocou o título em risco
No dia 14 de fevereiro, Hanyu voltou ao gelo para apresentar seu programa livre, inspirado na trilha sonora de Romeu e Julieta, composta por Nino Rota.
A expectativa era de uma apresentação capaz de confirmar a superioridade demonstrada no programa curto. Mas o japonês começou com dificuldades.
Hanyu caiu na tentativa de executar um salchow quádruplo e sofreu outra queda durante um flip triplo. Os erros provocaram descontos e reduziram a pontuação que poderia alcançar.
Mesmo assim, o restante da apresentação manteve elementos de dificuldade suficiente para que ele continuasse na disputa pelo ouro. Hanyu completou a série e recebeu 178,64 pontos no programa livre.
A soma chegou a 280,09 pontos.
A situação ainda não estava resolvida. Patrick Chan, seu principal adversário, entraria em seguida com a possibilidade de conquistar o título olímpico.
O canadense também cometeu erros durante sua apresentação. Apesar de mostrar qualidade técnica e artística, não conseguiu produzir a pontuação necessária para superar Hanyu.
Chan recebeu 178,10 pontos no programa livre, apenas 0,54 ponto a menos que o japonês. Na soma geral, terminou com 275,62, ficando com a medalha de prata.
O bronze foi conquistado por Denis Ten, do Cazaquistão, com 255,10 pontos.
A diferença final entre Hanyu e Chan foi de 4,47 pontos. A liderança construída no programa curto havia sido fundamental para o desfecho, embora o japonês também tenha obtido a maior nota do programa livre.
O que os números revelam sobre a vitória de Hanyu?
A comparação entre os dois primeiros colocados mostra por que o programa curto teve tanta importância no resultado.
| Resultado | Yuzuru Hanyu | Patrick Chan |
|---|---|---|
| Programa curto | 101,45 | 97,52 |
| Programa livre | 178,64 | 178,10 |
| Pontuação total | 280,09 | 275,62 |
| Classificação | Ouro | Prata |
Hanyu terminou à frente de Chan nos dois segmentos. No programa curto, a vantagem foi de 3,93 pontos; no livre, caiu para apenas 0,54 ponto.
Isso significa que a maior parte da diferença final foi construída na apresentação recordista de 13 de fevereiro. Mesmo com os erros do dia seguinte, Hanyu conseguiu preservar sua liderança.
A pontuação também precisa ser interpretada dentro do sistema de julgamento da época. Os resultados combinavam notas dos elementos técnicos, avaliações dos componentes do programa e descontos por infrações ou quedas.
Por isso, a expressão apresentação perfeita não descreve corretamente toda a campanha olímpica de Hanyu. Seu programa curto foi histórico, mas o programa livre teve falhas importantes. A conquista surgiu da combinação entre uma apresentação excepcional e a capacidade de manter pontuação competitiva mesmo após os erros.
O ouro foi o primeiro do Japão na patinação artística masculina
A vitória em Sóchi representou um marco para a patinação japonesa. Hanyu tornou-se o primeiro homem do país a conquistar ouro olímpico na modalidade e também o primeiro homem asiático campeão olímpico no individual masculino.
O Japão já possuía tradição na patinação artística. Em 2006, Shizuka Arakawa havia conquistado o ouro feminino nos Jogos de Turim. Quatro anos depois, em Vancouver 2010, Daisuke Takahashi conquistara o bronze masculino.
Hanyu ampliou essa trajetória ao alcançar o topo do pódio numa competição dominada historicamente por representantes da Europa e da América do Norte.
Aos 19 anos e dois meses, tornou-se ainda o campeão olímpico masculino mais jovem da patinação artística desde Dick Button, vencedor aos 18 anos em St. Moritz 1948.
A comparação com Button ganharia importância quatro anos depois, quando Hanyu voltaria a conquistar o ouro e encerraria uma espera de 66 anos por um bicampeão olímpico consecutivo no individual masculino.
O terremoto de 2011 marcou a preparação do jovem patinador
A história de Hanyu também está ligada a Sendai, cidade japonesa atingida pelo terremoto e tsunami de 11 de março de 2011.
Na época, ele tinha 16 anos e treinava na região. O desastre danificou sua casa e o rinque que utilizava, interrompendo parte de sua rotina de preparação.
Segundo o histórico divulgado pela ISU, Hanyu precisou treinar temporariamente em Yokohama enquanto aguardava a reabertura de sua pista habitual, que ocorreu cerca de quatro meses depois.
A experiência não explica sozinha suas conquistas esportivas, mas ajuda a compreender os obstáculos enfrentados antes da estreia olímpica.
Em 2012, o japonês passou a treinar no Canadá, sob orientação de Brian Orser. A mudança ofereceu uma nova estrutura de preparação e ampliou seu contato com outros patinadores de elite.
Quando chegou a Sóchi, dois anos depois, Hanyu já havia transformado o potencial demonstrado nas categorias de base em resultados importantes no circuito internacional.
O segundo ouro em 2018 confirmou que Sóchi não havia sido um episódio isolado
Em Pyeongchang 2018, Hanyu voltou aos Jogos Olímpicos como atual campeão. Sua preparação, porém, havia sido prejudicada por uma lesão no tornozelo direito, sofrida meses antes da competição.
Mesmo com o período de recuperação, apresentou um programa curto de 111,68 pontos e um programa livre de 206,17, encerrando a disputa com 317,85 pontos.
O resultado garantiu seu segundo ouro olímpico consecutivo, com o compatriota Shoma Uno conquistando a prata e o espanhol Javier Fernández ficando com o bronze.
Hanyu tornou-se o primeiro homem a defender com sucesso o título olímpico individual da patinação artística desde Dick Button, campeão em 1948 e 1952.
A conquista consolidou sua posição entre os maiores nomes da modalidade e demonstrou que o sucesso de Sóchi havia sido o início de uma trajetória de alto nível.
Ao longo da carreira, o japonês também conquistou os Campeonatos Mundiais de 2014 e 2017, além de estabelecer diversas marcas históricas de pontuação.
Em 2015, tornou-se o primeiro patinador masculino a ultrapassar 300 pontos na soma dos dois programas em competição internacional, alcançando 322,40 pontos no NHK Trophy.
A evolução das marcas mostrou como a patinação masculina avançava tecnicamente, com saltos quádruplos cada vez mais presentes e programas construídos para maximizar dificuldade e qualidade de execução.
O que aconteceu com Hanyu depois dos Jogos Olímpicos?
Hanyu disputou sua terceira Olimpíada em Pequim 2022, quando terminou na quarta posição.
Naquela edição, tentou executar o axel quádruplo, salto que exige quatro rotações e meia no ar. A tentativa não resultou em uma execução completa e limpa, mas demonstrou sua disposição de continuar buscando novos limites técnicos.
Em julho de 2022, Hanyu anunciou que deixaria as competições oficiais para seguir carreira profissional, concentrando-se em espetáculos e apresentações de patinação.
A mudança não significou abandonar o gelo. O japonês passou a desenvolver projetos próprios, nos quais combina patinação, música e produção artística.
Seu legado competitivo permanece associado a duas conquistas olímpicas consecutivas, recordes de pontuação e uma contribuição importante para a popularização da patinação artística masculina, especialmente no Japão.
Do recorde de 101,45 pontos ao bicampeonato olímpico
A campanha de Sóchi 2014 ocupa um lugar especial na história da patinação artística porque reuniu uma marca técnica inédita e uma vitória conquistada sob pressão.
O programa curto de 101,45 pontos demonstrou que Hanyu havia alcançado um nível de dificuldade e execução capaz de superar a barreira simbólica dos 100 pontos.
O programa livre, com duas quedas, mostrou que o título não foi resultado de uma competição sem falhas. O japonês precisou administrar a vantagem construída no dia anterior e resistir à tentativa de recuperação de Patrick Chan.
A vitória por 280,09 a 275,62 pontos garantiu ao Japão seu primeiro ouro olímpico masculino na modalidade e colocou Hanyu numa trajetória que culminaria no bicampeonato de 2018.
Mais de uma década depois, Sóchi continua sendo lembrada não apenas pelo recorde, mas pelo contraste entre a apresentação brilhante do primeiro dia e a tensão da decisão.
Aos 19 anos, Yuzuru Hanyu não precisou de duas apresentações perfeitas para fazer história. Precisou de uma pontuação inédita, dificuldade técnica elevada e pontos suficientes para permanecer à frente quando a medalha de ouro foi decidida.
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