O jamaicano venceu os 100m, os 200m e o revezamento 4x100m pela terceira Olimpíada consecutiva, mas a desclassificação posterior da equipe de Pequim 2008 mudou sua contagem oficial de nove para oito ouros.

Por Marcio Tamer

Atualizado em 9 de outubro de 2026

Usain Bolt cruzou a linha de chegada do revezamento 4×100 metros em 19 de agosto de 2016, no Estádio Olímpico Nilton Santos, no Rio de Janeiro, e comemorou uma conquista que nenhum velocista havia alcançado antes. Aos 29 anos, o jamaicano acabava de vencer os 100 metros, os 200 metros e o revezamento 4×100 metros pela terceira edição consecutiva dos Jogos Olímpicos.

O chamado triplo-triplo parecia completo. Bolt havia repetido no Rio as três vitórias conquistadas em Pequim 2008 e Londres 2012, encerrando sua trajetória olímpica com nove ouros em nove finais disputadas.

A história, porém, sofreu uma mudança importante meses depois. Em janeiro de 2017, o Comitê Olímpico Internacional desclassificou a equipe jamaicana do revezamento 4×100 metros de Pequim 2008 após a reanálise de uma amostra de Nesta Carter, companheiro de Bolt, apontar uma violação antidoping.

A decisão retirou oficialmente aquela medalha de ouro de todos os integrantes da equipe, inclusive Bolt. Assim, o jamaicano terminou sua carreira com oito ouros olímpicos reconhecidos oficialmente, embora tenha cruzado a linha de chegada em primeiro nas nove provas que disputou em finais olímpicas.

Essa distinção é essencial para compreender o verdadeiro tamanho de sua campanha. O triplo-triplo aconteceu na pista, mas deixou de existir como sequência de nove medalhas oficialmente válidas.

Bolt chegou ao Rio após lesão e sob pressão para repetir um feito histórico

Em Pequim 2008, Bolt havia revolucionado a velocidade ao vencer os 100 metros em 9s69 e os 200 metros em 19s30, ambos com recordes mundiais na época. Também integrou a equipe jamaicana vencedora do revezamento 4×100 metros, resultado posteriormente anulado.

Quatro anos depois, em Londres 2012, repetiu as três vitórias. Conquistou os 100 metros em 9s63, recorde olímpico, os 200 metros em 19s32 e o revezamento 4×100 metros em 36s84, então recorde mundial.

O Rio seria sua terceira e última participação olímpica. A expectativa era enorme, mas a preparação não havia sido perfeita.

Em julho de 2016, Bolt desistiu da final dos 100 metros da seletiva jamaicana por causa de uma lesão muscular. Sua participação nos Jogos dependia de recuperação e de uma avaliação médica que confirmasse condições para competir.

A dúvida não era apenas se ele conseguiria correr. Era se teria velocidade suficiente para enfrentar adversários que chegavam ao Rio em alto nível, especialmente o norte-americano Justin Gatlin, um de seus principais rivais.

Bolt havia construído sua carreira sobre arrancadas poderosas, passadas longas e capacidade de acelerar depois dos primeiros metros. Aos 29 anos, porém, já não chegava aos Jogos com a mesma superioridade cronométrica demonstrada em 2008 e 2009.

A campanha brasileira seria menos sobre quebrar recordes mundiais e mais sobre vencer quando o resultado realmente importava.

Nos 100 metros, Gatlin largou melhor, mas Bolt venceu em 9s81

A final dos 100 metros rasos, disputada em 14 de agosto, colocou Bolt novamente diante de Justin Gatlin. O norte-americano havia registrado tempos competitivos ao longo da temporada e era apontado como um dos poucos atletas capazes de impedir o tricampeonato.

Gatlin teve uma largada forte e assumiu a liderança nos primeiros metros. Bolt, como em outras grandes finais, demorou um pouco mais para atingir sua velocidade máxima.

A diferença começou a diminuir na segunda metade da prova. O jamaicano ampliou as passadas, alcançou Gatlin e assumiu a primeira posição antes da linha de chegada.

Bolt venceu em 9s81, seguido por Gatlin, com 9s89, e pelo canadense Andre De Grasse, com 9s91.

O tempo ficou distante do recorde mundial de 9s58, estabelecido pelo próprio Bolt no Campeonato Mundial de Berlim, em 2009. Mas a marca representou algo que nenhum homem havia conseguido antes: três títulos olímpicos consecutivos nos 100 metros.

A vitória também confirmou que o jamaicano ainda possuía uma qualidade decisiva. Mesmo sem produzir suas melhores marcas históricas, conseguia elevar o rendimento nas grandes competições.

O sorriso na semifinal virou uma das imagens mais famosas do Rio 2016

Antes da final dos 100 metros, Bolt protagonizou uma cena que se espalhou pelo mundo.

Durante a semifinal, disputada no mesmo dia, o jamaicano olhou para o lado e sorriu enquanto avançava rumo à classificação. A fotografia capturada por Cameron Spencer, da Getty Images, mostrou Bolt aparentemente descontraído enquanto seus adversários se esforçavam para acompanhar o ritmo.

A imagem se tornou um dos registros mais compartilhados dos Jogos Olímpicos de 2016. O contraste entre o sorriso do campeão e a expressão de esforço dos outros corredores parecia resumir sua relação com a velocidade.

A fotografia, porém, não deve ser interpretada como prova de que Bolt venceu a semifinal sem esforço ou de que estava completamente despreocupado. Atletas de elite administram intensidade e energia nas fases classificatórias, especialmente quando precisam competir novamente poucas horas depois.

O sorriso era parte de uma personalidade pública construída ao longo de anos, marcada por celebrações, brincadeiras e uma relação próxima com as arquibancadas.

Na final, a descontração deu lugar à concentração. Bolt precisou superar uma largada inferior à de Gatlin e acelerar até os últimos metros para garantir o ouro.

A fotografia ficou famosa porque capturou seu carisma. A vitória mostrou que o espetáculo continuava sustentado por desempenho esportivo de altíssimo nível.

Nos 200 metros, Bolt venceu com folga e conquistou seu segundo ouro no Rio

Em 18 de agosto, Bolt disputou a final dos 200 metros rasos, distância em que havia estabelecido o recorde mundial de 19s19, em Berlim, sete anos antes.

O jamaicano dominou a curva e entrou na reta final em vantagem. Diferentemente da decisão dos 100 metros, não precisou superar um adversário que estivesse claramente à sua frente na segunda metade da prova.

Bolt venceu com 19s78, seguido pelo canadense Andre De Grasse, com 20s02, e pelo francês Christophe Lemaitre, com 20s12.

A diferença de 0,24 segundo para o segundo colocado foi expressiva numa final olímpica de velocidade. Ainda assim, Bolt demonstrou certa frustração com o tempo, porque havia manifestado o desejo de correr abaixo de 19 segundos, algo que nunca foi alcançado oficialmente por um atleta.

A vitória garantiu seu terceiro título olímpico consecutivo nos 200 metros, repetindo o feito alcançado nos 100 metros poucos dias antes.

Também confirmou uma característica central de sua carreira. Bolt não era apenas um especialista na prova mais curta do atletismo. Sua capacidade de manter velocidade elevada por 200 metros permitiu que dominasse as duas principais distâncias do sprint mundial durante quase uma década.

Restava o revezamento 4×100 metros. E, mais uma vez, a conquista dependeria do trabalho de quatro atletas.

O último ouro veio no 4×100 metros, mas Bolt recebeu o bastão de Nickel Ashmeade

Na noite de 19 de agosto, a Jamaica entrou na final do revezamento 4×100 metros com Asafa Powell, Yohan Blake, Nickel Ashmeade e Usain Bolt.

Powell abriu a prova, Blake correu a segunda parcial e Ashmeade assumiu a terceira. Foi Ashmeade, não Blake, quem entregou o bastão a Bolt para os 100 metros finais.

Quando recebeu o bastão, o jamaicano estava praticamente lado a lado com os principais adversários. Em poucos metros, abriu vantagem e deixou claro que a equipe conquistaria mais um título.

A Jamaica venceu em 37s27, seguida pelo Japão, que estabeleceu o recorde asiático de 37s60. O Canadá ficou com o bronze, em 37s64, após a desclassificação dos Estados Unidos por uma troca irregular de bastão. A World Athletics registrou a vitória jamaicana e os detalhes da desclassificação norte-americana em seu relatório oficial da final. <Cite ref=”turn138550search0″/>

O resultado completou, naquele momento, a sequência de três vitórias de Bolt em três provas por três edições consecutivas.

Foi sua despedida dos Jogos Olímpicos. O velocista comemorou com os companheiros, fez sua tradicional pose do raio e recebeu o reconhecimento do público no Estádio Nilton Santos.

A conquista era coletiva, mas também encerrava uma trajetória individual extraordinária: Bolt havia vencido todas as finais olímpicas de 100 e 200 metros que disputara entre 2008 e 2016.

O que aconteceu com o triplo-triplo depois do doping de Nesta Carter?

Em 25 de janeiro de 2017, o Comitê Olímpico Internacional anunciou a desclassificação da equipe jamaicana vencedora do revezamento 4×100 metros de Pequim 2008.

A decisão foi tomada após a reanálise de uma amostra de urina de Nesta Carter, integrante do quarteto, detectar a substância proibida metilhexaneamina.

A punição atingiu toda a equipe, formada por Carter, Michael Frater, Usain Bolt e Asafa Powell. As medalhas de ouro foram retiradas, e o resultado do revezamento foi anulado.

Isso não significou que Bolt tivesse sido flagrado em exame antidoping positivo. A sanção decorreu da participação de um companheiro que cometeu uma violação das regras, com consequências para o resultado coletivo.

Carter recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte, mas o recurso foi rejeitado em 31 de maio de 2018, confirmando a desclassificação. A decisão foi divulgada oficialmente pelo tribunal e encerrou a disputa sobre a validade daquele ouro olímpico. <Cite ref=”turn138550search3″/>

A consequência foi direta: Bolt deixou de ter nove ouros e passou a contar com oito medalhas olímpicas de ouro reconhecidas oficialmente.

O triplo-triplo permanece como descrição do que ocorreu nas pistas entre 2008 e 2016, mas não como uma sequência de nove títulos válidos nos registros olímpicos.

Quais foram os resultados de Bolt nas três Olimpíadas?

Os números mostram a regularidade do jamaicano nas provas de velocidade durante três edições consecutivas dos Jogos.

Olimpíada100 metros200 metrosRevezamento 4×100 metros
Pequim 2008Ouro, 9s69Ouro, 19s30Vitória em 37s10, posteriormente anulada
Londres 2012Ouro, 9s63Ouro, 19s32Ouro, 36s84
Rio 2016Ouro, 9s81Ouro, 19s78Ouro, 37s27

Em Pequim, Bolt estabeleceu recordes mundiais nos 100 e 200 metros. A equipe jamaicana também registrou um recorde mundial no revezamento, mas a marca foi posteriormente invalidada junto com o resultado.

Em Londres, Bolt estabeleceu o recorde olímpico dos 100 metros e participou do recorde mundial de 36s84 no revezamento, marca que permanece como referência histórica da prova.

No Rio, não quebrou recordes mundiais ou olímpicos. Mesmo assim, conquistou três títulos, mostrando que seu domínio competitivo continuava apesar de já não apresentar as marcas mais rápidas da carreira.

A diferença entre as edições revela uma transformação. Em 2008, Bolt surpreendeu o mundo pela velocidade. Em 2012, confirmou que podia repetir o domínio. Em 2016, venceu novamente mesmo enfrentando dúvidas sobre sua condição física e adversários mais próximos no cronômetro.

Bolt não encerrou a carreira no Rio: sua despedida definitiva aconteceu em 2017

Os Jogos Olímpicos de 2016 foram a última participação de Bolt numa Olimpíada, mas não marcaram sua aposentadoria imediata do atletismo.

O jamaicano continuou competindo e disputou o Campeonato Mundial de Londres, em agosto de 2017. Nos 100 metros, conquistou a medalha de bronze, atrás de Justin Gatlin e Christian Coleman.

No revezamento 4×100 metros, sua última prova oficial de grande destaque, Bolt sofreu uma lesão muscular durante a parcial final e não conseguiu completar a corrida. A imagem contrastou com as vitórias olímpicas e marcou uma despedida esportiva difícil.

A aposentadoria, porém, não alterou seus principais recordes individuais. Bolt continua sendo o recordista mundial dos 100 metros, com 9s58, e dos 200 metros, com 19s19, marcas estabelecidas em Berlim, em 2009.

Sua carreira também permanece associada à capacidade de transformar o atletismo em espetáculo. As comemorações, a pose do raio e a interação com o público ampliaram sua popularidade para além dos fãs tradicionais das pistas.

Mas o elemento central de seu legado continua sendo o desempenho. Nenhum outro velocista conseguiu vencer os 100 e os 200 metros masculinos em três Olimpíadas consecutivas.

Dez anos depois, o Rio 2016 continua sendo o capítulo final de seu domínio olímpico

A passagem de Bolt pelo Rio de Janeiro reuniu três vitórias, tempos competitivos e imagens que se tornaram parte da memória dos Jogos Olímpicos de 2016.

O sorriso durante a semifinal dos 100 metros, a recuperação diante de Gatlin, o domínio dos 200 metros e a arrancada final do revezamento formaram uma sequência que consolidou sua despedida olímpica.

A perda posterior do ouro de Pequim 2008 acrescentou uma ressalva importante à narrativa do triplo-triplo. Bolt não possui oficialmente nove medalhas olímpicas de ouro, embora tenha cruzado a linha de chegada como vencedor em nove finais entre 2008 e 2016.

Essa diferença não deve ser escondida nem utilizada para diminuir artificialmente sua trajetória. O resultado anulado pertence a uma prova coletiva, e a punição decorreu de uma violação antidoping cometida por outro integrante da equipe.

O que permanece indiscutível é o domínio individual de Bolt nas duas principais distâncias do sprint olímpico. Foram seis ouros consecutivos nos 100 e 200 metros, distribuídos por três edições dos Jogos.

Em 19 de agosto de 2016, quando cruzou a linha de chegada do revezamento no Estádio Nilton Santos, Bolt encerrou sua carreira olímpica da maneira como o público se acostumara a vê-lo: à frente de todos os adversários.

A contagem oficial de medalhas mudaria no ano seguinte. Mas os seis títulos individuais, os recordes mundiais e a sequência de vitórias nas pistas continuariam fazendo de Usain Bolt uma referência histórica da velocidade.

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