Em 19 de fevereiro de 1948, os Harlem Globetrotters chegaram ao Chicago Stadium carregando uma sequência de mais de 100 vitórias. Do outro lado estava George Mikan, gigante de 2,08 metros que se tornaria a primeira grande superestrela do basquete profissional americano. Quase 18 mil pessoas assistiriam a um resultado improvável: 61 a 59 para os Globetrotters, decidido por Ermer Robinson nos segundos finais.

O placar seria histórico mesmo sem o contexto que o cercava.

Mas os Estados Unidos de 1948 viviam sob segregação racial, e as principais ligas profissionais de basquete não ofereciam aos grandes jogadores negros as mesmas oportunidades disponíveis aos atletas brancos.

Dois anos depois, a NBA teria seus primeiros jogadores negros.

A vitória dos Globetrotters não provocou essa transformação sozinha. Mas se tornou uma das demonstrações mais poderosas de que a barreira racial existente no basquete profissional não poderia ser justificada por talento ou capacidade esportiva.

Siga o Giro no Facebook
Siga o Giro no Instagram

Os Harlem Globetrotters ainda não eram apenas entretenimento

Para quem cresceu conhecendo os Globetrotters pelos passes impossíveis, malabarismos e apresentações coreografadas, existe um detalhe essencial para compreender aquela noite.

A equipe sabia jogar basquete competitivo em altíssimo nível.

O time criado por Abe Saperstein percorria os Estados Unidos disputando partidas em um circuito conhecido como barnstorming. Viajava constantemente e enfrentava equipes dispostas a aceitar os desafios.

As dificuldades impostas pela segregação ajudaram a moldar esse modelo.

O espetáculo já fazia parte das apresentações dos Globetrotters antes de 1948, mas não substituía a competição. O time havia conquistado o World Professional Basketball Tournament de 1940 e chegava ao confronto contra Minneapolis em uma gigantesca sequência de vitórias.

Do outro lado estava uma potência emergente.

George Mikan parecia um problema sem solução

Os Minneapolis Lakers disputavam a National Basketball League e possuíam uma vantagem difícil de ignorar.

George Mikan.

Com aproximadamente 2,08 metros, o pivô era gigantesco para os padrões do basquete daquele período. Mas reduzir sua superioridade à altura seria um erro.

Mikan possuía coordenação, técnica perto da cesta e capacidade de pontuar que transformaram a posição de pivô. Ele acabaria liderando os Lakers a uma sequência de títulos e se consolidaria como uma das figuras fundadoras do basquete profissional moderno.

Na primeira metade daquela partida, a diferença física parecia confirmar todas as preocupações dos Globetrotters.

Mikan marcou 18 pontos antes do intervalo.

Minneapolis abriu 32 a 23.

O duelo que deveria provar a força dos Globetrotters estava escapando de suas mãos.

Foi então que a estratégia mudou.

A solução para Mikan foi dobrar a marcação

Abe Saperstein precisava encontrar uma maneira de impedir que seu pivô Goose Tatum enfrentasse Mikan sozinho.

A resposta foi enviar ajuda defensiva.

Os Globetrotters passaram a dobrar a marcação sobre o astro dos Lakers. A estratégia dificultou sua recepção e reduziu drasticamente seu impacto ofensivo.

Depois dos 18 pontos da primeira metade, Mikan marcou apenas seis no restante da partida.

Terminou com 24.

Minneapolis continuava com vantagem física, mas já não conseguia transformar essa diferença no mesmo domínio ofensivo.

Os Globetrotters começaram a voltar para o jogo.

E a partida chegou aos instantes finais empatada.

Marques Haynes transformou o drible em arma

Faltavam aproximadamente 90 segundos quando o placar chegou a 59 a 59.

Hoje, uma equipe não poderia simplesmente segurar a bola por tanto tempo.

Em 1948, porém, o relógio de 24 segundos ainda não existia no basquete profissional.

Foi quando Marques Haynes mostrou por que se tornou um dos maiores dribladores da história do esporte.

Com a bola sob controle, Haynes passou boa parte do tempo restante driblando e escapando dos defensores dos Lakers.

Não era apenas espetáculo.

Era estratégia.

Cada segundo consumido diminuía a possibilidade de Minneapolis recuperar a posse e explorar Mikan novamente.

Quando finalmente decidiu atacar, Haynes encontrou Ermer Robinson.

O arremesso que entrou para a história

Robinson recebeu a bola longe da cesta.

O relógio estava praticamente esgotado.

Ele arremessou.

A bola caiu.

Harlem Globetrotters 61, Minneapolis Lakers 59.

A cesta no fim encerrou uma partida que havia começado com Minneapolis nove pontos à frente no intervalo.

O Chicago Stadium explodiu.

Os Globetrotters tinham acabado de derrotar uma das equipes mais fortes do basquete profissional americano e seu maior astro.

O resultado também destruiu outra percepção.

A ideia de que aquela equipe era apenas um espetáculo itinerante havia se tornado muito mais difícil de sustentar.

Os Lakers ainda não eram campeões quando perderam

Existe uma pequena diferença histórica que muda bastante a precisão dessa história.

É comum encontrar o confronto descrito como o dia em que os Globetrotters derrotaram os “campeões da NBA”.

Isso não aconteceu exatamente assim.

A NBA ainda nem existia com esse nome.

Em fevereiro de 1948, os Lakers disputavam a National Basketball League, a NBL.

E ainda não eram campeões daquela temporada quando enfrentaram os Globetrotters.

Minneapolis conquistaria posteriormente o título da NBL de 1947/48. Na temporada seguinte, já na Basketball Association of America, venceria também o campeonato de 1949.

A BAA e a NBL se fundiriam naquele mesmo ano para formar a NBA.

Isso não diminui o feito.

Pelo contrário.

Os Globetrotters haviam derrotado uma equipe que estava prestes a iniciar a primeira grande dinastia do basquete profissional americano.

E eles fizeram novamente em 1949

Se alguém considerou a primeira vitória um acidente, a revanche ofereceu uma resposta.

Em 28 de fevereiro de 1949, novamente no Chicago Stadium, os dois times voltaram a se enfrentar.

Desta vez, mais de 20 mil pessoas lotaram o ginásio.

E os Globetrotters venceram outra vez.

49 a 45.

A segunda vitória reforçou aquilo que a primeira já havia colocado diante do público: jogadores negros podiam competir no mais alto nível contra as grandes estrelas das ligas profissionais predominantemente brancas.

Os Lakers posteriormente venceriam outros encontros da série.

Mas as duas primeiras partidas já haviam adquirido significado próprio.

O que o jogo realmente mudou

É tentador construir uma linha direta:

Globetrotters vencem em 1948, NBA integra jogadores negros em 1950.

A história real é mais complexa.

O processo de integração esportiva nos Estados Unidos estava inserido em transformações sociais muito maiores. Jackie Robinson havia rompido a barreira racial da Major League Baseball em 1947. Jogadores negros já demonstravam havia décadas seu nível em equipes e competições próprias.

O jogo dos Globetrotters acrescentou uma demonstração pública difícil de ignorar.

Não se tratava de discutir hipoteticamente se jogadores negros conseguiriam competir contra os melhores atletas brancos.

Eles tinham acabado de fazê-lo.

E tinham vencido.

Historiadores do basquete apontam os confrontos entre Globetrotters e Lakers como parte do processo que ajudou a desafiar as barreiras raciais do esporte profissional.

Dois anos depois, três nomes entrariam definitivamente para a história da NBA.

Cooper, Clifton e Lloyd abriram a porta em 1950

Em 25 de abril de 1950, o Boston Celtics selecionou Chuck Cooper, tornando-o o primeiro jogador negro escolhido em um Draft da NBA.

Poucas semanas depois, em 24 de maio, o New York Knicks contratou Nat “Sweetwater” Clifton, que vinha justamente dos Harlem Globetrotters.

Clifton tornou-se o primeiro jogador negro a assinar contrato com uma equipe da NBA.

Então chegou 31 de outubro.

Naquela noite, Earl Lloyd entrou em quadra pelo Washington Capitols contra o Rochester Royals e se tornou o primeiro jogador negro a disputar oficialmente uma partida da liga.

Três pioneiros, três marcos diferentes.

A NBA estava finalmente integrada.

A ironia que transformou os próprios Globetrotters

A integração trouxe uma consequência inesperada para a equipe que ajudara a demonstrar o talento dos jogadores negros.

As portas que antes estavam fechadas começaram lentamente a se abrir.

Jogadores negros passaram a ter acesso à NBA.

Isso significava que os Globetrotters já não possuíam praticamente um mercado exclusivo sobre alguns dos maiores talentos negros disponíveis.

Sweetwater Clifton foi um dos primeiros exemplos.

Outros viriam.

Com o avanço da integração, os Globetrotters intensificaram gradualmente a característica que acabaria tornando o nome conhecido mundialmente: entretenimento combinado com basquete.

Os malabarismos, passes pelas costas, jogadas ensaiadas e humor se tornariam sua assinatura internacional.

Décadas depois, muita gente conheceria primeiro o espetáculo e só depois descobriria o time competitivo que existira por trás dele.

O verdadeiro legado daquela noite em Chicago

A partida de 1948 não integrou sozinha o basquete profissional americano.

Também seria exagerado afirmar que um único resultado acabou imediatamente com preconceitos raciais profundamente enraizados nos Estados Unidos.

Seu significado está em algo mais concreto.

Naquela quadra, diante de quase 18 mil pessoas, uma das melhores equipes negras do país enfrentou diretamente uma potência das ligas profissionais dominadas por jogadores brancos.

Mikan marcou 24 pontos.

Os Lakers lideraram por nove no intervalo.

Os Globetrotters ajustaram a defesa, reagiram e chegaram ao empate.

Então Marques Haynes controlou a posse.

Ermer Robinson recebeu a bola.

E acertou o último arremesso.

O placar ficou registrado como 61 a 59.

Dois anos depois, Sweetwater Clifton sairia dos próprios Globetrotters para fazer parte da primeira geração negra da NBA.

Essa sequência não transforma uma partida na única causa da integração.

Mas explica por que, quase oito décadas depois, o duelo continua sendo lembrado.

Os Harlem Globetrotters não precisaram argumentar que pertenciam à elite do basquete.

Naquela noite em Chicago, eles mostraram isso dentro da quadra.

Fontes consultadas

NBA History, registros históricos sobre Chuck Cooper, Earl Lloyd e Nat “Sweetwater” Clifton; ESPN, reconstrução histórica do confronto Globetrotters x Lakers; John Christgau, Tricksters in the Madhouse: Lakers vs. Globetrotters, 1948; registros históricos dos Minneapolis Lakers e pesquisas sobre a integração do basquete profissional norte-americano.

Leia Mais: