Em 19 de julho de 1966, Pak Doo-ik marcou o gol que derrubou a bicampeã mundial por 1 a 0. A vitória levou uma seleção asiática às quartas de final pela primeira vez e criou uma ligação improvável com uma cidade inglesa, onde milhares de torcedores passaram a apoiar os norte-coreanos.
Por Marcio Tamer
Atualizado em 8 de outubro de 2026
A Itália precisava de apenas um empate para avançar às quartas de final da Copa do Mundo de 1966. Do outro lado estava a Coreia do Norte, estreante no torneio, que havia perdido para a União Soviética e empatado com o Chile. O cenário parecia favorável à seleção europeia, bicampeã mundial, até que Pak Doo-ik marcou aos 42 minutos do primeiro tempo e mudou a história do futebol asiático.
O gol garantiu a vitória norte-coreana por 1 a 0, em 19 de julho de 1966, no estádio Ayresome Park, em Middlesbrough, diante de aproximadamente 20 mil espectadores. A Itália estava eliminada ainda na fase de grupos, enquanto a Coreia do Norte conquistava uma vaga inédita nas quartas de final.
A surpresa não terminou no apito final. Quatro dias depois, os norte-coreanos abririam 3 a 0 sobre Portugal em apenas 25 minutos, antes de sofrerem uma virada por 5 a 3 comandada por Eusébio. E havia uma terceira história acontecendo fora de campo: os habitantes de Middlesbrough haviam adotado uma seleção de um país com o qual o Reino Unido nem sequer mantinha relações diplomáticas.
Foi essa combinação de resultado, política e identificação popular que transformou a vitória sobre a Itália em algo maior do que uma zebra de Copa do Mundo.
Por que a Coreia do Norte chegou à Copa de 1966 como uma desconhecida?
A Coreia do Norte disputava sua primeira Copa do Mundo e possuía pouca experiência contra as principais seleções europeias e sul-americanas. Seu elenco reunia atletas ligados a equipes estatais e instituições militares, numa estrutura esportiva muito diferente do futebol profissional praticado nos grandes clubes italianos.
A classificação também aconteceu em circunstâncias incomuns. Naquela edição, a FIFA reservou apenas uma vaga conjunta para representantes da África, da Ásia e da Oceania. As seleções africanas retiraram-se das eliminatórias em protesto contra a distribuição das vagas, e a Coreia do Norte acabou disputando a classificação contra a Austrália.
Os norte-coreanos venceram os dois confrontos, por 6 a 1 e 3 a 1, realizados em Phnom Penh, no Camboja. O resultado garantiu a presença no Mundial inglês, mas não transformou a equipe numa candidata natural a avançar de fase.
Havia ainda um problema diplomático. O Reino Unido não reconhecia oficialmente o governo norte-coreano, consequência do cenário político estabelecido após a Guerra da Coreia. A presença da seleção exigiu negociações sobre símbolos nacionais e protocolo, enquanto os jogadores tentavam se preparar para enfrentar adversários muito mais conhecidos.
A equipe chegava ao Mundial como uma incógnita esportiva e diplomática. Em poucas semanas, seria uma das atrações mais inesperadas do torneio.
O empate com o Chile começou a conquistar Middlesbrough
A estreia foi dura. A Coreia do Norte perdeu por 3 a 0 para a União Soviética, resultado que parecia confirmar a diferença entre uma estreante asiática e uma potência europeia. O segundo jogo, porém, mudou a percepção sobre a equipe.
Contra o Chile, terceiro colocado na Copa de 1962, os norte-coreanos conseguiram um empate por 1 a 1, com gol de Pak Seung-zin nos minutos finais. A seleção demonstrou velocidade, resistência física e disposição ofensiva, características que surpreenderam os torcedores locais.
A equipe já havia conquistado a simpatia de Middlesbrough antes mesmo da vitória sobre a Itália. Os jogadores usavam uniformes vermelhos, a mesma cor tradicional do clube da cidade, e chamavam atenção pela estatura relativamente baixa em comparação com os adversários europeus.
O comportamento fora de campo também ajudou. Relatos históricos destacam a cordialidade dos visitantes e a curiosidade dos moradores, que passaram a acompanhar os treinos e os jogos de uma seleção sobre a qual sabiam muito pouco.
Quando chegou o confronto decisivo contra a Itália, a Coreia do Norte já não estava completamente sozinha nas arquibancadas.
A Itália perdeu Bulgarelli e ficou com dez jogadores antes do gol
A Itália tinha nomes de destaque como Giacinto Facchetti, Sandro Mazzola, Gianni Rivera e o goleiro Enrico Albertosi. A equipe treinada por Edmondo Fabbri havia vencido o Chile por 2 a 0, mas perdido para a União Soviética por 1 a 0, resultado que tornou a última rodada decisiva.
O favoritismo italiano era evidente, mas a partida não seguiu o roteiro esperado. A Coreia do Norte pressionou, disputou intensamente o meio-campo e dificultou a circulação de bola dos europeus.
Um acontecimento importante ocorreu antes do gol. O meio-campista italiano Giacomo Bulgarelli sofreu uma lesão e precisou deixar o campo. Como as regras da Copa de 1966 ainda não permitiam substituições durante as partidas, a Itália ficou com dez jogadores pelo restante do confronto.
A inferioridade numérica alterou o equilíbrio da partida, embora não explique sozinha a derrota. Os norte-coreanos já haviam demonstrado capacidade de competir fisicamente e explorar espaços, e a equipe italiana não conseguiu reorganizar seu jogo de maneira eficiente.
Poucos minutos depois, veio o lance que entrou para a história.
Pak Doo-ik marcou aos 42 minutos e eliminou a bicampeã mundial
Aos 42 minutos do primeiro tempo, uma bola recuperada pelo ataque norte-coreano encontrou Pak Doo-ik nas proximidades da área italiana. O atacante finalizou de maneira precisa, rasteira, sem dar tempo de reação a Enrico Albertosi.
O placar mudou para Coreia do Norte 1, Itália 0.
O resultado tinha consequências imediatas. A Itália, que precisava de um empate, estava sendo eliminada. A Coreia do Norte, que começara o grupo com uma derrota por três gols, estava a menos de um tempo de alcançar as quartas de final.
Pak Doo-ik se tornaria o personagem mais conhecido daquela seleção. Há uma curiosidade sobre sua identidade que foi distorcida durante décadas: a história de que ele era dentista. A versão ganhou força na imprensa europeia, mas não corresponde à trajetória conhecida do jogador, que tinha ligação com o Exército norte-coreano e posteriormente trabalhou como instrutor de ginástica.
O gol foi único naquela partida, mas suficiente para alterar o destino de duas seleções. No segundo tempo, a Itália tentou reagir, sem conseguir superar a defesa norte-coreana e o goleiro Li Chan-myung.
O apito final confirmou a vitória por 1 a 0 e encerrou a participação italiana no Mundial. A bicampeã de 1934 e 1938 estava fora, enquanto a estreante asiática seguia viva.
A primeira seleção asiática nas quartas de final de uma Copa
A vitória representou um marco continental. A Coreia do Norte tornou-se a primeira seleção asiática a alcançar a fase eliminatória de uma Copa do Mundo masculina, chegando diretamente às quartas de final, já que o formato de 1966 não previa oitavas.
O avanço deu visibilidade internacional a uma seleção praticamente desconhecida do público europeu. Até então, a participação asiática em Copas era esporádica e marcada por resultados difíceis contra adversários mais experientes.
A Coreia do Norte mostrou que uma equipe do continente podia superar uma potência tradicional e disputar as fases decisivas. Isso não significa que a seleção tenha passado a integrar a elite permanente do futebol, mas que havia contrariado uma hierarquia esportiva considerada previsível.
A repercussão na Itália seguiu o caminho oposto. A eliminação provocou indignação pública, críticas ao técnico Edmondo Fabbri e uma recepção hostil no retorno da delegação.
Segundo relatos históricos da Federação Italiana de Futebol, os jogadores foram recebidos em Gênova, sob arremesso de tomates. Portanto, a versão de que o episódio aconteceu necessariamente no aeroporto de Roma não corresponde ao relato da federação.
Middlesbrough adotou os norte-coreanos e levou milhares de torcedores a Liverpool
Uma das consequências mais curiosas da campanha aconteceu longe de Pyongyang. Os moradores de Middlesbrough criaram uma ligação com os visitantes que ultrapassou o interesse por uma zebra esportiva.
O apoio era tão expressivo que, quando a Coreia do Norte se classificou para enfrentar Portugal em Liverpool, cerca de 3 mil torcedores de Middlesbrough viajaram para acompanhar a equipe.
Para uma seleção de um país diplomaticamente distante do Reino Unido, a recepção tinha um significado incomum. O vínculo ganhou nova dimensão décadas depois, quando sobreviventes da equipe retornaram à região durante a produção do documentário The Game of Their Lives, dirigido por Daniel Gordon e lançado em 2002.
O contraste era evidente. Em 1966, a Coreia do Norte estava entre os países mais isolados politicamente do mundo, mas seus jogadores haviam conquistado uma torcida espontânea numa cidade industrial inglesa.
O apoio não eliminava as diferenças políticas. Mostrava que elas não impediam uma identificação humana e esportiva.
Contra Portugal, a Coreia do Norte abriu 3 a 0 em 25 minutos e sofreu a virada
A campanha quase produziu uma segunda surpresa ainda maior. Em 23 de julho de 1966, no estádio Goodison Park, em Liverpool, a Coreia do Norte enfrentou Portugal, que havia vencido os três jogos da fase de grupos, incluindo uma vitória sobre o Brasil, então bicampeão mundial.
Com apenas um minuto, Pak Seung-zin abriu o placar. Li Dong-woon ampliou aos 22, e Yang Seung-kook marcou o terceiro aos 25. A Coreia do Norte estava vencendo por 3 a 0, a poucos passos de uma semifinal de Copa do Mundo.
Foi quando Eusébio assumiu o protagonismo. O atacante português marcou quatro vezes, aos 27, 43, 56 e 59 minutos. José Augusto completou a virada aos 80, estabelecendo o placar final de Portugal 5, Coreia do Norte 3.
A partida se tornou um dos maiores exemplos de reação da história das Copas, enquanto Eusébio terminaria o torneio como artilheiro, com nove gols.
A derrota encerrou a campanha norte-coreana, mas não apagou a dimensão do que havia acontecido. A mesma seleção que eliminara a Itália também obrigara Portugal a buscar uma recuperação de três gols de desvantagem.
Em quatro partidas, passou de estreante desconhecida a uma das histórias mais lembradas daquela edição.
O que os jornais norte-coreanos da época revelam sobre a campanha
Sessenta anos depois, uma fonte pouco explorada ajuda a compreender como a participação foi apresentada dentro da própria Coreia do Norte.
Em julho de 2026, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos publicou uma análise de revistas norte-coreanas preservadas em seu acervo, incluindo edições de Chŏllima produzidas durante o Mundial.
Os periódicos celebravam a seleção como símbolo do futebol asiático e descreviam detalhes da vida dos jogadores antes e durante a competição. Um dos relatos menciona os atletas ouvindo Beethoven pelo rádio e apresenta aspectos pessoais de integrantes da equipe.
Esses registros oferecem uma visão mais próxima de como o torneio foi narrado ao público norte-coreano.
A documentação também exige cuidado. Revistas publicadas sob um regime autoritário não devem ser tratadas como relatos independentes de todos os acontecimentos, especialmente quando abordam prestígio nacional e feitos esportivos.
Seu valor histórico está em mostrar como a campanha foi registrada e apresentada no país, permitindo comparações com os relatos da imprensa internacional.
Para os torcedores ingleses, os norte-coreanos eram visitantes simpáticos que haviam derrotado uma potência. Para a imprensa estatal de Pyongyang, representavam uma conquista nacional e continental.
O mesmo resultado assumia significados diferentes conforme o lugar de onde era observado.
Sessenta anos depois, o gol de Pak Doo-ik ainda explica a força daquela zebra
A Coreia do Norte voltaria a disputar uma Copa do Mundo apenas em 2010, na África do Sul. Naquela edição, reencontrou Portugal e sofreu uma derrota por 7 a 0 na fase de grupos, resultado muito distante da resistência demonstrada em 1966.
O contraste ajuda a mostrar como a campanha inglesa permaneceu excepcional na trajetória internacional da seleção.
A vitória sobre a Itália também deve ser entendida sem exageros. Não existe um critério objetivo capaz de determinar que foi, isoladamente, a maior zebra de todas as Copas. Outras derrotas de favoritos, em diferentes épocas e circunstâncias, também disputam esse lugar na memória do futebol.
O resultado de Middlesbrough, porém, reúne elementos raros: uma estreante asiática, uma adversária bicampeã mundial, um gol decisivo e uma classificação inédita.
A história permanece viva em Middlesbrough, na memória dos torcedores e nas reconstruções da Copa de 1966. O Ayresome Park foi demolido, mas o episódio continuou associado à identidade esportiva da cidade.
Em 19 de julho de 1966, Pak Doo-ik precisou de uma finalização para transformar uma partida de fase de grupos em um acontecimento histórico. A Itália voltou para casa, a Coreia do Norte avançou às quartas e milhares de ingleses passaram a torcer por uma seleção que, poucas semanas antes, praticamente não conheciam.
Quatro dias depois, os norte-coreanos perderam para Portugal após abrir 3 a 0. Mesmo assim, o que aconteceu em Middlesbrough já estava garantido: pela primeira vez, uma seleção asiática havia ultrapassado a fase de grupos de uma Copa do Mundo, e uma cidade inglesa havia encontrado seus heróis em jogadores vindos de um dos países mais fechados do planeta.
+ Siga o Giro no Facebook
+ Siga o Giro no Instagram
Leia Mais:

