Michael Phelps chegou à final dos 100 metros borboleta dos Jogos Olímpicos de Pequim com seis medalhas de ouro e apenas duas provas separando-o de um feito inédito. Para superar os sete ouros conquistados por Mark Spitz em Munique, em 1972, precisava continuar perfeito. Na manhã de 16 de agosto de 2008, porém, sua tentativa ficou reduzida à menor unidade que aparecia no placar da piscina: um centésimo de segundo.
O resultado registrou 50s58 para Phelps e 50s59 para Milorad Čavić. Não foi um milésimo, como a história às vezes é contada, mas 0,01 segundo, equivalente a dez milésimos. A World Aquatics descreve essa diferença como a menor margem possível de vitória registrada pela cronometragem oficial da natação. Aquele centésimo deu ao americano seu sétimo ouro em Pequim e manteve aberta a possibilidade de superar Spitz no dia seguinte.
O detalhe mais impressionante aparece quando a prova é dividida ao meio. Čavić completou os primeiros 50 metros em 23s42, na liderança, enquanto Phelps virou em 24s04, apenas na sétima posição. Em uma única piscina, o americano precisaria recuperar 0,62 segundo e ultrapassar seis adversários.
+ Siga o Giro no Facebook
+ Siga o Giro no Instagram
Čavić já havia mostrado que aquela era a prova em que Phelps poderia perder
Phelps dominava a natação em Pequim, mas os 100m borboleta representavam uma exceção importante. Era a única prova individual de seu programa na qual ele não possuía o recorde mundial, então pertencente ao compatriota Ian Crocker, com 50s40. A velocidade inicial também não era a principal característica do americano, que tradicionalmente crescia na segunda metade das provas.
Čavić oferecia justamente o perigo oposto. O sérvio era extremamente rápido na primeira metade e havia estabelecido 50s76 nas eliminatórias, novo recorde olímpico. Phelps nadou 50s87 naquela fase, 0,11 atrás do rival. A ameaça, portanto, já estava registrada no cronômetro antes da final.
O sérvio ainda acrescentou tensão ao confronto ao declarar que seria positivo para a natação se Phelps fosse derrotado. Bob Bowman, treinador do americano, utilizou a declaração como motivação. Quando os dois subiram aos blocos para a decisão, havia algo maior em jogo para Phelps do que mais uma medalha: qualquer derrota encerraria sua tentativa de conquistar oito ouros.
Aos 50 metros, seis nadadores estavam na frente de Phelps
A primeira metade da final confirmou o cenário mais perigoso para o americano. Čavić chegou à parede em 23s42, Ian Crocker passou em 23s70 e Phelps registrou 24s04. O futuro campeão estava 0,62 segundo atrás do líder e ocupava somente a sétima colocação.
Em uma prova de aproximadamente 50 segundos, a diferença era enorme. Phelps, porém, havia planejado uma primeira parcial próxima de 24 segundos e sabia que sua maior vantagem apareceria na volta. Enquanto alguns adversários começavam a perder velocidade, ele conseguia sustentar frequência e potência.
A recuperação aconteceu durante toda a segunda piscina, não apenas nos últimos centímetros. Phelps foi eliminando a diferença até chegar à reta final praticamente emparelhado com Čavić. A chegada se tornou histórica porque, depois de quase 100 metros, os dois ainda precisaram resolver um problema técnico que todo nadador enfrenta: escolher entre dar outra braçada ou deslizar até a parede.
Čavić deslizou; Phelps percebeu que precisava de meia braçada
Čavić estava ligeiramente à frente nos metros finais e optou por prolongar sua última braçada até a placa. Phelps também percebeu que estava numa distância ruim, mas tomou a decisão oposta: iniciou outro movimento e completou apenas a parte necessária para lançar as mãos contra a parede.
Não foi exatamente uma “braçada completa”. Čavić explicaria posteriormente que uma braçada inteira naquele ponto faria Phelps chegar à parede no meio do movimento. O americano executou uma meia braçada adicional, enquanto o sérvio deslizou. A diferença entre as duas escolhas apareceu somente quando o sistema registrou os toques.
O próprio Phelps não teve certeza de que a decisão funcionara. Imediatamente depois da chegada, acreditou que a braçada extra poderia ter custado a prova. Só ao olhar o placar encontrou seu nome na primeira posição.
Ali estava a diferença: 50s58 contra 50s59.
O corpo de Čavić parecer à frente não significava que ele havia vencido
A chegada gerou uma das imagens mais discutidas da história olímpica. Em determinados quadros, Čavić parece estar fisicamente mais próximo da parede enquanto Phelps ainda completa seu movimento. Isso levou muita gente a interpretar fotografia e vídeo como se fossem equivalentes ao resultado da cronometragem.
Na natação, porém, a posição da cabeça ou do tronco não determina o vencedor. Nos 100m borboleta, o atleta precisa tocar a parede simultaneamente com as duas mãos. O que interessa é o instante em que esse toque válido é registrado.
As placas eletrônicas existem justamente para eliminar a necessidade de um juiz decidir visualmente chegadas extremamente apertadas. A World Aquatics explica que a tecnologia é usada em grandes competições internacionais desde o fim dos anos 1960. Em Pequim, o sistema eletrônico marcou Phelps primeiro por um centésimo.
A física da chegada ajuda a entender o resultado. Čavić podia ter partes do corpo mais avançadas enquanto perdia velocidade no deslize; Phelps ainda movimentava as mãos em direção à parede. Assim, estar visualmente à frente alguns instantes antes do toque não significa necessariamente tocar primeiro.
A Sérvia protestou, e a chegada foi revisada
A diferença mínima levou a delegação sérvia a questionar o resultado. Os responsáveis pela arbitragem revisaram os sistemas de cronometragem e as imagens disponíveis. O árbitro Ben Ekumbo chegou a mostrar a gravação aos representantes sérvios depois da prova, e a classificação permaneceu inalterada. Phelps continuou campeão e Čavić ficou com a prata.
A tecnologia de vídeo teve papel de confirmação, mas não é correto dizer simplesmente que uma câmera de 1.000 quadros por segundo “descobriu” quem havia vencido. A própria World Aquatics descreve o episódio de forma mais precisa: o sistema eletrônico determinou o resultado e as câmeras de alta velocidade o confirmaram. São funções diferentes dentro do processo de cronometragem e revisão.
Andrew Lauterstein ficou com o bronze em 51s12, apenas um centésimo à frente de Ian Crocker, quarto com 51s13. A final produziu, portanto, duas disputas separadas por 0,01 segundo: uma pelo ouro e outra pelo bronze.
Um centésimo é dez vezes maior do que um milésimo
A diferença matemática parece pequena, mas muda o título da história. Um segundo pode ser dividido em cem centésimos ou mil milésimos. Portanto, 0,01 segundo corresponde a um centésimo ou dez milésimos, enquanto um único milésimo seria 0,001.
A natação olímpica apresenta seus resultados oficialmente até o centésimo. Por isso, 0,01 é a menor diferença exibida entre dois tempos distintos. Se dois nadadores recebem o mesmo tempo até essa precisão, a modalidade pode registrar um empate em vez de utilizar automaticamente uma terceira casa decimal para separá-los.
A chegada de Pequim não foi a primeira final olímpica dos 100m borboleta decidida dessa maneira. Em Seul, em 1988, Anthony Nesty derrotou Matt Biondi por 53s00 a 53s01, também um centésimo. O que tornou Phelps x Čavić ainda mais marcante foi o que dependia daquele resultado: uma campanha que poderia terminar com um recorde olímpico sem precedentes.
O sétimo ouro igualou Spitz; o oitavo ainda precisava ser conquistado
A vitória nos 100m borboleta não quebrou imediatamente o recorde de Mark Spitz. Ela levou Phelps ao sétimo ouro em Pequim, igualando as sete vitórias de Spitz em Munique 1972. Para estabelecer uma nova marca, ainda faltava o revezamento 4x100m medley.
No dia seguinte, Aaron Peirsol abriu o revezamento americano no nado costas, Brendan Hansen completou o peito, Phelps nadou o trecho do borboleta e Jason Lezak fechou no livre. Os Estados Unidos venceram e Phelps conquistou sua oitava medalha de ouro em oito provas.
O recorde, portanto, dependeu de uma sequência coletiva além das vitórias individuais. Dias antes, Jason Lezak já havia realizado uma recuperação extraordinária no 4x100m livre para impedir que a França derrotasse os americanos. Nos 100m borboleta, Phelps precisou resolver pessoalmente outra chegada que parecia perdida.
Isso torna sua campanha de Pequim menos linear do que a simples contagem de oito vitórias sugere. Oito provas terminaram em oito ouros, mas pelo menos duas delas estiveram a poucos instantes de produzir um resultado diferente.
A “virada perfeita” foi uma decisão imperfeita corrigida em frações de segundo
Talvez o elemento mais fascinante da chegada seja justamente ela não ter sido uma execução previamente calculada com precisão matemática. Phelps chegou aos últimos centímetros numa distância desconfortável. Se deslizasse como Čavić, acreditava que ficaria curto; se completasse outra braçada inteira, atingiria a parede no meio do movimento.
Sua solução foi encurtar o ciclo. A meia braçada manteve as mãos avançando enquanto Čavić perdia velocidade no deslize. Não existe necessidade de transformar esse movimento em um fenômeno misterioso do sensor: dois nadadores tomaram decisões diferentes diante da mesma parede, e uma delas produziu um toque um centésimo mais rápido.
Phelps terminaria a carreira olímpica em 2016 com 28 medalhas, 23 delas de ouro, marcas que consolidaram uma trajetória muito maior do que uma única chegada. Mas nenhuma estatística explica tão bem a fragilidade de seu recorde de Pequim quanto os números que apareceram naquela manhã de 2008.
Foram 50s58 contra 50s59. Entre sete ouros, oito ouros e um recorde que atravessaria gerações havia apenas um centésimo de segundo e meia braçada.
Leia Mais:

