Billie Jean King entrou no Astrodome de Houston carregada em uma liteira ornamentada, numa encenação inspirada em Cleópatra. Bobby Riggs apareceu cercado por modelos e vestindo uma jaqueta patrocinada pela marca Sugar Daddy. Cerca de duas horas depois, o espetáculo havia dado lugar a uma vitória incontestável: 6/4, 6/3 e 6/3 para King.

Mais de 90 milhões de pessoas ao redor do mundo teriam acompanhado a transmissão em 20 de setembro de 1973, segundo estimativas reproduzidas pela WTA e pelo acervo da própria King. O prêmio de US$ 100 mil ficaria integralmente com a vencedora, uma quantia enorme para o tênis da época. Mas o valor simbólico da partida era maior porque Riggs havia transformado o confronto numa provocação pública sobre a capacidade das mulheres.

A história frequentemente contada depois mistura, porém, acontecimentos que ocorreram em ordem diferente. A WTA já existia, o Título IX já era lei nos Estados Unidos e o US Open de 1973 já havia pago prêmios iguais a seus campeões masculino e feminino antes de King enfrentar Riggs. A “Batalha dos Sexos” não criou essas conquistas. Ela colocou diante de uma audiência gigantesca uma discussão que King e outras tenistas vinham travando havia anos.

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Riggs tinha 55 anos, mas sua vitória sobre Margaret Court mudou completamente o desafio

Bobby Riggs estava muito distante do auge quando começou a provocar as principais tenistas da época. Aos 55 anos, já havia encerrado sua carreira competitiva regular, mas carregava um currículo importante: fora número 1 mundial e conquistara títulos de simples em Wimbledon e no campeonato americano, antecessor do US Open.

Riggs transformou sua personalidade de apostador e provocador em espetáculo. Autodenominava-se machista, afirmava que o tênis feminino era inferior e dizia ser capaz de derrotar as melhores jogadoras mesmo com a diferença de idade. King inicialmente não viu vantagem em aceitar a proposta.

Tudo mudou em 13 de maio de 1973. Margaret Court, então número 1 do mundo e uma das maiores campeãs da história, aceitou enfrentar Riggs. Ele venceu por 6/2 e 6/1 no confronto que ganhou o apelido de Mother’s Day Massacre, ou Massacre do Dia das Mães.

A derrota deu às provocações de Riggs uma repercussão que King considerava perigosa para o circuito feminino. Ela posteriormente explicou que não via satisfação especial em provar que uma tenista de 29 anos poderia derrotar um homem de 55. O receio estava no significado que uma segunda derrota feminina poderia adquirir para um esporte que ainda lutava por reconhecimento e recursos.

King então aceitou o confronto.

O tênis feminino já estava vivendo uma revolução antes de King entrar no Astrodome

Para entender por que a partida carregava tanto peso, é necessário voltar a 1970. Naquele ano, King integrou o grupo de nove jogadoras que rompeu com a estrutura tradicional do tênis e assinou contratos simbólicos de um dólar para participar de um circuito profissional feminino independente. As atletas ficariam conhecidas como Original 9.

A disputa central era econômica. As diferenças entre premiações masculinas e femininas podiam ser enormes, e as jogadoras queriam controlar melhor suas oportunidades profissionais. O circuito Virginia Slims cresceu, e King se tornou em 1971 a primeira atleta mulher a ultrapassar US$ 100 mil em premiações numa temporada.

Em junho de 1973, apenas três meses antes da “Batalha dos Sexos”, aproximadamente 60 jogadoras reuniram-se no Gloucester Hotel, em Londres, e criaram a Women’s Tennis Association, a WTA, com King como primeira presidente. A nova organização procurava reunir as atletas em torno de uma representação comum.

Outro avanço ocorreu antes mesmo do duelo com Riggs. Em 1972, King recebera US$ 10 mil pelo título do US Open, enquanto Ilie Năstase ganhou US$ 25 mil como campeão masculino. Ela pressionou por mudanças e participou da busca por recursos de patrocinadores. Em 1973, o torneio americano tornou-se o primeiro Grand Slam a oferecer premiação igual a homens e mulheres.

Isso aconteceu no início de setembro. A partida contra Riggs seria disputada no dia 20 daquele mês.

O Título IX também já era lei antes da partida

Outro erro histórico comum é afirmar que a vitória de King ajudou a aprovar o Título IX. A legislação havia sido sancionada pelo presidente Richard Nixon em 23 de junho de 1972, aproximadamente 15 meses antes da “Batalha dos Sexos”.

O Título IX proibia discriminação por sexo em programas e atividades educacionais que recebessem financiamento federal nos Estados Unidos. Seu impacto sobre o esporte escolar e universitário seria profundo, porque ampliaria progressivamente as oportunidades disponíveis para meninas e mulheres.

King havia defendido a legislação e via sua sobrevivência política e cultural como parte de uma luta maior. Ela própria afirmou que temia que uma derrota diante de Riggs pudesse prejudicar o movimento feminino, o tênis profissional das mulheres e a percepção pública do Título IX.

Portanto, a relação correta é diferente: a vitória de King não produziu o Título IX; aconteceu durante o período inicial de implementação de uma lei que já existia. O confronto ajudou a ampliar a visibilidade de debates sobre igualdade que estavam ocorrendo simultaneamente dentro e fora do esporte.

O Astrodome virou um espetáculo antes mesmo da primeira bola

A partida foi organizada deliberadamente como entretenimento de massa. King chegou à quadra em uma liteira dourada carregada por homens, enquanto Riggs fez sua entrada em um riquixá puxado por mulheres que faziam parte de seu espetáculo promocional. King ainda presenteou o adversário com um leitão, uma provocação à imagem de “porco chauvinista” explorada durante a divulgação do confronto.

Há divergência até mesmo sobre o público exato no estádio. A WTA registra 30.172 espectadores, enquanto outras fontes históricas apresentam números ligeiramente diferentes. O dado mais consistente é que mais de 30 mil pessoas estavam no Astrodome, uma multidão excepcional para uma partida de tênis naquele período.

A audiência televisiva foi ainda mais extraordinária. A estimativa consagrada é de aproximadamente 50 milhões de espectadores nos Estados Unidos e mais de 90 milhões mundialmente. O confronto deixou de ser uma simples exibição esportiva e se tornou um evento de televisão.

Riggs ainda era apontado como favorito nas apostas. Segundo a reconstrução da WTA, as cotações chegaram a colocá-lo como favorito por 5 a 2, apesar da diferença de 26 anos e do fato de King continuar no topo do tênis feminino.

Depois de toda a encenação, King precisava fazer o que realmente importava: vencer.

King estudou a derrota de Margaret Court e recusou o jogo que Riggs queria disputar

Riggs havia vencido Court usando variações de ritmo, bolas mais lentas e mudanças de direção que impediram a australiana de impor seu jogo. King não pretendia repetir o erro. Preparou-se especificamente para enfrentar um adversário que dependia muito mais de inteligência, colocação e mudança de velocidade do que de potência.

Em vez de transformar a partida numa sucessão de ataques precipitados, King foi paciente. Movimentou Riggs, explorou sua menor capacidade física e evitou oferecer o tipo de erro que poderia permitir ao veterano controlar os pontos.

A estratégia funcionou desde o primeiro set. King venceu por 6/4 e aumentou a pressão sobre Riggs. Levou o segundo por 6/3 e repetiu o placar no terceiro, encerrando a partida sem precisar disputar os dois sets restantes do formato melhor de cinco.

O resultado de 6/4, 6/3 e 6/3 não deixou margem para uma virada dramática ou para a interpretação de que Riggs estivesse perto da vitória. King conquistou os US$ 100 mil reservados ao vencedor e, mais importante para seus objetivos, impediu que o espetáculo de Riggs terminasse com outra derrota de uma das principais representantes do circuito feminino.

A vitória também não demonstrava cientificamente uma suposta igualdade física entre homens e mulheres no tênis profissional. Riggs tinha 55 anos e estava aposentado do circuito de elite, enquanto King tinha 29 e permanecia entre as melhores jogadoras do mundo. O significado da partida era social, comercial e simbólico, não um experimento destinado a estabelecer equivalência atlética entre categorias.

A vitória não igualou os quatro Grand Slams, e a mudança demoraria décadas

O US Open já pagava igualmente quando King derrotou Riggs, mas os outros três Grand Slams não seguiram imediatamente o exemplo. O Australian Open estabeleceu igualdade permanente em 2001, Roland Garros completou o processo em 2006 e Wimbledon fez o mesmo em 2007.

Foram necessários, portanto, 34 anos depois da Batalha dos Sexos para que os quatro principais torneios oferecessem de forma permanente premiação igual a homens e mulheres. Isso mostra por que é exagerado estabelecer uma relação direta entre uma única partida de 1973 e todas as mudanças econômicas posteriores do tênis.

A influência do confronto ocorreu de outra maneira. King venceu diante de uma audiência gigantesca justamente quando o circuito feminino tentava provar seu valor comercial, institucional e esportivo. A partida mostrou que uma atleta mulher podia ocupar o centro de um dos maiores espetáculos televisivos do ano e gerar interesse mundial.

A própria King resumiria posteriormente o que considerava mais importante naquela noite: derrotar um homem de 55 anos não era sua grande realização. O que importava era a quantidade de pessoas que o evento havia levado a assistir ao tênis feminino e discutir a posição das mulheres no esporte.

O legado está menos em uma partida isolada e mais no que aconteceu ao redor dela

A “Batalha dos Sexos” sobreviveu porque reuniu numa única noite transformações que já estavam acontecendo havia anos. King e outras jogadoras haviam criado um circuito independente, organizado uma associação internacional e pressionado por premiações mais equilibradas. Fora das quadras, o movimento pelos direitos das mulheres alterava leis, instituições e expectativas sociais.

Riggs percebeu que essa tensão podia ser transformada em espetáculo e publicidade. King percebeu que o mesmo espetáculo poderia ser usado para dar visibilidade à causa que defendia. Os dois participaram do circo promocional, mas entraram na quadra com riscos muito diferentes para suas respectivas reputações.

A vitória por três sets a zero não criou a WTA, não aprovou o Título IX e não obrigou Wimbledon, Roland Garros e o Australian Open a igualarem imediatamente suas premiações. O que ela fez foi oferecer ao movimento uma imagem poderosa no momento em que essas disputas estavam ganhando força.

Em 20 de setembro de 1973, mais de 90 milhões de espectadores não assistiram ao nascimento da igualdade no esporte. Assistiram a uma das noites em que uma luta já em andamento se tornou impossível de ignorar.

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