Bicampeão da CART, o italiano sobreviveu a uma colisão devastadora em 2001, retornou às pistas com um carro adaptado e se reinventou no paraciclismo. Em Londres 2012 e no Rio 2016, somou seis medalhas paralímpicas, mas um novo acidente em 2020 mudou novamente sua trajetória.
Por Marcio Tamer
Atualizado em 19 de outubro de 2026
Em 15 de setembro de 2016, Alex Zanardi conquistou a medalha de ouro no contrarrelógio do paraciclismo nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro. A vitória aconteceu exatamente 15 anos depois do acidente automobilístico que provocou a amputação de suas duas pernas e quase lhe custou a vida.
A coincidência de datas transformou a conquista em um dos momentos mais marcantes daquela edição dos Jogos. Aos 49 anos, o italiano já havia vencido duas provas em Londres 2012 e se consolidado como um dos principais atletas do paraciclismo mundial.
Sua trajetória, porém, não começou no esporte paralímpico. Antes de competir com uma bicicleta impulsionada pelos braços, Zanardi havia sido bicampeão da CART, categoria de monopostos dos Estados Unidos, e disputado temporadas na Fórmula 1.
O acidente aconteceu em 2001, no circuito de Lausitzring, na Alemanha. Durante uma corrida da CART, seu carro foi atingido lateralmente em alta velocidade e sofreu danos catastróficos. Zanardi perdeu as duas pernas e grande parte do sangue do corpo, passou por sucessivas cirurgias e enfrentou uma longa recuperação.
A história poderia ter terminado ali, mas o italiano voltou a pilotar carros de corrida, venceu provas do Campeonato Mundial de Carros de Turismo e encontrou no paraciclismo uma nova oportunidade de competir em nível internacional.
Entre Londres 2012 e Rio 2016, conquistou quatro medalhas de ouro e duas de prata, uma marca que o colocou entre os atletas mais reconhecidos do movimento paralímpico.
O que torna sua trajetória ainda mais singular é que a reinvenção não ocorreu apenas uma vez. Depois de sobreviver ao acidente de 2001, Zanardi voltou a enfrentar uma situação gravíssima em junho de 2020, quando sofreu uma colisão durante um evento de paraciclismo na Itália.
Antes do acidente, Zanardi já havia conquistado dois títulos na CART
Alessandro Zanardi nasceu em 23 de outubro de 1966, em Bolonha, na Itália. Começou no kart e avançou pelas categorias de formação do automobilismo europeu até alcançar a Fórmula 1, em 1991.
Sua passagem inicial pela principal categoria do automobilismo mundial incluiu equipes como Jordan, Minardi e Lotus. Os resultados foram limitados, e o italiano não conseguiu se estabelecer entre os principais pilotos do campeonato.
A transformação aconteceu quando decidiu competir nos Estados Unidos.
Em 1996, Zanardi estreou na CART pela equipe Chip Ganassi Racing. A categoria reunia carros de alto desempenho em circuitos mistos, de rua e ovais, exigindo grande capacidade de adaptação dos pilotos.
O italiano rapidamente se destacou por seu estilo agressivo, pelas ultrapassagens e pela habilidade de recuperar posições em corridas difíceis.
Em 1997, conquistou seu primeiro campeonato da CART. No ano seguinte, repetiu o título, consolidando-se como uma das principais estrelas do automobilismo norte-americano.
Zanardi também ficou conhecido pelas comemorações com giros do carro, os chamados donuts, que se tornaram sua marca registrada.
O sucesso abriu caminho para um retorno à Fórmula 1 em 1999, pela Williams. A temporada, porém, foi frustrante: o piloto não marcou pontos e deixou a equipe ao fim do campeonato.
Em 2001, voltou à CART pela Mo Nunn Racing. Foi durante essa segunda passagem pela categoria que sofreu o acidente que transformaria sua vida.
O que aconteceu no acidente de Alex Zanardi em Lausitzring?
Em 15 de setembro de 2001, a CART disputava uma etapa no EuroSpeedway Lausitz, circuito oval localizado na Alemanha.
A corrida era realizada apenas quatro dias depois dos atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, num momento de forte comoção internacional.
Zanardi realizava uma de suas melhores apresentações desde o retorno à categoria. Havia avançado pelo pelotão e assumido a liderança da prova.
Faltavam poucas voltas para o fim quando o italiano entrou nos boxes para sua última parada.
Ao retornar à pista, perdeu o controle do carro, que rodou e ficou atravessado na trajetória dos demais competidores.
O canadense Alex Tagliani se aproximava em alta velocidade e não conseguiu evitar a colisão.
O impacto atingiu lateralmente o carro de Zanardi, na região do cockpit, provocando uma destruição extrema do veículo.
A violência do choque causou amputações traumáticas nas duas pernas do piloto e uma hemorragia maciça.
As equipes médicas precisaram agir imediatamente para controlar o sangramento e mantê-lo vivo.
A corrida foi interrompida, e Zanardi foi levado ao hospital em estado crítico.
A prioridade deixou de ser qualquer possibilidade de retorno ao automobilismo. Naquele momento, o desafio era sua sobrevivência.
Como Zanardi sobreviveu à perda das duas pernas e a uma hemorragia extrema?
A colisão provocou ferimentos que colocaram Zanardi em risco imediato de morte.
O italiano perdeu uma quantidade extraordinária de sangue, frequentemente descrita em relatos do acidente como próxima de três quartos de seu volume sanguíneo.
A atuação das equipes de resgate foi decisiva. Os médicos precisaram controlar a hemorragia, realizar procedimentos de emergência e garantir que o piloto chegasse ao hospital com possibilidade de sobreviver.
Zanardi passou por cirurgias e permaneceu sob cuidados intensivos.
As amputações ocorreram em níveis diferentes das pernas, circunstância que posteriormente influenciaria a adaptação às próteses e aos equipamentos esportivos.
A recuperação física exigiu meses de tratamento, mas o desafio não se limitava à cicatrização dos ferimentos.
O piloto precisava reaprender movimentos cotidianos, desenvolver equilíbrio e adaptar sua rotina a uma condição física completamente diferente.
Sua experiência no automobilismo, especialmente a familiaridade com ajustes mecânicos e soluções técnicas, ajudaria na etapa seguinte.
Zanardi não tratou as próteses apenas como equipamentos médicos prontos para uso. Participou ativamente de adaptações e modificações para torná-las mais adequadas às suas necessidades.
Essa abordagem seria fundamental para seu retorno às pistas.
Zanardi voltou ao circuito do acidente para completar as voltas que faltavam
Em maio de 2003, menos de dois anos depois da colisão, Zanardi retornou a Lausitzring para um momento carregado de significado.
O italiano pilotou um carro adaptado, equipado com controles manuais, e completou 13 voltas no circuito onde quase havia perdido a vida.
O número não foi escolhido por acaso. Correspondia às voltas que faltavam para o fim da corrida interrompida pelo acidente de 2001.
A demonstração não era uma participação oficial numa competição, mas simbolizava uma conquista importante: Zanardi havia recuperado a capacidade de pilotar um carro de corrida em alta velocidade.
Depois, voltou a competir profissionalmente em categorias de turismo.
No Campeonato Mundial de Carros de Turismo, o WTCC, utilizou veículos adaptados e conquistou vitórias, incluindo um triunfo em Oschersleben, na Alemanha, em 2005.
O resultado teve um significado especial porque mostrou que sua volta não se limitava a demonstrações ou participações simbólicas. Zanardi ainda conseguia disputar posições e vencer adversários em competições profissionais.
Sua carreira no automobilismo continuou por vários anos, mas uma nova modalidade começaria a ocupar espaço crescente em sua rotina.
A handbike transformou a experiência de piloto em uma nova carreira esportiva
Em 2007, Zanardi começou a se dedicar ao paraciclismo com handbike, um equipamento impulsionado principalmente pela força dos braços.
A modalidade exige resistência cardiovascular, potência muscular, coordenação e capacidade de administrar o esforço durante provas longas.
Para o italiano, havia também um componente técnico familiar. Assim como no automobilismo, o desempenho dependia da relação entre atleta, equipamento, aerodinâmica e estratégia.
Zanardi participou de adaptações e do desenvolvimento de soluções para melhorar sua posição e eficiência na bicicleta.
A transição não foi imediata. Embora tivesse experiência em competições de alto nível, precisava desenvolver uma preparação física específica para uma modalidade muito diferente das corridas de automóveis.
Ainda em 2007, participou da Maratona de Nova York na categoria de handbike, depois de um período relativamente curto de treinamento.
Nos anos seguintes, evoluiu até conquistar títulos mundiais de paraciclismo.
O objetivo passou a ser a classificação para os Jogos Paralímpicos de Londres 2012.
Aos 45 anos, Zanardi se preparava para estrear no maior evento do esporte paralímpico.
Londres 2012 levou Zanardi de volta a Brands Hatch, onde já havia corrido de carro
A estreia paralímpica aconteceu em setembro de 2012, nos Jogos de Londres.
As provas de ciclismo de estrada foram disputadas no circuito de Brands Hatch, tradicional autódromo britânico que havia recebido competições de automobilismo.
O local tinha um significado particular para Zanardi, que já havia competido ali antes do acidente.
Em 5 de setembro de 2012, o italiano venceu o contrarrelógio masculino da classe H4.
A prova exigia que cada atleta percorresse o circuito individualmente, buscando o menor tempo possível.
Zanardi completou o percurso com vantagem superior a 27 segundos sobre o segundo colocado, o alemão Norbert Mosandl.
A conquista foi sua primeira medalha de ouro paralímpica.
Dois dias depois, voltou a vencer, desta vez na prova de estrada H4.
Em 8 de setembro, acrescentou uma medalha de prata no revezamento misto por equipes H1-4, ao lado de outros integrantes da delegação italiana.
Terminou os Jogos de Londres com dois ouros e uma prata.
Uma das imagens mais conhecidas daquela edição mostrou Zanardi erguendo sua handbike de fibra de carbono durante a comemoração.
O antigo piloto havia retornado ao topo de uma competição internacional, agora numa modalidade que começara a praticar apenas cinco anos antes.
O ouro do Rio foi decidido por apenas 2,74 segundos
Quatro anos depois, Zanardi chegou aos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro aos 49 anos.
Dessa vez, competia na classe H5, destinada a atletas que utilizam handbikes e atendem aos critérios funcionais dessa classificação.
A primeira prova foi o contrarrelógio de 20 quilômetros, disputado em 14 de setembro de 2016, na região do Pontal, na Zona Oeste do Rio.
Zanardi completou o percurso em 28 minutos e 36,81 segundos.
O australiano Stuart Tripp terminou em segundo, com 28 minutos e 39,55 segundos.
A diferença foi de apenas 2,74 segundos.
O resultado demonstrou a competitividade da disputa. Zanardi precisou recuperar tempo durante o percurso e manter um ritmo elevado até a chegada para conquistar seu terceiro ouro paralímpico.
A vitória aconteceu na véspera do aniversário de 15 anos do acidente de Lausitzring.
O dia exato da coincidência histórica, porém, ainda reservaria outra medalha.
Exatamente 15 anos depois do acidente, Zanardi conquistou a prata no Rio
Em 15 de setembro de 2016, exatamente 15 anos após a colisão na Alemanha, Zanardi disputou a prova de estrada H5.
A competição foi extremamente equilibrada.
O sul-africano Ernst van Dyk conquistou o ouro, enquanto Zanardi terminou em segundo e recebeu a medalha de prata. O holandês Jetze Plat completou o pódio.
Os três primeiros colocados receberam o mesmo tempo oficial, com a classificação definida pela chegada.
A medalha de prata foi a quinta da carreira paralímpica de Zanardi.
A data chamou atenção porque correspondia ao aniversário do acidente de 2001. O próprio italiano passou a se referir à ocasião como uma espécie de segundo aniversário, em reconhecimento à sobrevivência.
No dia seguinte, 16 de setembro, Zanardi conquistou mais um ouro, desta vez no revezamento misto por equipes H2-5, ao lado dos compatriotas Vittorio Podestà e Luca Mazzone.
Assim, a sequência no Rio teve três resultados diferentes: ouro no contrarrelógio em 14 de setembro, prata na prova de estrada no dia 15 e ouro no revezamento no dia 16.
A precisão dessas datas importa porque a conquista no aniversário do acidente foi uma medalha de prata, e não o ouro individual, como algumas retrospectivas acabam informando.
As seis medalhas paralímpicas de Zanardi em Londres e no Rio
| Jogos | Data | Prova | Medalha |
|---|---|---|---|
| Londres 2012 | 5 de setembro | Contrarrelógio H4 | Ouro |
| Londres 2012 | 7 de setembro | Estrada H4 | Ouro |
| Londres 2012 | 8 de setembro | Revezamento misto H1-4 | Prata |
| Rio 2016 | 14 de setembro | Contrarrelógio H5 | Ouro |
| Rio 2016 | 15 de setembro | Estrada H5 | Prata |
| Rio 2016 | 16 de setembro | Revezamento misto H2-5 | Ouro |
| Total | Duas edições | Seis provas com medalha | 4 ouros e 2 pratas |
Os resultados confirmam uma trajetória rara no esporte de alto rendimento.
Zanardi havia conquistado dois campeonatos na CART antes do acidente e, depois da amputação das pernas, alcançou quatro títulos paralímpicos em outra modalidade.
A transição exigiu uma preparação física completamente diferente, além de adaptação técnica e anos de treinamento.
Também ampliou seu reconhecimento internacional para além do automobilismo.
O italiano passou a ser conhecido tanto pelas vitórias nas pistas quanto pelos resultados no paraciclismo.
Um segundo acidente grave, em 2020, interrompeu sua trajetória esportiva
Em 19 de junho de 2020, Zanardi sofreu outro acidente grave, desta vez durante um evento de paraciclismo na Toscana, na Itália.
O atleta participava de uma etapa do projeto Obiettivo Tricolore, iniciativa ligada ao esporte e à participação de atletas com deficiência.
Durante o percurso, sua handbike se envolveu numa colisão com um caminhão.
Zanardi sofreu graves lesões na cabeça e precisou ser levado ao hospital, onde passou por procedimentos cirúrgicos e permaneceu sob cuidados intensivos.
O acidente iniciou um novo e prolongado período de recuperação.
Diferentemente da trajetória posterior à colisão de 2001, não houve retorno às competições de alto rendimento.
A situação exigiu cuidados médicos e reabilitação, com informações públicas mais limitadas sobre sua condição ao longo dos anos seguintes.
O episódio também impediu que Zanardi participasse dos Jogos Paralímpicos de Tóquio, realizados em 2021.
Sua carreira esportiva já havia produzido resultados extraordinários, mas a segunda colisão trouxe consequências graves para sua saúde e sua vida cotidiana.
Alex Zanardi morreu em 2026, aos 59 anos
Alex Zanardi morreu em 1º de maio de 2026, aos 59 anos, na Itália. A morte foi anunciada por sua família e confirmada no dia seguinte por entidades do automobilismo, incluindo a Fórmula 1, a IndyCar e a Federação Internacional do Automóvel.
A notícia provocou homenagens de pilotos, equipes e organizações esportivas.
A IndyCar recordou os dois títulos conquistados em 1997 e 1998 e destacou as 15 vitórias obtidas pelo italiano na categoria.
A Fórmula 1 relembrou suas 41 participações em Grandes Prêmios, enquanto a FIA ressaltou a trajetória que o levou do automobilismo ao pódio paralímpico.
Zanardi deixou a esposa, Daniela, e o filho, Niccolò.
Sua história passou a reunir duas carreiras esportivas de alto nível, separadas por um acidente que mudou radicalmente sua condição física.
Na primeira, tornou-se bicampeão da CART e um dos pilotos mais populares dos Estados Unidos. Na segunda, conquistou quatro medalhas de ouro paralímpicas e títulos mundiais de paraciclismo.
O legado também inclui sua contribuição para a visibilidade do esporte praticado por pessoas com deficiência.
Sua trajetória demonstrou a importância de equipamentos adaptados, preparação especializada e oportunidades competitivas para atletas com diferentes condições físicas.
A imagem de Zanardi levantando sua handbike em Brands Hatch, em 2012, e a medalha conquistada exatamente 15 anos depois do acidente, no Rio de Janeiro, permaneceram entre os símbolos mais conhecidos de sua carreira.
Quando sua morte foi anunciada, em maio de 2026, o italiano já havia deixado uma marca incomum na história do esporte: venceu campeonatos internacionais antes e depois de perder as duas pernas, retornou ao automobilismo com carros adaptados e se tornou campeão paralímpico em uma modalidade completamente diferente.
+ Siga o Giro no Facebook
+ Siga o Giro no Instagram
Leia Mais:

