Tem uma pergunta que todo fã de futebol deveria conhecer a resposta, mas a maioria nunca parou para descobrir: o que aconteceu com a taça Jules Rimet, o troféu original da Copa do Mundo? Não estamos falando da taça atual, aquela de ouro com as mãos sustentando o globo. Estamos falando do troféu que foi entregue ao campeão mundial de 1930 até 1970, uma peça de ouro maciço que atravessou guerras, sumiu duas vezes e provavelmente foi destruída para sempre.

A história desse troféu é tão maluca que parece roteiro de filme. Em quatro décadas de existência, a taça Jules Rimet foi escondida debaixo de uma cama para não cair nas mãos dos nazistas, ficou guardada num banco italiano durante anos, foi encontrada por um cachorro em Londres e acabou roubada no Rio de Janeiro num crime que nunca foi completamente solucionado.

O Brasil ganhou o direito de ficar com ela para sempre em 1970, depois do tricampeonato. Treze anos depois, a taça sumiu. E o que se sabe até hoje é que ela provavelmente virou lingote de ouro nas mãos dos ladrões, derretida antes que qualquer investigação pudesse avançar.

Essa é a história completa de como o troféu mais importante da história do futebol simplesmente deixou de existir.

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Como surgiu a taça Jules Rimet

A criação do troféu que mudou o futebol

Quando a FIFA decidiu criar sua própria competição mundial, em 1928, precisava também de um troféu à altura. A missão de projetar a peça foi dada ao escultor francês Abel Lafleur, que entregou algo diferente de tudo que existia no esporte até então.

A taça tinha 35 centímetros de altura e pesava cerca de 3,8 quilos. Era feita de ouro sobre uma base de pedra-azul lapislázuli, e no topo havia uma figura da deusa grega da vitória, Nike, com os braços abertos sustentando uma taça octogonal. O design era claramente art déco, o estilo que dominava a arte e a arquitetura dos anos 1920.

Originalmente, o troféu foi chamado apenas de “Copa do Mundo” ou “Vitória”. Só em 1946, durante um congresso da FIFA em Luxemburgo, é que a peça ganhou oficialmente o nome de Taça Jules Rimet, em homenagem ao presidente francês que havia lutado por décadas para transformar o Mundial em realidade.

A taça foi entregue ao Uruguai em 1930 depois que a Celeste venceu a Argentina na final em Montevidéu. A partir dali, cada campeão recebeu o troféu e ficou com ele até a próxima Copa, quando era devolvido à FIFA para ser entregue ao novo vencedor.

A Segunda Guerra Mundial e a caixa de sapatos que salvou tudo

Aqui começa a parte da história que parece ficção. Quando a Segunda Guerra Mundial eclodiu e a Itália ficou sob domínio nazifascista, o troféu estava em Roma. Os italianos tinham vencido as Copas de 1934 e 1938 e guardavam a taça numa exibição pública no banco Ambrosiano.

O vice-presidente da FIFA, o italiano Ottorino Barassi, percebeu o perigo. Com a Alemanha nazista ocupando partes da Itália e confiscando obras de arte e objetos de valor por todo lado, era questão de tempo até que alguém de uniforme chegasse atrás do troféu mais famoso do futebol.

Barassi foi até o banco, pegou a taça e levou para casa. Escondeu o troféu original da Copa do Mundo numa simples caixa de sapatos, guardada debaixo da própria cama. Ficou assim durante toda a guerra, de 1940 a 1945. Nenhum soldado jamais soube que estava passando pelo quarto onde o maior símbolo do futebol mundial dormia empoeirado entre o colchão e o assoalho.

Quando a guerra acabou e as Copas puderam ser retomadas, Barassi entregou a taça pessoalmente à FIFA. A peça estava intacta. Esse gesto corajoso de um dirigente que arriscou a própria segurança para preservar o patrimônio do futebol é um dos capítulos menos contados dessa história toda.

O cachorro Pickles e o roubo de Londres

Se a história da caixa de sapatos já é incrível, o que aconteceu em 1966 é ainda mais improvável.

A Inglaterra tinha acabado de receber o direito de sediar a Copa do Mundo. Para celebrar e promover o torneio, a FA, Federação Inglesa de Futebol, organizou uma exposição itinerante com a taça Jules Rimet como peça central. O troféu estava em exposição no Central Hall Westminster, em Londres, quando foi roubado em 20 de março de 1966, quatro meses antes do início do torneio.

O roubo aconteceu num domingo. Três guardas estavam no local, a taça estava numa vitrine trancada e mesmo assim alguém entrou, quebrou o vidro e levou o troféu. A Scotland Yard investigou o caso como urgência máxima. A Inglaterra estava prestes a ser palco da Copa do Mundo e o troféu principal havia sumido. O constrangimento diplomático e esportivo era enorme.

Uma semana depois, um homem ligou pedindo resgate: 15 mil libras pela devolução da taça. A polícia tentou uma negociação, houve um encontro, mas o suspeito foi preso antes de entregar o troféu e disse que outra pessoa estava com a peça.

Foi aí que entrou o personagem mais improvável dessa história toda: um cachorro vira-lata chamado Pickles.

Em 27 de março de 1966, sete dias depois do roubo, Pickles estava farejando o jardim da casa de seu dono, David Corbett, num subúrbio do sul de Londres. O cachorro começou a cavar com insistência perto de uma cerca e encontrou alguma coisa embrulhada em jornal. Corbett desembrulhou e reconheceu imediatamente o troféu mais famoso do mundo.

A taça Jules Rimet havia sido encontrada por um cachorro num jardim doméstico.

Pickles virou celebridade instantânea. Ganhou prêmios, apareceu em programas de televisão, foi convidado para o banquete de celebração depois que a Inglaterra venceu a Copa daquele ano. Seu dono recebeu uma recompensa de 6 mil libras. O cachorro chegou a ganhar um papel num filme.

O principal suspeito do roubo, Edward Betchley, foi condenado por extorsão mas nunca revelou onde a taça estava nem quem havia cometido o furto originalmente. O crime nunca foi completamente elucidado.

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O Brasil ganha a taça para sempre, e então perde

A regra da FIFA era clara desde o início: a seleção que vencesse a Copa do Mundo três vezes ficaria com a taça Jules Rimet em definitivo. O Brasil chegou perto em 1958 e 1962, quando conquistou o bi, mas foi em 1970 no México que a Seleção fechou a conta.

Aquela equipe de 1970 é considerada por muitos o melhor time da história. Pelé, Rivelino, Tostão, Jairzinho, Gérson. O Brasil passou pelo torneio inteiro jogando um futebol que o mundo nunca tinha visto, ganhou todos os jogos da fase de grupos, bateu o Uruguai na semifinal e destruiu a Itália por 4 a 1 na final.

Com o tricampeonato, a taça Jules Rimet virou propriedade permanente da CBF. Foi levada ao Brasil e ficou em exibição na sede da entidade, no Rio de Janeiro. A FIFA criou um novo troféu para as edições seguintes, aquele que existe até hoje, e a taça original ficou definitivamente com os brasileiros.

Por treze anos, tudo correu bem. A taça estava lá, exposta, visitada por torcedores e jornalistas. Até que na madrugada de 19 para 20 de dezembro de 1983, ladrões entraram na sede da CBF e levaram o troféu.

O roubo foi surpreendentemente simples. Os criminosos forçaram uma janela, desativaram o alarme e quebraram a vitrine de vidro onde a taça estava guardada. Em menos de meia hora, o símbolo máximo do futebol brasileiro havia sumido.

O que pouca gente sabe sobre o desaparecimento da taça Jules Rimet

A investigação que nunca terminou direito

A polícia do Rio de Janeiro investigou o caso por meses. Dois homens foram presos: João Carlos Ayres Chupeta e Sérgio Apparecido Fernandes. Durante os interrogatórios, os suspeitos confessaram o roubo e deram detalhes sobre como tudo aconteceu.

A versão que prevaleceu nas investigações é que o grupo precisava de dinheiro rápido e sabia que uma peça de ouro maciço valeria uma fortuna se fosse fundida. Segundo os relatos colhidos pela polícia, a taça teria sido derretida logo depois do roubo, transformada em barras de ouro e vendida no mercado negro.

Se essa versão for verdadeira, a taça Jules Rimet deixou de existir poucos dias depois de desaparecer. A peça que sobreviveu a dois roubos, a uma guerra mundial e a quatro décadas de história teria sido destruída por ladrões que nem faziam ideia do que estavam

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