Depois de derrotas para Andre Agassi e Pete Sampras, o croata recebeu um wild card, superou sete adversários e conquistou seu único Grand Slam aos 29 anos. A final contra Patrick Rafter aconteceu numa segunda-feira, diante de uma torcida incomumente barulhenta, e terminou apenas no quarto match point.

Por Marcio Tamer

Atualizado em 16 de outubro de 2026

Goran Ivanišević chegou a Wimbledon em 2001 como o 125º colocado do ranking mundial, sem classificação suficiente para entrar diretamente na chave principal. Aos 29 anos, sofria com problemas no ombro esquerdo e carregava três derrotas em finais do torneio. Recebeu um convite da organização, venceu sete partidas e, em 9 de julho de 2001, derrotou Patrick Rafter por 6/3, 3/6, 6/3, 2/6 e 9/7 para conquistar o título mais importante de sua carreira.

A vitória produziu um feito que permanece único no tênis masculino: Ivanišević é o único jogador a conquistar um título de simples de Grand Slam depois de entrar na chave principal por wild card, o convite concedido pela organização a atletas que não obtiveram vaga pelo ranking ou pelo classificatório.

O desfecho foi ainda mais improvável porque a final aconteceu numa segunda-feira, após uma sequência de interrupções provocadas pela chuva. A mudança permitiu a entrada de milhares de torcedores que normalmente não teriam acesso à decisão, criando uma atmosfera semelhante à de um estádio de futebol.

Diante do australiano Patrick Rafter, bicampeão do US Open, o croata precisou de cinco sets, salvou-se de momentos de enorme pressão e desperdiçou três oportunidades de encerrar a partida antes de finalmente conquistar o título.

Quando a devolução de Rafter parou na rede no quarto match point, Ivanišević caiu de joelhos e chorou sobre a grama da Quadra Central. A cena encerrou uma espera de nove anos desde sua primeira final em Wimbledon.

Por que Ivanišević precisou de um convite para disputar Wimbledon?

O croata já havia sido um dos melhores tenistas do mundo. Em 1994, alcançou o segundo lugar do ranking da ATP, impulsionado por seu saque de canhota, um dos mais difíceis de devolver naquela geração.

Mas a situação era muito diferente em 2001.

As lesões, especialmente no ombro esquerdo, haviam prejudicado sua continuidade no circuito. Os resultados pioraram, e o jogador caiu para a 125ª posição do ranking.

Essa classificação não garantia entrada direta na chave principal masculina de Wimbledon.

A organização, porém, decidiu conceder um wild card, mecanismo que permite incluir determinados jogadores no torneio independentemente da posição no ranking.

O convite não significava vantagem dentro da competição. Ivanišević ainda precisaria vencer sete partidas, como qualquer outro campeão de Grand Slam.

O que justificava a escolha era seu histórico no torneio. Ele havia disputado três finais em Wimbledon e era reconhecido como um dos grandes especialistas em quadras de grama.

A decisão se revelou extraordinária.

Segundo retrospectiva publicada pelo próprio Wimbledon em julho de 2026, Ivanišević havia sido derrotado em sets diretos por Cristiano Caratti, no torneio de Queen’s Club, apenas 28 dias antes de levantar o troféu.

Naquele momento, quase nada indicava que estava prestes a conquistar o maior título de sua carreira.

As derrotas de 1992, 1994 e 1998 transformaram Wimbledon numa obsessão

A relação de Ivanišević com Wimbledon começou muito antes de 2001.

Em 1992, aos 20 anos, ele alcançou sua primeira final do torneio. Enfrentou Andre Agassi, que até então também buscava seu primeiro título de Grand Slam.

A decisão foi disputada em cinco sets, mas o norte-americano venceu por 6/7, 6/4, 6/4, 1/6 e 6/4.

Ivanišević voltou à final em 1994, quando enfrentou Pete Sampras, então um dos jogadores mais dominantes do circuito.

Sampras venceu por 7/6, 7/6 e 6/0, conquistando seu segundo título consecutivo em Wimbledon.

Quatro anos depois, em 1998, os dois se encontraram novamente na decisão.

Dessa vez, o croata levou o confronto ao quinto set, mas Sampras venceu por 6/7, 7/6, 6/4, 3/6 e 6/2.

As três derrotas construíram uma narrativa dolorosa: Ivanišević tinha um saque devastador, conhecia as particularidades da grama e conseguia chegar às partidas decisivas, mas nunca havia conquistado o troféu.

Quando voltou a Wimbledon em 2001, já não era um dos principais favoritos. Era um veterano tentando aproveitar uma oportunidade que poderia ser a última.

O saque de canhota voltou a funcionar e eliminou adversários de peso

A campanha começou sem grande repercussão.

Na primeira rodada, Ivanišević derrotou o sueco Fredrik Jonsson em três sets.

O segundo confronto trouxe um adversário de maior prestígio: Carlos Moyá, ex-número 1 do mundo e campeão de Roland Garros em 1998.

O croata venceu em quatro sets e começou a chamar atenção.

Na terceira rodada, enfrentou Andy Roddick, jovem norte-americano que se tornaria número 1 do mundo e campeão do US Open em 2003.

Ivanišević precisou de cinco sets para vencer. No match point, acertou seu 42º ace da partida, segundo a retrospectiva oficial de Wimbledon.

A vitória mostrou que seu principal recurso técnico continuava capaz de desequilibrar confrontos.

O saque de canhota era especialmente perigoso na grama porque a bola quicava baixo e dificultava a devolução. Ivanišević conseguia abrir ângulos, sacar com potência e conquistar pontos rápidos.

Isso também ajudava a reduzir a duração das trocas de bola, fator relevante para um jogador que enfrentava limitações físicas.

Nas oitavas de final, eliminou o britânico Greg Rusedski em três sets.

Nas quartas, superou o russo Marat Safin, então campeão do US Open, em quatro sets.

O convidado que havia começado o torneio fora dos 100 melhores do mundo estava entre os quatro semifinalistas.

A semifinal contra Tim Henman durou três dias e foi interrompida pela chuva

O confronto com Tim Henman, principal esperança britânica de conquistar Wimbledon, tornou-se um dos episódios mais dramáticos da campanha.

Henman havia eliminado Roger Federer nas quartas de final. O suíço, então com 19 anos, chegara àquela fase depois de derrotar Pete Sampras, sete vezes campeão do torneio.

A semifinal entre Henman e Ivanišević começou na sexta-feira, 6 de julho de 2001, mas a chuva impediu sua conclusão.

O britânico venceu o primeiro set por 7/5 e o segundo por 7/6. Ivanišević reagiu e conquistou o terceiro por 6/0.

Quando a partida foi interrompida, Henman liderava por dois sets a um e tinha vantagem de 2 a 1 no quarto set.

A situação parecia favorecer o jogador da casa.

No sábado, a chuva voltou a atrapalhar o confronto. Henman chegou a ficar a dois pontos da vitória, mas não conseguiu encerrar a partida.

A definição ficou para o domingo, dia tradicionalmente reservado à final masculina.

Ivanišević conseguiu vencer o quarto set no tie-break e levou a decisão ao quinto.

No set decisivo, manteve a concentração e venceu por 6/3.

O placar completo foi 7/5, 6/7, 0/6, 7/6 e 6/3, sempre na perspectiva de Ivanišević.

A vitória colocou o croata em sua quarta final de Wimbledon.

A chuva havia atrasado a programação, mas também criara uma circunstância incomum: a decisão masculina seria disputada numa segunda-feira.

Por que a final de 2001 ficou conhecida como People’s Monday?

Wimbledon tradicionalmente encerra o torneio masculino num domingo.

Em 2001, porém, as interrupções provocadas pela chuva impediram que a programação fosse cumprida.

A final entre Ivanišević e Patrick Rafter foi transferida para segunda-feira, 9 de julho.

A mudança produziu uma situação especial.

Segundo o compêndio histórico oficial de Wimbledon, a organização disponibilizou 10 mil lugares sem reserva prévia para o público naquele dia.

A oportunidade atraiu torcedores que normalmente não participavam da decisão, incluindo muitos croatas e australianos.

O resultado foi uma atmosfera diferente da tradicional solenidade da Quadra Central.

Os espectadores cantavam, agitavam bandeiras e incentivavam os jogadores com intensidade. Em determinados momentos, o ambiente lembrava mais uma partida de futebol do que uma final de tênis.

A ocasião ficou conhecida como People’s Monday, expressão que pode ser traduzida como Segunda-Feira do Povo.

O público não era apenas um detalhe da história. A energia das arquibancadas acompanhou uma partida marcada por alternâncias constantes de vantagem e grande tensão emocional.

A final se tornou uma experiência incomum tanto para os jogadores quanto para quem estava presente.

Patrick Rafter também buscava encerrar uma espera em Wimbledon

O adversário de Ivanišević era Patrick Rafter, australiano conhecido por seu estilo de saque e voleio.

Rafter havia conquistado o US Open em 1997 e 1998, mas ainda não tinha vencido Wimbledon.

Em 2000, chegara à final do torneio, quando foi derrotado por Pete Sampras em quatro sets.

Assim, a decisão de 2001 reunia dois jogadores experientes que conheciam a frustração de perder finais na grama londrina.

Rafter era o terceiro cabeça de chave e tinha uma posição no ranking muito superior à de Ivanišević.

Seu estilo também era adequado à superfície. O australiano sacava e avançava rapidamente à rede, procurando encerrar os pontos com voleios.

O confronto prometia poucos ralis longos e muitos pontos decididos pelo saque.

Mas a principal diferença estava no peso emocional.

Rafter tentava conquistar seu primeiro título em Wimbledon. Ivanišević buscava impedir que a quarta final terminasse como as três anteriores.

Para o croata, aquela oportunidade parecia representar muito mais do que um troféu.

A final alternou quatro sets antes de chegar ao dramático 9 a 7

Ivanišević começou a decisão de maneira eficiente e venceu o primeiro set por 6/3.

Rafter reagiu no segundo, aproveitando oportunidades de quebra e empatando o confronto com outro 6/3.

No terceiro set, o croata voltou a controlar melhor seus games de saque e venceu por 6/3.

A vantagem, porém, não durou.

Rafter dominou o quarto set, venceu por 6/2 e levou a partida à quinta parcial.

Naquele momento, não havia tie-break no quinto set de Wimbledon. Para vencer, era necessário abrir dois games de vantagem.

O confronto se prolongou, com os dois jogadores mantendo seus serviços e enfrentando a pressão crescente da Quadra Central.

O placar chegou a 7 a 7.

Ivanišević então conseguiu a quebra decisiva e passou a liderar por 8 a 7.

Depois de três finais perdidas, o croata teria a oportunidade de sacar para conquistar Wimbledon.

O jogo mais importante de sua carreira ainda reservaria momentos de enorme nervosismo.

Ivanišević desperdiçou três match points antes de conquistar o título

Sacando em 8 a 7 no quinto set, Ivanišević começou o game decisivo sob enorme pressão.

O croata cometeu erros, incluindo duplas faltas, e permitiu que Rafter permanecesse na disputa.

Mesmo assim, conseguiu criar oportunidades de encerrar a partida.

No primeiro match point, cometeu uma dupla falta.

Mais tarde, teve outra chance e voltou a errar o saque.

Na terceira oportunidade, Rafter conseguiu manter o ponto vivo e evitou a derrota.

A tensão era visível. Ivanišević demonstrava dificuldade para controlar as emoções, enquanto a torcida reagia intensamente a cada ponto.

Finalmente, o croata conquistou um quarto match point.

Dessa vez, colocou o saque em jogo. Rafter tentou devolver, mas a bola parou na rede.

A partida terminou.

Goran Ivanišević venceu Patrick Rafter por 6/3, 3/6, 6/3, 2/6 e 9/7.

O confronto durou 3 horas e 2 minutos.

O croata caiu de joelhos, chorou e depois se deitou sobre a grama da Quadra Central.

A imagem tornou-se uma das celebrações mais reconhecidas da história de Wimbledon.

O campeão de 2001 venceu sete partidas e entrou para uma lista única

A campanha de Ivanišević exigiu vitórias contra adversários de diferentes gerações e estilos.

FaseAdversárioResultado
Primeira rodadaFredrik Jonsson3 sets a 0
Segunda rodadaCarlos Moyá3 sets a 1
Terceira rodadaAndy Roddick3 sets a 2
Oitavas de finalGreg Rusedski3 sets a 0
Quartas de finalMarat Safin3 sets a 1
SemifinalTim Henman3 sets a 2
FinalPatrick Rafter3 sets a 2

A sequência incluiu vitórias sobre jogadores que já haviam conquistado títulos de Grand Slam ou que se tornariam campeões posteriormente.

Moyá era campeão de Roland Garros. Safin havia vencido o US Open de 2000. Rafter tinha dois títulos do US Open.

Roddick conquistaria o US Open em 2003.

Além disso, Henman representava a maior esperança britânica de vencer Wimbledon naquele período.

O caminho até o título, portanto, não foi facilitado pelo convite recebido antes do torneio.

Ivanišević precisou superar adversários de alto nível e vencer três partidas em cinco sets.

O feito permanece singular: nenhum outro homem conquistou um título de simples de Grand Slam entrando na chave principal por wild card.

O recorde de aces mostrou como o saque sustentou a campanha

O saque foi a principal arma de Ivanišević durante Wimbledon 2001.

Segundo o compêndio histórico oficial do torneio, o croata acertou 212 aces ao longo da competição, superando sua própria marca anterior, estabelecida em 1992.

O número revela a importância de um fundamento que havia marcado toda sua carreira.

Um ace acontece quando o saque é válido e o adversário não consegue tocar na bola.

Na grama, superfície tradicionalmente rápida, esse recurso era especialmente eficiente.

Ivanišević utilizava o saque para conquistar pontos diretos, reduzir a necessidade de trocas prolongadas e pressionar os adversários nos momentos decisivos.

A estratégia também ajudava a compensar suas limitações físicas.

Mesmo enfrentando problemas no ombro, o croata conseguiu manter um nível de serviço suficiente para derrotar jogadores mais jovens e melhor posicionados no ranking.

O recorde de aces não explica sozinho a conquista, mas ajuda a entender por que um jogador em declínio no circuito ainda podia ser extremamente perigoso em Wimbledon.

O título foi o último da carreira de Ivanišević

A conquista de Wimbledon 2001 teve um significado especial porque aconteceu quando a carreira do croata parecia próxima do fim.

Ivanišević havia passado anos tentando conquistar o torneio, sofrido derrotas dolorosas e enfrentado problemas físicos que prejudicaram seu desempenho.

Ao vencer Rafter, conquistou seu 22º título de simples no circuito profissional, o último de sua carreira.

Depois de Wimbledon, continuou competindo, mas as lesões limitaram sua participação nos torneios.

Em 2002, passou por uma cirurgia no ombro e ficou afastado durante parte significativa da temporada.

Retornou em ocasiões específicas, mas não conseguiu recuperar a regularidade dos melhores anos.

Sua despedida de Wimbledon aconteceu em 2004, quando foi derrotado por Lleyton Hewitt na terceira rodada.

O último grande capítulo de sua carreira como jogador havia sido escrito três anos antes, naquela segunda-feira de julho.

A vitória transformou Ivanišević em herói nacional na Croácia

A conquista teve enorme repercussão na Croácia, país que havia conquistado sua independência na década anterior.

Ivanišević nasceu em Split, cidade costeira do país, e já era um dos atletas croatas mais conhecidos internacionalmente.

O título de Wimbledon provocou uma recepção extraordinária quando retornou para casa.

Em 10 de julho de 2001, milhares de pessoas se reuniram em Split para celebrar a vitória.

Relatos da época estimam que a multidão tenha ultrapassado 150 mil pessoas, transformando a chegada do tenista numa das maiores comemorações esportivas da história do país.

O título também foi dedicado à memória de Dražen Petrović, jogador croata de basquete que morreu em um acidente de carro em 1993.

A homenagem aproximou a conquista de uma memória esportiva importante para o país.

Para Ivanišević, vencer Wimbledon representava uma realização pessoal. Para muitos croatas, também era um momento de reconhecimento internacional.

O feito de 2001 continua único, mesmo depois de 25 anos

Em julho de 2026, Wimbledon voltou a lembrar a conquista de Ivanišević ao completar 25 anos do título.

Naquela edição, o britânico Arthur Fery, que havia recebido um wild card, chegou às semifinais e tornou-se o segundo convidado a alcançar essa fase da chave masculina de Wimbledon desde o croata.

Fery, porém, foi eliminado por Alexander Zverev e não repetiu a conquista de 2001.

O episódio reforçou a dimensão do recorde de Ivanišević.

Jogadores convidados podem surpreender e vencer adversários mais bem colocados, mas conquistar sete partidas consecutivas num Grand Slam exige uma combinação rara de desempenho, resistência física e controle emocional.

O croata conseguiu reunir essas condições justamente quando parecia mais distante de seus melhores anos.

Seu título também permanece como um dos exemplos mais marcantes de superação de derrotas anteriores.

Depois de perder finais em 1992, 1994 e 1998, Ivanišević voltou ao torneio em 2001 sem vaga garantida, enfrentando dores no ombro e um ranking que refletia sua queda de rendimento.

A organização ofereceu a oportunidade de participar.

Ele transformou o convite no maior resultado de sua carreira.

Por que Wimbledon 2001 é considerado um dos maiores contos de fada do tênis?

A conquista reuniu elementos raros numa mesma campanha.

Ivanišević era o 125º colocado do ranking, havia perdido três finais do torneio e precisava de um convite para disputar a chave principal.

Seu desempenho recente não indicava que poderia competir pelo título.

Mesmo assim, eliminou jogadores como Carlos Moyá, Andy Roddick, Marat Safin e Tim Henman antes de enfrentar Patrick Rafter na decisão.

A semifinal precisou de três dias para ser concluída, e a final foi transferida para uma segunda-feira por causa da chuva.

O público transformou a Quadra Central num ambiente incomumente barulhento.

A decisão terminou em cinco sets, com o croata vencendo por 9 a 7 na parcial final depois de desperdiçar três match points.

O resultado encerrou nove anos de espera desde sua primeira final e garantiu o único Grand Slam de sua carreira.

A imagem de Ivanišević chorando sobre a grama de Wimbledon permanece como um símbolo de perseverança no esporte.

Em 9 de julho de 2001, um jogador que havia recebido um convite para participar do torneio deixou a Quadra Central como campeão.

Vinte e cinco anos depois, nenhum outro homem repetiu o feito.

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