Kipchoge correu 42 km em menos de duas horas, usou 41 corredores para cortar o vento e mudou a história da maratona

Kipchoge 1200x675 2

Em 12 de outubro de 2019, o queniano completou os 42,195 km em 1h59min40s, em Viena, com ajuda de um carro de ritmo, corredores revezados e um protótipo de tênis. O tempo não virou recorde mundial oficial, mas antecipou uma revolução tecnológica no atletismo.

Por Marcio Tamer

Atualizado em 20 de outubro de 2026

Em 12 de outubro de 2019, Eliud Kipchoge cruzou a linha de chegada no parque Prater, em Viena, na Áustria, depois de percorrer 42,195 quilômetros em 1h59min40,2s. Pela primeira vez, um ser humano havia completado a distância de uma maratona em menos de duas horas numa tentativa documentada e cronometrada.

O feito exigiu que o queniano mantivesse uma velocidade média superior a 21 km/h durante quase duas horas, sem interrupções. Seu ritmo ficou próximo de 2 minutos e 50 segundos por quilômetro, uma velocidade que corredores recreativos dificilmente conseguem sustentar mesmo em distâncias muito menores.

Mas a marca veio acompanhada de uma distinção decisiva. Kipchoge não estabeleceu um recorde mundial oficial. O desafio, chamado INEOS 1:59 Challenge, foi organizado especificamente para romper a barreira das duas horas, com condições que não eram permitidas nas provas tradicionais homologadas pela World Athletics.

O atleta contou com 41 corredores de ritmo, que se revezavam ao longo do percurso, além de um veículo que ajudava a controlar a velocidade e de um tênis desenvolvido especialmente para maximizar a eficiência da corrida.

Esses recursos não diminuem a exigência física da marca. Kipchoge precisou correr cada metro da distância com as próprias pernas. Eles mostram, porém, que o resultado foi fruto de uma combinação extraordinária entre capacidade atlética, preparação, estratégia e engenharia.

O desafio não respondeu apenas se um ser humano poderia correr uma maratona abaixo de duas horas. Também provocou uma discussão que continuaria nos anos seguintes: quanto do desempenho pertence ao atleta e quanto pode ser ampliado pela tecnologia e pelas condições da prova?

Kipchoge já era recordista mundial antes de tentar quebrar a barreira das duas horas

Quando chegou a Viena, Eliud Kipchoge já havia construído uma das carreiras mais impressionantes da história da corrida de longa distância.

Nascido em 5 de novembro de 1984, no Quênia, destacou-se inicialmente nas provas de pista. Em 2003, aos 18 anos, conquistou o título mundial dos 5.000 metros em Paris, superando adversários como Hicham El Guerrouj e Kenenisa Bekele.

Nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004, conquistou o bronze nos 5.000 metros. Quatro anos depois, em Pequim 2008, ficou com a prata.

A mudança para a maratona aconteceu em 2013.

Na estreia na distância, venceu a Maratona de Hamburgo com 2h05min30s. Ainda naquele ano, terminou em segundo na Maratona de Berlim, atrás do compatriota Wilson Kipsang, que estabeleceu um recorde mundial.

A partir de 2014, Kipchoge iniciou uma sequência extraordinária de vitórias em algumas das principais maratonas do mundo.

Em 2016, conquistou o ouro olímpico no Rio de Janeiro.

Em 16 de setembro de 2018, venceu a Maratona de Berlim em 2h01min39s, estabelecendo o recorde mundial oficial da época.

A marca representou uma redução de 78 segundos em relação ao recorde anterior, de Dennis Kimetto, um avanço excepcional para uma distância em que melhorias de poucos segundos já são significativas.

Mesmo assim, ainda faltavam 100 segundos para a barreira das duas horas.

Essa diferença parecia pequena quando comparada ao tempo total, mas exigia um aumento relevante na velocidade média durante os 42,195 quilômetros.

A primeira tentativa de correr abaixo de duas horas aconteceu em 2017

O desafio de Viena não surgiu do nada.

Em 6 de maio de 2017, Kipchoge participou do projeto Breaking2, organizado pela Nike no autódromo de Monza, na Itália.

O objetivo era verificar se um atleta de elite conseguiria completar a distância da maratona abaixo de duas horas com condições cuidadosamente planejadas.

A tentativa reuniu três corredores: Kipchoge, o etíope Lelisa Desisa e o eritreu Zersenay Tadese.

O queniano chegou mais perto da marca.

Completou os 42,195 quilômetros em 2h00min25s, ficando apenas 25 segundos acima da barreira.

O resultado não foi homologado como recorde mundial porque o evento utilizou recursos incompatíveis com as regras de uma competição oficial, especialmente corredores de ritmo que entravam e saíam do percurso.

Ainda assim, a tentativa mostrou que a barreira estava ao alcance de um atleta excepcional em condições favoráveis.

Dois anos depois, a INEOS financiou uma nova operação, desta vez em Viena.

A experiência acumulada em Monza ajudou a definir o percurso, a estratégia de ritmo e a organização dos corredores que acompanhariam Kipchoge.

O objetivo era eliminar pequenas perdas de tempo que, somadas ao longo de uma maratona, poderiam decidir o sucesso ou o fracasso da tentativa.

Por que Viena foi escolhida para a tentativa histórica?

O percurso escolhido ficava no parque Prater, uma área arborizada da capital austríaca.

A prova utilizou uma longa avenida asfaltada, praticamente plana, com um traçado que permitia manter velocidade constante.

A altitude relativamente baixa, a possibilidade de controlar a logística e as condições climáticas de outubro favoreceram a escolha.

A organização também trabalhou com uma janela de datas, em vez de fixar antecipadamente um único dia. Assim, poderia selecionar condições meteorológicas consideradas adequadas.

O vento era uma preocupação importante.

Mesmo correndo a uma velocidade próxima de 21 km/h, um atleta enfrenta resistência aerodinâmica suficiente para aumentar o gasto energético. Pequenas mudanças no vento podem alterar o esforço necessário para manter o ritmo.

A temperatura também influencia o desempenho. Em provas longas, o corpo precisa dissipar o calor produzido pelo trabalho muscular, e condições excessivamente quentes podem comprometer a capacidade de sustentar velocidades elevadas.

Viena ofereceu um ambiente favorável para administrar essas variáveis.

Mas o percurso, sozinho, não seria suficiente.

A organização desenvolveu uma estratégia de proteção aerodinâmica e controle de velocidade que se tornou uma das características mais discutidas do desafio.

Os 41 corredores de ritmo criaram uma proteção aerodinâmica ao redor de Kipchoge

Uma das principais inovações do INEOS 1:59 Challenge foi a utilização de 41 corredores de elite, organizados em equipes que se revezavam durante o percurso.

Esses atletas eram conhecidos como pacemakers, ou corredores de ritmo.

A função tradicional de um pacemaker é ajudar o competidor principal a manter uma velocidade constante, evitando acelerações e desacelerações desnecessárias.

Em Viena, a estratégia foi além.

Os corredores formavam uma estrutura cuidadosamente planejada ao redor de Kipchoge, com atletas posicionados à frente e nas laterais, para reduzir a resistência do ar.

A formação, frequentemente descrita como semelhante a um V invertido, criava uma região de menor arrasto aerodinâmico para o queniano.

O princípio físico é semelhante ao observado em outras modalidades, como o ciclismo. Quando um atleta se desloca atrás de outros competidores, parte do trabalho necessário para deslocar o ar é realizada por quem está à frente.

A economia de energia pode ser relevante numa prova longa, embora o benefício exato dependa da velocidade, da distância entre os corredores e das condições do vento.

Em Viena, os pacemakers foram organizados em grupos que entravam e saíam do percurso.

Essa possibilidade de substituição foi decisiva para manter a formação durante praticamente toda a distância.

Nenhum dos 41 corredores precisava suportar sozinho o esforço de acompanhar Kipchoge por 42 quilômetros.

O queniano, por outro lado, não teve essa possibilidade. Precisou sustentar o ritmo do início ao fim. <Cite refs={[“turn522545search1″,”turn522545search14”]}/>

Um carro elétrico com laser ajudou a controlar cada segundo da tentativa

À frente dos corredores, um veículo elétrico seguia em velocidade programada.

O carro projetava referências luminosas no asfalto para ajudar a equipe a manter o ritmo planejado.

A estratégia buscava evitar um dos principais problemas das tentativas de recorde em provas longas: gastar energia excessiva nos quilômetros iniciais e perder velocidade no trecho final.

Para completar uma maratona em exatamente duas horas, um corredor precisa manter uma média próxima de 2min50,64s por quilômetro.

Isso equivale a aproximadamente 21,1 km/h.

O objetivo de Kipchoge era ligeiramente mais rápido, para criar uma margem de segurança.

A diferença entre correr cada quilômetro em 2min50s e em 2min52s parece pequena. Ao longo dos 42,195 quilômetros, porém, representa mais de um minuto.

Por isso, a equipe precisava controlar a velocidade com precisão.

O veículo não impulsionava fisicamente Kipchoge, mas oferecia uma referência constante para os pacemakers e contribuía para a organização do grupo.

A presença do carro também levantou discussões sobre possíveis benefícios aerodinâmicos adicionais, embora não seja adequado atribuir a ele uma economia específica sem considerar distância, velocidade e condições do percurso.

A operação foi planejada para reduzir ao máximo as variações de ritmo.

O resultado apareceu no cronômetro.

Kipchoge correu cada quilômetro em aproximadamente 2min50s durante quase duas horas

O tempo final de 1h59min40,2s corresponde a 7.180,2 segundos para percorrer 42,195 quilômetros.

Isso significa que Kipchoge manteve uma média de aproximadamente 2min50,2s por quilômetro, equivalente a 21,16 km/h.

A dimensão do desempenho fica mais clara quando o ritmo é convertido para distâncias menores.

DistânciaTempo equivalente no ritmo médio de Kipchoge
100 metros17 segundos
400 metros1min08s
1 quilômetro2min50s
5 quilômetros14min11s
10 quilômetros28min22s
21,0975 quilômetros59min50s
42,195 quilômetros1h59min40,2s

Os tempos das distâncias intermediárias são equivalências calculadas a partir da média final, não parciais oficiais da tentativa.

O dado mais impressionante não é a velocidade em um trecho isolado.

Corredores de elite conseguem completar um quilômetro muito mais rapidamente do que Kipchoge fez em Viena. O desafio está em sustentar uma velocidade extremamente elevada durante uma distância que exige quase duas horas de esforço contínuo.

A maratona impõe limitações relacionadas ao consumo de oxigênio, à disponibilidade de energia, à eficiência dos movimentos e ao controle da temperatura corporal.

À medida que a distância aumenta, a capacidade de manter a velocidade depende também da economia de corrida, isto é, da quantidade de energia necessária para correr em determinado ritmo.

Kipchoge reunia características fisiológicas excepcionais e uma preparação desenvolvida ao longo de muitos anos.

Em Viena, essas qualidades foram combinadas com condições externas cuidadosamente controladas.

O protótipo do Nike Alphafly ampliou o debate sobre os limites da tecnologia

Outro elemento central da tentativa foi o calçado utilizado por Kipchoge.

O queniano correu com um protótipo de uma nova geração de tênis da Nike, que posteriormente daria origem ao Alphafly NEXT%.

O modelo combinava espuma de alta resposta elástica, estrutura rígida de fibra de carbono e componentes de amortecimento projetados para melhorar a eficiência da passada.

A proposta não era simplesmente oferecer mais conforto.

O objetivo era reduzir a quantidade de energia desperdiçada durante o contato do pé com o solo e favorecer a mecânica da corrida.

A tecnologia vinha sendo desenvolvida havia anos.

Na tentativa de Monza, em 2017, Kipchoge já havia utilizado um modelo da linha Vaporfly, que ajudou a popularizar o conceito dos chamados supertênis.

Pesquisas sobre versões anteriores desses calçados encontraram melhorias médias na economia de corrida em determinadas condições laboratoriais.

Entretanto, é incorreto afirmar que o Alphafly utilizado em Viena devolvia exatamente 4% a mais de energia em cada passada.

O número de 4% ficou associado a estudos sobre economia de corrida com modelos anteriores da linha Vaporfly. Isso não significa um ganho fixo de velocidade, uma redução garantida de quatro pontos percentuais no tempo final ou um benefício idêntico para todos os corredores.

O desempenho depende de fatores como biomecânica individual, velocidade, técnica e interação entre o atleta e o equipamento.

A evolução dos calçados contribuiu para uma transformação nas provas de rua, mas não explica isoladamente a marca de Kipchoge.

A preparação física, a estratégia aerodinâmica e o controle de ritmo também foram fundamentais. <Cite ref=”turn522545search13″/>

Por que o tempo de 1h59min40s não foi reconhecido como recorde mundial?

A principal diferença entre o desafio de Viena e uma maratona oficial estava nas condições de realização.

O INEOS 1:59 Challenge não era uma competição aberta, com atletas disputando posições segundo as regras tradicionais.

Foi uma tentativa organizada especificamente para que Kipchoge completasse a distância abaixo de duas horas.

Os corredores de ritmo podiam entrar e sair do percurso, o que não é permitido da mesma maneira numa prova elegível para recorde mundial.

O sistema de controle de velocidade e a assistência oferecida ao atleta também faziam parte de uma operação planejada para maximizar seu desempenho.

Por isso, o tempo de 1h59min40,2s não substituiu o recorde mundial oficial que Kipchoge havia estabelecido em Berlim, em 2018.

A distinção é importante.

Kipchoge foi o primeiro homem a percorrer a distância de uma maratona abaixo de duas horas numa tentativa documentada, mas não foi o primeiro a conquistar esse resultado numa competição oficial.

Durante vários anos, essa diferença permaneceu como a principal ressalva histórica ao feito de Viena.

Em 2026, porém, o cenário mudou.

Em 2026, Sabastian Sawe quebrou oficialmente a barreira que Kipchoge havia superado em Viena

Em 26 de abril de 2026, o queniano Sabastian Sawe venceu a Maratona de Londres com o tempo de 1h59min30s.

O resultado foi registrado numa competição oficial e estabeleceu um novo recorde mundial, sujeito aos procedimentos habituais de homologação da World Athletics.

Sawe tornou-se o primeiro homem a completar oficialmente uma maratona abaixo de duas horas.

O feito aconteceu quase sete anos depois da tentativa de Kipchoge em Viena.

A prova também teve outro resultado histórico: o etíope Yomif Kejelcha terminou em segundo lugar com 1h59min41s, igualmente abaixo da barreira das duas horas.

A comparação mostra como a maratona evoluiu em poucos anos.

Marco históricoAtletaAnoTempoSituação
Breaking2, MonzaEliud Kipchoge20172h00min25sTentativa não homologável
Maratona de BerlimEliud Kipchoge20182h01min39sRecorde mundial oficial na época
INEOS 1:59, VienaEliud Kipchoge20191h59min40,2sTentativa não homologável
Maratona de BerlimEliud Kipchoge20222h01min09sRecorde mundial oficial na época
Maratona de ChicagoKelvin Kiptum20232h00min35sRecorde mundial oficial na época
Maratona de LondresSabastian Sawe20261h59min30sNovo recorde mundial anunciado pela World Athletics

O recorde de Sawe foi especialmente significativo porque aconteceu numa prova competitiva, com outros atletas disputando o resultado.

Ele não contou com a substituição planejada de dezenas de pacemakers ao longo da distância, como ocorreu em Viena.

Isso não torna os dois feitos idênticos.

A tentativa de Kipchoge foi concebida para testar o limite humano em condições otimizadas. A corrida de Sawe demonstrou que a barreira também podia ser superada dentro das regras de uma maratona oficial. <Cite refs={[“turn241104search0″,”turn241104search6″,”turn241104search11”]}/>

A tentativa de Viena acelerou mudanças nas regras dos tênis de corrida

A popularização dos tênis com placas de carbono e espumas de alto desempenho levou a World Athletics a estabelecer novas regras para os calçados utilizados em competições.

Em 2020, a entidade anunciou restrições relacionadas à espessura das entressolas e à estrutura interna dos modelos.

Nas provas de rua, o limite de altura da entressola passou a ser de 40 milímetros, com exigências específicas sobre placas rígidas e disponibilidade comercial dos produtos.

O objetivo era preservar condições de competição consideradas justas, evitando que protótipos exclusivos oferecessem vantagens tecnológicas indisponíveis aos demais atletas.

As regras passaram por atualizações posteriores.

O debate mostrou que a inovação tecnológica havia se tornado parte central da evolução da corrida de longa distância.

O desenvolvimento dos calçados também estimulou pesquisas sobre economia de corrida, biomecânica e eficiência energética.

A questão deixou de ser apenas quanto um atleta consegue correr.

Passou a incluir quais tecnologias podem ser utilizadas, quais vantagens são aceitáveis e como garantir que os resultados permaneçam comparáveis ao longo do tempo.

A tentativa de Kipchoge ajudou a colocar essas perguntas no centro do atletismo mundial. <Cite refs={[“turn522545search5″,”turn522545search12”]}/>

O que a marca de Kipchoge mudou na história da maratona?

Antes de 2019, a barreira das duas horas era tratada como um dos grandes objetivos ainda não alcançados no atletismo.

A tentativa de Viena demonstrou que um atleta excepcional, em condições cuidadosamente planejadas, conseguia sustentar o ritmo necessário durante os 42,195 quilômetros.

O resultado não provou que qualquer corredor poderia alcançar aquela velocidade, nem que os limites fisiológicos haviam desaparecido.

Mostrou que a combinação entre treinamento, talento, ciência e tecnologia havia avançado o suficiente para tornar possível uma marca que durante muito tempo pareceu distante.

Kipchoge continuou competindo depois de Viena.

Em 2021, conquistou seu segundo ouro olímpico na maratona, nos Jogos de Tóquio.

Em 2022, voltou a estabelecer um recorde mundial oficial, correndo a Maratona de Berlim em 2h01min09s.

Sua carreira passou a reunir conquistas olímpicas, recordes mundiais e a tentativa histórica de 2019.

A marca de Viena permaneceu como um acontecimento singular, mesmo depois de Sawe completar uma maratona oficial em menos de duas horas em 2026.

Os dois resultados representam capítulos diferentes da mesma transformação.

Kipchoge mostrou que a distância poderia ser percorrida abaixo de duas horas em condições otimizadas. Sawe demonstrou que o objetivo também era alcançável numa competição oficial.

O desafio de Viena, portanto, não perdeu importância com o recorde de Londres. Tornou-se o ponto de partida de uma nova etapa da história da maratona, na qual a barreira das duas horas deixou de ser apenas uma possibilidade teórica e passou a ser uma realidade competitiva.

+ Siga o Giro no Facebook
+ Siga o Giro no Instagram

Leia Mais: