Sheringham e Solskjær transformaram uma derrota por 1 a 0 em vitória por 2 a 1 na final da Champions League, no Camp Nou. O Bayern havia acertado duas bolas na trave e estava a poucos segundos do título quando o United protagonizou uma das viradas mais dramáticas da história do futebol.

Por Marcio Tamer

Atualizado em 10 de outubro de 2026

O Bayern de Munique estava a poucos minutos de conquistar a Liga dos Campeões de 1999 quando o Manchester United protagonizou uma das reviravoltas mais impressionantes da história do futebol europeu. Perdendo por 1 a 0 até os 90 minutos, a equipe inglesa marcou duas vezes nos acréscimos e venceu a final por 2 a 1, em 26 de maio, no Camp Nou, em Barcelona.

Os dois gols foram marcados por jogadores que começaram a partida no banco de reservas. Teddy Sheringham empatou aos 90+1 minutos, e Ole Gunnar Solskjær virou aos 90+3, após duas cobranças de escanteio de David Beckham.

A vitória não representou apenas o segundo título europeu do Manchester United. Com ela, o clube completou a tríplice coroa, conquistando o Campeonato Inglês, a Copa da Inglaterra e a Champions League na mesma temporada, algo inédito para uma equipe inglesa naquele momento.

O detalhe que torna a história ainda mais extraordinária é que o Bayern esteve muito mais perto de ampliar a vantagem do que de sofrer o empate durante boa parte da partida. A equipe alemã acertou duas bolas na trave e controlou o placar até os últimos instantes.

O Manchester United chegou à final sem dois jogadores fundamentais

O Manchester United de Alex Ferguson disputou a temporada 1998/99 em três frentes e chegou ao mês de maio com a possibilidade de conquistar os principais títulos do futebol inglês e europeu.

Na Premier League, o time superou o Arsenal por apenas um ponto e garantiu o campeonato na última rodada, em 16 de maio. Seis dias depois, venceu o Newcastle por 2 a 0 na final da Copa da Inglaterra, com gols de Teddy Sheringham e Paul Scholes.

Restava a Champions League.

A campanha europeia havia sido marcada por confrontos difíceis. Na semifinal contra a Juventus, o United empatou por 1 a 1 em Manchester e venceu por 3 a 2 em Turim, depois de sair perdendo por dois gols.

A classificação, porém, teve um custo importante. Roy Keane e Paul Scholes receberam cartões amarelos na semifinal e ficaram suspensos da decisão.

Keane era o capitão e principal referência de intensidade no meio-campo. Scholes contribuía com passes, movimentação e chegada à área. Sem os dois, Ferguson precisou reorganizar a equipe para enfrentar um Bayern forte fisicamente e muito bem estruturado.

A ausência da dupla ajuda a explicar parte das dificuldades do United durante a final. O time inglês chegou ao Camp Nou com uma formação diferente da que havia sustentado suas principais atuações na temporada.

Basler marcou aos seis minutos e colocou o Bayern na frente

O Bayern de Munique, comandado por Ottmar Hitzfeld, entrou em campo com uma equipe experiente, liderada por nomes como Oliver Kahn, Lothar Matthäus, Stefan Effenberg, Mario Basler e Carsten Jancker.

Aos seis minutos, o time alemão abriu o placar.

Mario Basler cobrou uma falta rasteira, superando a barreira e vencendo o goleiro Peter Schmeichel. O gol colocou o Bayern em vantagem praticamente desde o início da decisão.

A equipe alemã passou a administrar o resultado com organização defensiva e capacidade de explorar os espaços deixados pelo Manchester United.

Os ingleses tiveram dificuldades para construir jogadas pelo meio. David Beckham e Ryan Giggs tentavam criar oportunidades pelos lados, enquanto Dwight Yorke e Andy Cole buscavam espaços entre os defensores adversários.

O Bayern, porém, parecia confortável. A vantagem de um gol permitia ao time controlar o ritmo da partida e esperar pelos momentos certos para atacar.

O cenário ficou ainda mais favorável para os alemães no segundo tempo, quando surgiram oportunidades claras para ampliar o placar.

O Bayern acertou duas bolas na trave e quase decidiu a final

A vantagem alemã permaneceu em 1 a 0 durante praticamente toda a partida, mas o placar poderia ter sido maior.

No segundo tempo, Mehmet Scholl tentou encobrir Schmeichel e acertou a trave. Pouco depois, Carsten Jancker finalizou de bicicleta e também encontrou o poste.

As duas oportunidades mostraram que o Bayern não estava apenas se defendendo. A equipe conseguia chegar com perigo ao ataque e esteve próxima de marcar o segundo gol.

Se uma dessas bolas tivesse entrado, o Manchester United precisaria recuperar uma desvantagem ainda maior nos minutos finais.

A resistência inglesa manteve a diferença mínima, condição fundamental para que a virada se tornasse possível.

Enquanto isso, Ferguson tentava modificar a partida com substituições. O treinador sabia que precisava aumentar a presença ofensiva sem perder completamente o equilíbrio da equipe.

Foi nesse momento que dois jogadores do banco começaram a mudar a história da decisão.

Sheringham entrou aos 67 minutos, e Solskjær foi a última aposta de Ferguson

Aos 67 minutos, Ferguson retirou Jesper Blomqvist e colocou Teddy Sheringham em campo. O atacante inglês já havia sido decisivo na final da Copa da Inglaterra, quando marcou contra o Newcastle.

A substituição aumentou a presença ofensiva do United, mas o empate continuou distante. O Bayern manteve sua organização defensiva e aproveitou os espaços para criar oportunidades.

Aos 80 minutos, Hitzfeld retirou Lothar Matthäus e colocou Thorsten Fink. Um minuto depois, Ferguson fez sua segunda alteração ofensiva: Ole Gunnar Solskjær entrou no lugar de Andy Cole.

A saída de Matthäus costuma aparecer nas análises posteriores da partida, mas não há fundamento para atribuir a virada exclusivamente à substituição. O Bayern continuou competitivo e ainda teve oportunidades para ampliar.

Solskjær, conhecido pela capacidade de marcar gols saindo do banco, passou a atuar próximo à área adversária. O United aumentou a pressão nos minutos finais, embora ainda encontrasse dificuldades para superar Oliver Kahn.

Quando o relógio chegou aos 90 minutos, o Bayern continuava vencendo por 1 a 0.

Aos 90+1, um chute errado de Giggs virou o gol de empate

O quarto árbitro indicou três minutos de acréscimo. O Manchester United conquistou um escanteio, e Peter Schmeichel abandonou sua área para tentar participar da jogada ofensiva.

David Beckham cobrou o escanteio. A defesa alemã não conseguiu afastar completamente a bola, que chegou a Ryan Giggs na entrada da área.

Giggs tentou finalizar, mas não acertou o chute como pretendia. A bola saiu fraca e encontrou Teddy Sheringham, que desviou para o gol.

Aos 90+1 minutos, o Manchester United empatou a partida.

O lance foi um exemplo de como uma jogada aparentemente mal executada pode se transformar numa oportunidade decisiva. O chute de Giggs não teria ameaçado Kahn da maneira como foi realizado, mas a presença de Sheringham na área alterou completamente seu destino.

O Bayern precisava agora reorganizar uma equipe que, segundos antes, estava prestes a conquistar o título. A possibilidade de prorrogação parecia o cenário mais provável.

Mas o United ainda teria tempo para mais um ataque.

Aos 90+3, Sheringham desviou e Solskjær completou a virada

Pouco depois do empate, o Manchester United conquistou outro escanteio. Beckham voltou a cobrar, desta vez buscando a região da primeira trave.

Sheringham apareceu para desviar a bola de cabeça. O toque mudou a trajetória do cruzamento e colocou a bola na direção de Ole Gunnar Solskjær.

O norueguês esticou a perna direita e desviou para o alto do gol, sem dar tempo para Kahn reagir.

Aos 90+3 minutos, o Manchester United virou para 2 a 1.

A sequência de gols ocorreu em um intervalo inferior a dois minutos, embora os registros oficiais indiquem o primeiro aos 90+1 e o segundo aos 90+3.

Os jogadores do Bayern ficaram visivelmente abalados. Samuel Kuffour caiu no gramado, enquanto integrantes do Manchester United comemoravam uma vitória que parecia impossível instantes antes.

O árbitro italiano Pierluigi Collina ainda permitiu a retomada da partida, mas o Bayern não conseguiu produzir uma reação.

O apito final confirmou o título inglês.

A cronologia oficial mostra como a final mudou nos últimos minutos

Os registros da UEFA ajudam a separar a sequência real dos acontecimentos das versões simplificadas que circularam posteriormente.

MinutoAcontecimentoSituação
6Mario Basler marca de faltaBayern 1 x 0
67Sheringham entra no lugar de BlomqvistBayern segue à frente
80Matthäus sai, e Thorsten Fink entraBayern segue à frente
81Solskjær substitui Andy ColeBayern segue à frente
90São anunciados três minutos de acréscimoBayern 1 x 0
90+1Sheringham empata após escanteio1 x 1
90+3Solskjær marca após novo escanteioUnited 2 x 1

Os dados confirmam que os dois autores dos gols entraram no segundo tempo, que Beckham cobrou os dois escanteios decisivos e que a virada aconteceu integralmente nos acréscimos. A súmula oficial da UEFA registra os gols aos 90+1 e 90+3.

O título completou uma tríplice coroa inédita para um clube inglês

A vitória no Camp Nou transformou a temporada 1998/99 numa das mais importantes da história do Manchester United.

O clube havia conquistado a Premier League em 16 de maio, com 79 pontos, um a mais que o Arsenal. Em 22 de maio, venceu o Newcastle por 2 a 0 e levantou a FA Cup.

Quatro dias depois, derrotou o Bayern e completou a tríplice coroa formada pelos três principais títulos disponíveis a um clube inglês naquela temporada.

O feito foi inédito no futebol da Inglaterra. Outros clubes europeus já haviam conquistado combinações equivalentes de campeonato nacional, copa nacional e principal torneio continental, mas nenhuma equipe inglesa havia alcançado essa sequência.

O Manchester United só voltaria a ver outro clube inglês completar a mesma tríplice coroa em 2023, quando o Manchester City venceu Premier League, FA Cup e Champions League.

A comparação mostra por que a conquista de 1999 ultrapassou o significado de uma final dramática. O United não venceu apenas um torneio: encerrou uma temporada inteira conquistando as três competições mais importantes que disputava.

A derrota do Bayern também tinha um peso histórico

Para o Bayern de Munique, a final representou uma das derrotas mais dolorosas de sua história.

O clube buscava seu quarto título europeu e havia construído uma campanha sólida sob comando de Ottmar Hitzfeld. Durante quase toda a decisão, conseguiu neutralizar o ataque inglês e esteve próximo de ampliar o placar.

A virada nos acréscimos interrompeu a possibilidade de uma tríplice coroa alemã naquela temporada. O Bayern havia conquistado a Bundesliga, mas também perderia a final da Copa da Alemanha para o Werder Bremen, nos pênaltis, poucos dias depois.

A equipe, porém, retornou ao topo da Europa rapidamente.

Em 2001, o Bayern conquistou a Liga dos Campeões ao derrotar o Valencia nos pênaltis, encerrando uma espera de 25 anos pelo principal título continental.

Oliver Kahn, que havia sofrido a virada de 1999, foi um dos protagonistas da conquista de 2001. O goleiro defendeu três cobranças na decisão contra os espanhóis.

A revanche esportiva não apagou a derrota de Barcelona, mas demonstrou a capacidade de recuperação de uma equipe que havia perdido um título europeu nos instantes finais.

A frase de Ferguson virou símbolo da noite mais improvável do United

Depois da partida, Alex Ferguson concedeu uma entrevista que entrou para a história do futebol.

Ao tentar explicar o que havia acabado de acontecer, o treinador resumiu sua incredulidade com a frase: “Football, bloody hell!”

A expressão, que pode ser traduzida livremente como uma reação de espanto diante do futebol, tornou-se uma das declarações mais lembradas da carreira do escocês.

Ferguson havia conquistado seu primeiro título da Liga dos Campeões como treinador do Manchester United. Nove anos depois, em 2008, voltaria a levantar o troféu ao derrotar o Chelsea nos pênaltis, em Moscou.

A final de 1999, porém, permaneceu singular por sua sequência de acontecimentos.

O United passou praticamente toda a partida atrás no placar, viu o Bayern acertar duas bolas na trave e só conseguiu empatar quando o tempo regulamentar já havia terminado.

A vitória surgiu de dois escanteios, dois jogadores que começaram no banco e uma sucessão de lances que mudou o resultado antes que os alemães conseguissem reagir.

Mais de duas décadas depois, os três minutos do Camp Nou continuam históricos

A final de 1999 permanece como uma das maiores reviravoltas já registradas numa decisão da Liga dos Campeões.

O Manchester United não dominou o Bayern durante a maior parte da partida. A equipe alemã foi superior em diversos momentos, criou oportunidades claras e manteve a vantagem até os acréscimos.

A diferença surgiu na capacidade inglesa de continuar atacando e aproveitar as últimas bolas disponíveis.

Sheringham transformou um chute mal executado de Giggs no empate. Solskjær aproveitou um desvio do próprio Sheringham para completar a virada.

O resultado consolidou a tríplice coroa do Manchester United e marcou a despedida de Peter Schmeichel, que disputou sua última partida pelo clube naquela noite.

A final também se tornou uma referência sobre como decisões de futebol podem mudar rapidamente. Em poucos segundos, o Bayern passou de campeão praticamente confirmado a vice-campeão.

Em 26 de maio de 1999, o Manchester United precisava de um gol para sobreviver. Marcou dois.

A temporada que já era histórica terminou com um desfecho que parecia impossível quando o relógio chegou aos 90 minutos. E os três minutos de acréscimo do Camp Nou se transformaram em um dos capítulos mais lembrados da história do futebol europeu.

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